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segunda-feira, 21 de março de 2016

A ANT LANÇA COMUNICADO SOBRE CRISE ATUAL

COMUNICADO ANT 02:

A CRISE ATUAL E COMO SAIR DELA:
CONTRA O CAPITAL RUMO À AUTONOMIA DO PROLETARIADO

A crise atual é, por um lado, uma crise financeira, e, por outro, uma crise político-institucional. A crise financeira é produto da desestabilização do regime de acumulação integral (caracterizado pela execução de políticas neoliberais, aumento da repressão policial, aumento da exploração e precarização do trabalho, entre diversos outros aspectos) que vem ocorrendo nos últimos anos no caso brasileiro. O regime de acumulação integral foi instaurado no Brasil a partir do Governo Collor, nos anos 1990, e se consolidou na década seguinte, sendo que nos últimos anos vem demonstrando um processo de desestabilização, o que é expresso por sua crise financeira e outras dificuldades de reprodução.

Ao lado disso, a disputa pelo poder entre alas do bloco dominante (composto pelas forças organizadas e conscientes a serviço do capital, ou seja, da classe capitalista) se acirra. Esse processo se iniciou desde 2013, quando as grandes manifestações populares mostraram a fragilidade do Governo Dilma. No ano seguinte esse processo se manifestou na disputa eleitoral, e em 2015 a disputa entre governistas e antigovernistas, envolvendo partidos, grupos, movimentos sociais, etc. em ambos os lados e ganhou forma na proposta de impeachment. Nesse momento, desde o processo eleitoral, criou uma falsa polarização entre governistas (a ala governista do bloco dominante, representada pelo Governo Dilma e PT), e oposicionistas (a ala oposicionista e a ala extremista do bloco dominante, representado por PSDB e organizações financiadas pelos Estados Unidos). No caso dos partidos políticos, é apenas uma disputa por quem controlará e usufruirá os privilégios de estar no aparato estatal, pois ambos representam os interesses do capital, sendo, portanto, contra os trabalhadores.

A crise financeira e a crise político-institucional se reforçam mutuamente. O Governo Dilma, devido interesses eleitoreiros, realizou uma política ambígua e indecisa, aumentando a crise. Ao lado disso, as acusações de corrupção aumentaram e foi ocorrendo uma progressiva perda de apoio do Governo Dilma. Esse ano houve um acirramento da disputa em torno do impeachment, um cerco sobre o governo Dilma dos meios oligopolistas de comunicação, poder judiciário e polícia federal.

Qual nossa posição diante desta crise? A ANT se coloca contrária à polarização estabelecida entre ala governista e ala oposicionista do bloco dominante. Nesse sentido, tanto faz qual será o partido ou presidente que efetivará políticas contra os trabalhadores. O que nos interessa é preparar os trabalhadores para combater tais políticas e os efeitos da crise financeira sobre os trabalhadores. A crise financeira para ser solucionada requer medidas voltadas para o aumento da exploração dos trabalhadores e estes só podem resistir e minimizar esse processo através de suas lutas, auto-organização, desenvolvimento da consciência revolucionária. É preciso deixar bem claro que aqueles que defendem o Governo Dilma, que efetivou diversas medidas contra os trabalhadores e planeja outras que estão sendo entendidas como necessárias, apoiam as políticas que prejudicam a maioria da população. Quem é a favor do governo é contra o proletariado, independentemente de quem está no aparato estatal, pois este expressa o interesse da classe dominante.

A luta dos trabalhadores deve ser autônoma e independente. Os trabalhadores devem se organizar e não ligar para os shows pirotécnicos das manifestações e nem pensar que esta é a única e mais eficaz forma de luta. As manifestações são apenas formas de pressão e agora assumiu o papel de medição de forças entre as alas em disputa do bloco dominante (petistas e antipetistas). Essa polarização entre forças organizadas e opostas das classes privilegiadas nada tem a ver com os interesses dos trabalhadores, que devem se opor a ambos e colocar sua posição de classe, proletária.

Nesse sentido, a ANT lança um chamado para a auto-organização dos trabalhadores, a ampliação de sua formação política e cultural, lutando, simultaneamente, contra as políticas governamentais nefastas que prejudicam os trabalhadores e pela transformação social radical. Ou seja, uma luta defensiva visando impedir a deterioração do nível de vida dos trabalhadores ao lado de uma luta ofensiva, através da auto-organização e autoformação dos trabalhadores e ações estratégicas visando a transformação total e radical da sociedade.

A forma de luta principal, nesse caso, não é a manifestação (que pode e deve ocorrer como forma secundária de luta) e sim a greve. É através da greve que os trabalhadores podem realizar uma pressão poderosa sobre as empresas capitalistas e o Estado, pois elas atingem o grande objetivo da classe dominante: o lucro. Devemos fazer brotar milhares de movimentos grevistas no país, tanto por questões específicas como também por questões gerais. Para realizar esse amplo movimento grevista, é necessário a formação de núcleos da ANT em todo o país e realizar uma ampla propaganda a favor da greve como principal forma de luta dos trabalhadores.

As greves reivindicativas são lutas defensivas que precisam ser complementadas por um planejamento de uma greve geral nacional. A greve geral nacional deve ser, ao mesmo tempo, uma demonstração de força dos trabalhadores, um processo de união do conjunto dos trabalhadores e a primeira forma ampliada de auto-organização e primeiro passa para a constituição da autogestão social.

http://ant-luta.blogspot.com.br/2016/03/comunicado-ant-02-crise-atual-e-como.html

domingo, 12 de fevereiro de 2012

A luta continua na Grécia: greves, ocupações e manifestações...


Segundo dia de greve: Aumentam as ocupações e manifestações na véspera da grande manifestação de domingo

Aumentam as ocupações e manifestações em todas as cidades do território do Estado grego, um dia antes da grande manifestação de domingo, 12 de fevereiro, na praça principal de Atenas, assim como nas maiores praças de quase todas as cidades.

Abaixo a Ditadura e seu regime! Revolução ou submissão, capitalismo ou liberdade!

Atenas: A manifestação do segundo dia da greve geral foi menor do que no primeiro dia. Cerca de 5.000 pessoas se manifestaram no centro de Atenas. A marcha passou pelo Parlamento e terminou no local onde tinha começado, no Propileos da antiga Universidade, a poucos passos do Parlamento como da ocupada Faculdade de Direito. Durante a manifestação o edifício da Faculdade de Direito ocupada esteve cercada por agentes da chamada tropa de choque. No final da marcha, o bloco anarquista foi para o prédio da Ocupação e obrigou os policiais a retirar-se. Poucos confrontos ocorreram do lado de fora do Parlamento entre manifestantes que tentavam ficar lá e os cães da tropa de choque que guardavam seus amos.

Um pouco antes do início da manifestação, um grupo de anarquistas e jovens rebelados contra o Regime e seus asseclas perseguiram policiais à paisana.

Manifestações e marchas foram realizadas em vários bairros de Atenas. Ontem, 10 de fevereiro, aconteceu a primeira assembléia na ocupação da Prefeitura do bairro de Jolargós. A assembléia durou mais de 4 horas, com a presença de centenas de pessoas. A Ocupação continua e hoje, 11 de fevereiro, será realizada a segunda assembléia no mesmo lugar. No bairro de Ilion, cerca de 150 pessoas marcharam gritando slogans contra o capitalismo, o estado de emergência, as novas medidas de austeridade e escravidão e os ideais nacionais (fotos). Lembramos que neste bairro há poucos dias tinha sido realizada uma ação contra as medidas de proibição de colocação de cartazes em espaços públicos e fachadas de bancos.

Todo mundo está se preparando para a grande manifestação de amanhã, domingo, 12 de fevereiro, na Praça Syntagma, em frente ao Parlamento.

Também continua a ocupação da Faculdade de Direito no centro de Atenas assim como da Casa do Trabalhador.

Tessalônica: Milhares de pessoas se manifestaram contra as penosas medidas que levam o povo grego à escravidão. Os sindicatos de base, juntamente com coletividades e várias pessoas, ocuparam o maior e o mais conhecido cinema da cidade, chamado Olympion. A ocupação do Olympion constituirá o centro da luta auto-organizada e independente contra a barbárie que nos estão impondo. Já foi realizada uma assembléia dentro do Olympion ocupado.

Patras: Na terceira cidade mais populosa da Grécia mais de 1.000 pessoas, a maioria esquerdistas e anarquistas, participaram da manifestação de hoje (fotos). Durante a marcha foram feitos ataques a caixas eletrônicos de bancos, lojas e câmeras de vigilância. Confrontos entre a Polícia e manifestantes foram registrados. Ressaltamos a ação de um grupo de anarquistas, que expropriou bens de primeira necessidade em um supermercado e distribuíram tudo para as pessoas em um mercadinho local.

Heraclion, Creta: A manifestação da manhã foi menor do que a enorme manifestação de ontem. O bloco anarquista foi para os bairros da cidade. Em seguida passou pelo canal de TV Creta, onde uma ação foi realizada durante o noticiário. O programa que foi produzido pelos companheiros durante a sua intervenção está disponível aqui. Logo depois, o bloco passou nas prisões locais, onde houve uma ação de meia hora em solidariedade com os presos. Na parte da tarde mais de 300 anarquistas, libertários e outros companheiros realizaram outra marcha no centro da cidade. Eles gritaram slogans de solidariedade com os grevistas da "Aciaria Grega" e os presos políticos e contra a situação econômica e política imposta pela Soberania.

Récimno, Creta: Segue a ocupação da Prefeitura. A manifestação de hoje terminou no prédio da Prefeitura ocupada. Ações de contra-informação tiveram lugar no centro e nos bairros da cidade.

Vólos, Tessália: Cerca de 400 pessoas manifestaram-se sob chuva, como ontem, 10 de fevereiro.

Ilhas de Jios e Lesbos: Manifestações em ambas as ilhas foram realizadas ontem e hoje (fotos). Em ambas a participação foi grande e para amanhã se espera a maior manifestação na história das ilhas.

Levadia, Grécia peninsular: Intervenção em um evento do partido de extrema-direita Laos, que até ontem participa no governo (fotos).

Kavala, norte da Grécia: duas manifestações de aproximadamente 500 pessoas, tanto ontem, 10 de fevereiro, como hoje.

Ioannina, Epiro: Mais de 1.500 manifestantes marcharam pelas ruas do centro da cidade, apesar do frio e das condições meteorológicas desfavoráveis. A marcha foi até o Centro Cultural, onde as pessoas tentaram entrar para ocupá-lo e realizar uma assembléia, mas a Polícia reprimiu a ação.

agência de notícias anarquistas-ana

Quando amanhece,

Beijo a brisa que me beija:

O dia agradece.

João de Deus Souto Filho

sábado, 11 de fevereiro de 2012

GREVE NA GRÉCIA, CONFRONTOS, OCUPAÇÕES

Primeiro dia da greve de 48 horas: Confrontos com a Polícia e ocupações de Ministérios e Prefeituras em toda a Grécia
Atenas: A participação na manifestação do primeiro dia da greve de 48 horas foi inferior à esperada. A manifestação de mais de 10.000 pessoas começou um pouco depois do meio-dia com conflitos na praça principal de Atenas, Sintagma, entre manifestantes de um lado e numerosos agentes das forças repressivas e policiais secretos e fascistas do outro. Um manifestante ficou gravemente ferido e 7 foram presos, apesar de que houve cerca de 15 prisões preventivas.
Nas ruas circundantes agentes da equipe motorizada da Polícia grega investiram contra manifestantes batendo em muitos deles. Os enfrentamentos nas ruas do centro duraram várias horas. Os agentes da chamada tropa de choque atacaram e bateram a sangue frio num manifestante, jogaram-no ao chão, e em seguida ficaram um bom tempo dando chutes e depois lançaram granadas de ruído enquanto ele estava caído e sangrando no chão (foto).
Pode ser que a manifestação não teve as características quantitativas esperadas, mas as características qualitativas do protesto foram muito significantes. A fúria e a insistência dos manifestantes durante os confrontos eram grandes. As pessoas não retrocediam diante das investidas da Polícia, apesar do uso excessivo de gás lacrimogêneo e produtos químicos por parte dela. Em várias ocasiões grupos de pessoas resgataram os manifestantes detidos pela Polícia ou outros prestes a ser presos, evitando a sua detenção. É interessante assinalar a surra que vários manifestantes deram em um grupo de fascistas que apareceram para acompanhar seus irmãos de farda.
No bairro de Jolargós a Assembléia Popular Aberta local passou a ocupar a Prefeitura. Às 18 horas, houve uma assembléia realizada na Prefeitura ocupada. Os membros da Assembléia Popular fizeram um chamado para ocupações nos conselhos de todos os bairros e a grande manifestação de domingo em frente ao Parlamento.
Heraclion, Creta: Enorme e combativa manifestação do primeiro dia da greve de 48 horas. Mais de 10.000 pessoas marcharam pelas ruas do centro de Heraclion. Foi uma das maiores manifestações realizadas na cidade. Houve vários ataques a bancos e pichações de slogans contra o Regime, Bancos, e em solidariedade com os grevistas da rede de supermercados Ariadna (fotos).
Chania, Creta: Muito grande para os padrões da cidade a manifestação do primeiro dia da greve de 48 horas. A manifestação de mais de 3.000 pessoas acabou na Prefeitura, onde vários dos manifestantes procederam a sua ocupação. A Ocupação está fazendo contínuas chamadas em toda a cidade, para as manifestações de amanhã e depois de amanhã. Estudantes universitários locais ocuparam a Escola Politécnica Superior, chamando as pessoas a se rebelar contra a Tirania.
Récimno, Creta: Ocupação da Prefeitura. Hoje, no primeiro dia da ocupação montaram uma festa comunitária fora da Prefeitura (foto).
Larissa, Tessália: Os participantes da manifestação do meio-dia ocuparam o prédio da Administração da Região de Tessália. O lema principal da Ocupação é indicativo: "Não há mais tempo. É agora ou nunca".
Corfu: Ocupação do edifício da Administração da Região das Ilhas Jónicas. Na ocupação participaram quase todos os sindicatos de base da ilha.
Berea: um grande grupo de manifestantes ocupou o prédio da Administração local.
Continuam as ocupações da Faculdade de Direito de Atenas por anarquistas, anti-autoritários e libertários, da Casa do Trabalhador em Atenas, do Ministério da Saúde e do Ministério do Trabalho.
Vídeos:
agência de notícias anarquistas-ana
Um pingo de orvalho
vem rolando pela folha -
Vai-se a madrugada.
Alberto Murata

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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

[Itália] Comunicado sobre os acontecimentos de 15 de outubro, em Roma

[Itália] Comunicado sobre os acontecimentos de 15 de outubro, em Roma

Roma, Itália, 15 de outubro de 2011: estoura uma ira incontrolável durante uma manifestação contra as medidas de austeridade impostas pelo governo para enfrentar à crise econômica.

Organizadores oficiais, inspirados no movimento espanhol dos “Indignados”, havia feito um chamado para uma “manifestação pacífica” para democraticamente expressarem seu desacordo. Mas tal convite não pode ser aceito: centenas de pessoas furiosas, a maioria delas crianças na adolescência, sem relação alguma com grupos ou organizações políticas, apenas tomaram as ruas de Roma para destruir a miséria existente, atacar bancos e lojas e, finalmente, envolver-se em uma batalha contra a polícia na praça de San Giovanni.

Pelo que sabemos, 12 meninos foram presos naquele dia, a maioria deles menores de idade. Dois dias depois, em 17 de outubro, a polícia invadiu as casas de dezenas de anarquistas por toda a Itália, em busca de “armas”, supostamente utilizadas durante a manifestação. A busca, conduzida sem um mandado, mas contando com os poderes especiais concedidos pelo artigo 41 TULPS (suposta posse de armas e explosivos), foi em vão.

Este comunicado do Asilo Occupato de Turim, coletado entre muitos outros, oferece uma boa visão do evento.

Comunicado:

Uma marcha foi realizada em Roma em 15 de outubro contra as novas medidas financeiras do governo e as medidas de austeridade adotadas para enfrentar o fantasma desgastado da crise. Na prática, as pessoas tomaram as ruas para reagir à ameaça de mais uma temporada de lágrimas e sangue, em detrimento dos mais pobres, sempre forçados a apertar o cinto e suportar o sacrifício diário e a exploração em um mundo cheio de mercadoria e regido pelos interesses de uns poucos que têm condições de consumir.

Para os organizadores, a sinistra caravana de cidadãos e “indignados” italianos estava destinada a ser uma marcha pacífica, uma caminhada animada, porém respeitosa, “para dar nossa opinião”, para expressar o inofensivo zumbido de opiniões timidamente e de dentro das linhas. Um pacote preparado com antecedência, um filme já visto e cujo fim era previsível, tudo dentro do equilíbrio de uma normalidade bem gerida. O jogo limpo entre o poder e os recuperadores da ira permite o funcionamento do deserto da democracia real asfixiando o assalto das paixões hostis.

Mas desta vez não houve drama, a marcha rompeu com as primeiras janelas quebradas, e o espetáculo virou fumaça entre as nuvens de gás lacrimogêneo e chuva de pedras.

Um ritmo caótico da destruição de caixas eletrônicos e lojas ressoam na Via Cavour, um mercado saqueado e carros destruídos, ou seja, a expressão de uma ira que aponta à esquerda e a direita.

Organizar-se para golpear os bancos e provocações de luxo é o primeiro passo para invadir as ruas e derrubar os lugares físicos da exploração, um por um. Saber como e quando fazê-lo é uma questão de tempo, espaço e uma grande quantidade de métodos a serem aprendidos na prática: por fogo em um carro, a fim de erguer uma barricada, é uma coisa diferente para fazer no meio de uma marcha que põe em risco o resto dos manifestantes e aqueles que vivem no edifício em frente, o que também afasta os eventuais cúmplices. Capuzes e capacetes pretos são ferramentas úteis para se proteger e manter o anonimato, mas não é um uniforme para mostrar. Vamos sair da lógica dos blocos militares para pressionar o regime e dos relatórios da polícia, somos proletários furiosos. Hoje em dia, o ódio dos chefes e da polícia não é exclusivo dos setores militantes, esgotados por anos de isolamento e a busca de pureza, mas uma realidade que está explodindo nas vidas de muitas pessoas.

14 de dezembro de 2010, em Roma, as batalhas de Val Susa contra o TAV (Trem de Alta Velocidade), as revoltas na Grécia e as expropriações massivas em Londres, nos dizem algo sobre a temperatura social do presente em que vivemos, de como a resistência deixou de ser moda. Não nos importa os gestos demonstrativos e alusões à revolta. Como um inverno muito longo de pacificação que parece finalmente acabar, a rebelião não passa através de símbolos, embora estes sejam mais belos e sugestivos que os zumbis da política, mas passa através de ações e instrumentos práticos e eficientes. Identidades e fetiches ideológicos impõem-se exatamente devido à falta histórica de insurreição, enquanto hoje prever a possibilidade de uma insurreição significa assumir a responsabilidade de olhar para cima.

A batalha da praça San Giovanni foi uma oportunidade para medir-se contra o poder de polícia, e naquele dia tomou o fôlego de massas. Havia pessoas de todas as origens e idades para enfrentar as ordens policiais, muitas sem máscaras e em sua primeira experiência nas ruas... nada estava arranjado e determinado de antemão. O momento mais forte e mais explosivo da manifestação - que derrubou todos os planos, agitou o sangue e pôs a atmosfera calorosa - teve, como protagonista único, a determinação de apoderar-se de uma praça e defendê-la, com uma ira descontrolada e generalizada.

Há muito a aprender com esta demonstração de valor, exposta especialmente por crianças fartas sem bandeiras, como muitos de seus companheiros em muitas outras cidades do mundo. O que é Black Bloc? O instinto, a inteligência prática e a reciprocidade repentina de intenções: atacar um carro da polícia, re-lançar o gás lacrimogêneo e enfrentar a polícia. O grito é Roma Livre. Os vândalos podem fazê-lo por si mesmos.

A organização de pequenos grupos, afinidades e amizades, precisão de objetivos e agilidade são as características comuns que nos faz quase invisíveis aos olhos do inimigo. O cenário de guerra civil que ecoa em muitas partes do mundo se paralisou com a apagada imagem do protesto espanhol... a parte dos cidadãos perdeu. A chamada de rebelião é muito mais forte. Não vamos voltar sempre... Vão à merda!

Asilo Occupato de Via Alessandria 12, Turim.
agência de notícias anarquistas-ana
Quarta-feira, 19 de outubro de 2011

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Revolta na Líbia

Revoltosos querem derrubar ditador no poder há 42 anos

27/2/2011
Alegando o desejo de nacionalizar as reservas de petróleo do país, Muammar Kadafi instalou a ditadura
A maior onda de revolta popular de toda a ditadura líbia se abate sobre o país. Com 42 anos no poder, o presidente Muammar Kadafi se recusa a renunciar e diz que morrerá como mártir. Em uma tentativa de permanecer no poder, o ditador mandou as forças do governo abrirem fogo contra os manifestantes. Combates sangrentos acontecem por todo o país desde o dia 14 de fevereiro, quando os protestos tiveram início.

Com um histórico de domínio por outros país e de uma ditadura que dura mais de quatro década, a população clama por melhores condições de vida e pelo direito de decidir os rumos de seu país. Como o efeito de uma onda, a derrubada dos presidentes da Tunísia e do Egito, desencadearam na Líbia um sentimento que estava latente no seu povo - o desejo de ter liberdade.

Apesar de ser, hoje, um dos países mais prósperos da África, com a desigualdade social como marca, até os anos 1950, a Líbia era uma das nações mais pobres do continente. Localizada no Norte africano, é um país desértico e sem rios permanentes, cuja população, estruturada em uma sociedade tribal, se fixou no litoral do Mar Mediterrâneo onde ocorrem alguns chuvas ao longo do ano.

O panorama de extrema pobreza registrado na primeira metade do século XX, se transformou com a descoberta do petróleo, em 1959. A extração do ouro negro possibilitou o desenvolvimento do país e lhe proporcionou, atualmente, o melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do continente africano - 0,755. A expectativa de vida também é alta para a região, 72,2 anos para homens e 77,4 para mulheres.

O petróleo é o grande responsável pelos números que marcam a economia da nação. O Produto Interno Bruto (PIB) foi, em 2009, de US$ 62,36 bilhões, sendo 78 % desse montante proveniente da indústria, principalmente extrativista, já que o país não refina o petróleo extraído. As exportações (US$ 63,05 bilhões) são quase cinco vezes maiores do que as importações (US$ 11,5 bilhões), dados do ano de 2008.

Ponto estratégicoGraças a sua posição estratégica, a costa líbia foi ocupada por diferentes povos na Antiguidade. Fez parte do Império Bizantino (século IV) e do Império Turco-Otomano (século XVI). Em 1911, é invadido pela Itália, cuja colonização se consolidou em 1934. Em seguida, durante a II Guerra Mundial, França e Reino Unido dividem o país.

Em 1949, a Organização das Nações Unidas (ONU), em um acordo com os dois países europeus, concede a Coroaao rei Idris I. O reino da Líbia consegue a independência em 1951. Quando completa a maioridade, a monarquia é derrubada por Muammar Kadafi, em 1969.

O então capital do exército, hoje coronel, substitui a bandeira da monarquia - vermelha, preta e verde, com uma lua e uma estrela - por uma bandeira toda verde. Os manifestantes que lutam há 13 dias para derrubá-lo do poder usam a antiga bandeira como forma de negar o a nação dominada por Muammar Kadafi.

Com o argumento de nacionalizar as reservas de petróleo e reforçar as tradições islâmicas, o ditador instala a ditadura que está prestes a ruir.

O governo líbio passa a ser acusado financiar atividades terroristas em apoio à causa palestina. Na década de 1980, os EUA impõem sanções econômicas e bombardeiam Trípoli e Benghazi para destruir campos de treinamento terrorista.

Uma grande crise, envolvendo o atentado à bomba que derrubou um avião da Pan Am, na Escócia, matando 270 pessoas, a maioria americanos, desencadeou no isolamento do país.

Dois agentes líbios são responsabilizados pelo atentado. A negativa do governo líbio em extraditar os acusados faz com que a ONU dê início, em 1992, a um amplo embargo contra a Líbia. Sete anos depois, Kadafi cede, aceitando o julgamento dos acusados pelo atentado, dá início a privatizações e rompe com o Irã, como reação ao fundamentalismo islâmico.

O isolamento internacional da Líbia acaba em 2003, quando a Organização das Nações Unidas (ONU) anula as sanções que prejudicavam a economia.

Grandes companhias petrolíferas americanas voltam a operar no país, em 2005, cuja produção estava parada desde 1986. No ano seguinte a retomada, as relações diplomáticas com os Estados Unidos são restabelecidas e a nação sai da lista dos países que apoiam o terrorismo.

O corte dos laços diplomáticos com os EUA aconteceu mais uma vez na sexta-feira, após menos de cincos anos de relativa calmaria. A reação violenta das forças armadas contra os manifestantes contrários ao governo fez com que o presidente americano Barack Obama anunciasse o rompimento com a nação.

Outros países ocidentais seguem no mesmo rumo. A Suíça, antes mesmo da queda do ditador, bloqueou suas contas e de seus familiares. França, Reino Unido e Estados Unidos estão em contato direto para realizar uma série de ações contra o governo líbio. O Conselho de Direitos Humanos da ONU condenou na sexta-feira a violência praticada pelas forças líbias contra manifestantes, e iniciou uma investigação internacional sobre possível ocorrência de crimes contra a humanidade.

Por unanimidade, os 47 países integrantes do Conselho adotaram uma resolução que denuncia assassinatos, prisões e torturas de civis durante manifestações pacíficas. Os EUA não descartam uma intervenção.

Análise
Para o professor de Ciências Políticas do Curso de Direito da Universidade de Fortaleza (Unifor), Francisco Moreira, a revolta na Líbia, assim como as outras nos países vizinhos tem, predominantemente, um fundo material, marcada pela completa insatisfação da população.

"A região se tornou explosiva pelo acúmulo de problemas ao longo dos anos, com o autoritarismo e o centralismo das ditaduras. Esse é um período de transformação, cujas causas são a negação dos direitos básicos da população", afirma.

Outro ponto importante apontado pelo professor é o envolvimento decisivo dos jovens nas manifestações. "Os jovens tem uma abertura para o mundo. São mais afeitos ao que acontece no mundo e tem uma visão diferente da dos mais velhos. Essa é uma onda nova. Mas temos que esperar com prudência pelos resultados", frisa, lembrando que os líbios, assim como pessoas de outros países do Oriente Médio, não conhecem a democracia. "Pelo menos não a democracia a que estamos acostumados no Ocidente", diz.

Entretanto, para Moreira, uma coisa é certa: não há volta. "Não tem retorno. Toda a região está se envolvendo nesse movimento. Com certeza algo de novo vai acontecer, mas ainda não dá pra dizer como será", diz.

KÉLIA JÁCOMEESPECIAL PARA O INTERNACIONAL
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=941085