GRUPOS
REVOLUCIONÁRIOS E SECTARISMO
DESMASCARANDO UMA PSEUDOCRÍTICA
Movaut*
É comum nas lutas
sociais e políticas na nossa sociedade existirem críticas ao movimento
revolucionário e aos grupos revolucionários. Algumas críticas são honestas e
buscam efetivamente mostrar discordâncias de concepção, estratégia, etc. Outras
são simplesmente oportunistas e algumas supostas críticas são, na verdade,
pseudocríticas. Uma forma assumida pela pseudocrítica é a que usa o discurso
retórico e falso contra os grupos revolucionários acusando-os de “sectarismo”.
Ela emerge a partir de indivíduos portadores de interesses pessoais pouco
nobres e narcisismo exacerbado, ou de interesses político-partidários, entre
outras possibilidades. Nesse sentido, é necessário desmascarar tais
pseudocríticas.
Uma crítica aos
grupos revolucionários pode ser feita sem problemas, pois é possível questionar
suas posições, estratégias, forma organizativa, etc. E tal crítica pode ser
realizada a partir da concepção conservadora, reformista, entre outras
possibilidades. Porém, quando não se trata de crítica efetiva, ou seja,
fundamentada e honesta, então é uma crítica improfícua, e quando é retórica e
desonesta, é uma pseudocrítica. Na história do movimento político mundial,
existiram muitas críticas e pseudocríticas aos grupos revolucionários. Não
vamos retomar esse debate histórico e vamos evitar citá-lo em grande
quantidade, pois embora seja esclarecedor e mostra como um debate pode ser
honesto e fundamentado quando realizado por pessoas com formação política e honestidade,
como pode ser mera pseudocrítica e seus recursos, isso nos faria gastar muita
tinta.
Uma das “críticas”
mais recentes que emergiu sobre os grupos revolucionários é um suposto
“sectarismo”. Sem dúvida, pela forma como isso emerge, trata-se de uma
pseudocrítica. Não há fundamentação, não há concreticidade, não há honestidade.
O que há é abstratificação, rotulação, homogeneização, entre outros artifícios
usados pelo discurso retórico[1].
Existem aqueles que evitam colocar nomes dos adversários que supostamente estão
criticando, num movimento intelectual covarde e oportunista, pois assim impede
a resposta e evita a concreticidade (se usa o termo geral “grupos
revolucionários” e se limita a abstratificações, então é aparentemente
“irrefutável”, mas isso é só aparência, como mostraremos adiante). Alguns
jovens e outros, não tão jovens, influenciados pelo ecletismo (e oportunismo
que geralmente lhe acompanha)[2], o
que se percebe no jogo de palavras, retórica e termos subjetivistas, querem
combater os grupos revolucionários, ou pelo menos alguns deles, atribuindo a
eles um suposto “sectarismo”.
Podemos enxergar
nesses pseudocríticos um tipo de “contestador” atual, aquartelado e bem
acomodado nas instituições universitárias (ou buscando ansiosamente um espaço
na academia) que brinca de ser “crítico” ou até mesmo “revolucionário” sem
abrir mão de vínculos, alianças, ecletismo, pois usa isso como forma de
conseguir atingir interesses pessoais que busca ocultar. Omitiremos os autores
de tais discursos e trataremos apenas do discurso em si. O nosso foco,
portanto, é o discurso de acusação (pois, não sabemos por qual motivo, tais
indivíduos se julgam juízes para julgar os grupos revolucionários que eles
mesmo tratam como ineficazes e insignificantes, caindo em diversas contradições
e falácias) aos grupos revolucionários por supostamente eles serem “sectários”.
Para ficar mais fácil discutir vamos sintetizar as principais afirmações (sem fundamentação
e sem nada de concreto por detrás delas) do autor de tal discurso que doravante
chamaremos de “pseudocrítico”. Eis uma síntese do que diz a pseudocrítica dos
grupos revolucionários:
“Certos grupos revolucionários, em períodos de
retração do movimento operário, adotam uma abordagem peculiar de “sobrevivência
intelectual”. Eles estabelecem uma forma de “tradição revolucionária” que, de
maneira rigorosa e criteriosa, cria um ciclo fechado de ideias, textos e
debates que se restringem ao próprio coletivo. Eles criam um “mundo grupal”,
uma espécie de “universo paralelo”. Para isso, criam limites que não podem ser
ultrapassados e adotam uma linguagem peculiar e própria. Os militantes não são
“medidos” por sua capacidade de intervenção, mas por suas “fórmulas sagradas”.
As discordâncias são incompetência, falha, etc. O purismo se estabelece e a
história do marxismo é recontada de maneira linear e desprovida de
contradições, culminando nas proposições do próprio grupo. Essa abordagem
exclui a “disputa teórica”, as “contradições internas” e os “impasses
históricos” que marcaram o “marxismo revolucionário” desde o seu nascimento.
Isso resulta no “essencialismo”, levando os conceitos a serem percebidos como
meros reprodutores imediatos da essência dos fenômenos sociais. Dessa forma, a
visão promovida pelo grupo carece de concretude. As características desses
grupos revolucionários incluem hermetismo, autoisolamento, demarcação simbólica
rígida, purismo, essencialismo e um profundo esquecimento coletivo. Esse “mundo
grupal” se defronta com o “mundo social”. O mundo grupal não quer saber do
mundo social, pois se isola praticamente e o recusa teoricamente. E por isso
não pode aceitar que o mundo social é confuso, ambíguo, contraditório,
imperfeito. Esses grupos revolucionários se opõem aos demais coletivos
políticos. Tais coletivos fazem tentativas, podem experimentar falhas e recuar,
recomeçando suas ações. Os grupos revolucionários surgem como “guardiões da
pureza revolucionária” e permanecem inertes, transformando cada equívoco ou
derrota dos outros coletivos políticos em evidência do acerto de suas próprias
convicções. Internamente, opera um “mecanismo disciplinar rigoroso”. Os
indivíduos que se afastam do coletivo são “excomungados”. Sua relação com a
história consiste em considerar o presente como um retrocesso, o passado como
um equívoco e o futuro como uma promessa que nunca se concretiza e
constantemente se posterga. Isso não é coerência! Não é rigor, firmeza,
convicção, crítica ao ecletismo ou radicalidade. Trata-se de sectarismo! Um
sectarismo ineficaz, purista. Os grupos revolucionários funcionam como seitas
dedicadas à sua própria autoafirmação!”
Eis uma síntese de pseudocríticas
aos grupos revolucionários que circulam no mundo virtual. A primeira acusação é
a criação de uma “tradição revolucionária” que, sob forma rigorosa, gera um
“ciclo fechado de ideias”, que não ultrapassam os limites do grupo
revolucionário. Essa acusação é curiosa. Ela simplesmente recusa a existência
de uma “tradição revolucionária”. Qual grupo político, revolucionário ou não,
não possui uma “tradição de pensamento” ao qual é filiado? Os liberais,
nazistas, comunistas, social-democratas, democrata-cristãos, anarquistas,
autonomistas, entre inúmeros outros casos, possuem tradições políticas. E não
teria como ter unidade programática e projeto político desvinculado de
concepções existentes. Sem dúvida, só seria possível com a criação de algo
totalmente novo e original. Isso é algo praticamente impossível, pois o número
de concepções políticas existentes e sua variedade torna extremamente difícil
“reinventar a roda”. Tentativas nesse sentido seria apenas criações desonestas
que mudam os termos e mantém as ideias. Ou então ecletismos e oportunismos que
permitem formar um grupo sem um pensamento claro e programa estabelecido. Entre
os grupos revolucionários, então os autonomistas, os anarquistas e os marxistas
autogestionários deveriam abandonar as concepções que lhes inspiram e aderir ao
ecletismo e ao oportunismo. Parece ser essa a receita do pseudocrítico.
A acusação derivada
é a de que isso gera um “ciclo fechado de ideias”. Sem dúvida, os grupos
revolucionários podem, ao possuir um programa e um projeto político, gerar uma
concepção política (derivada de uma determinada tradição revolucionária). E uma
concepção política é uma totalidade de pensamento, com base teórica ou
doutrinal, princípios e valores, estratégia e propostas de ação, projetos e
objetivos estabelecidos. É uma totalidade de pensamento, um conjunto, que,
obviamente, precisa ser coerente. Isso vale para qualquer organização política,
indo desde grupos semi-organizados até as organizações burocráticas. Os grupos
semi-organizados, por sua pouca organização e estágio formativo, não terão uma
“concepção desenvolvida, unificada e totalmente coerente” por causa de suas
próprias características. Porém, terão uma concepção basilar que, com sua
evolução, assume um caráter mais desenvolvido e maior coerência, gerando uma
organização que desenvolverá um conjunto de ideias que expressa seus objetivos
e diretrizes de ação. As grandes organizações políticas burocráticas, ou seja,
os partidos políticos, por sua vez, possuem um programa partidário, objetivos
delimitados por este, estatuto e outros elementos que materializam a sua
concepção política. Nesse caso, devido aos interesses eleitorais e disputa pelo
poder, tal concepção pode ser apenas instrumento de propaganda e lutas
políticas internas, mas não algo realmente efetivo. Os grupos revolucionários,
por possuírem uma concepção revolucionária (das mais simples às mais complexas,
dependendo do caso), são mais coerentes, pois não são perpassados por
desorganização, por estágio formativo, por interesses eleitorais, por disputa
pelo poder. O pseudocrítico parece querer que os grupos revolucionários não
possuam nada de sólido em matéria de ideias e concepções políticas, que não
tenham programas e projetos, que não tenham base teórica, etc. Ele quer
anarquistas que não defendam o anarquismo e nem se filiem a uma tradição
anarquista (anarco-coletivismo, anarco-comunismo, anarcossindicalismo,
mutualismo, etc.), por exemplo. Sem dúvida, o pseudocrítico replicaria dizendo
que o problema é quando se cria um “circuito fechado de ideias”. Isso é uma
abstratificação. O que seria um “circuito fechado de ideias”? O liberalismo é
um circuito fechado de ideias? O anarquismo? O autonomismo? O fascismo? Nenhum
exemplo concreto é apresentado, nenhum caso específico, nenhuma definição.
Apenas um rótulo: “ciclo fechado de ideias”. Esse artifício discursivo retórico
é útil para enganar os desavisados, mas não para um debate político.
Além disso, tais
grupos são revolucionários. Além de programa e projeto, ou seja, uma
concepção política, eles são revolucionários, o que significa que defendem a
revolução social, ou seja, uma transformação total e radical da sociedade.
Os grupos revolucionários são anticapitalistas. Por conseguinte, não
podem ser “ecléticos” e “flexíveis”, não podem aceitar ideias pró-capitalistas.
Essa é uma fronteira que, se os grupos são realmente revolucionários, não devem
ultrapassar. Claro que, além disso, existem as características próprias de cada
grupo ou organização. Por exemplo, um anarquista pode se declarar apartidário e
um marxista autogestionário é antipartidário. Nenhum dos dois querem formar
partidos e ambos criticam essas organizações burocráticas. Eles deveriam rever
suas posições e aceitarem os partidos? Claro que não, pois eles não só recusam,
mas fundamentam as razões de sua recusa, sob formas variáveis e com maior ou
menor profundidade e tem a história dos partidos políticos para confirmar que
estes não são revolucionários. Essa é uma discussão que é possível realizar e
que alguns leninistas conseguem fazer sem apelar para abstratificações e
acusações absurdas e sem fundamentação.
O pseudocrítico
quer, no fundo, que os grupos revolucionários deixem de ser revolucionários. Isso pode ser comprovado em sua pseudocrítica, na qual cria uma
abstratificação que é o “mundo grupal”. Esse seria, segundo a cômica
interpretação do pseudocrítico, um “universo paralelo”. Os grupos
revolucionários criam “linguagem própria e peculiar”. Aqui se poderia até
pensar que o pseudocrítico recusa a teoria ou as doutrinas, pois todas as
concepções políticas se organizam em torno de um conjunto de signos e sentidos,
gerando uma linguagem própria. É assim com todos os casos e não é diferente com
os grupos revolucionários, sejam eles anarquistas, autonomistas,
situacionistas, marxistas autogestionários. Sem dúvida, há variação no rigor e
na quantidade, entre outros processos. Essa pseudocrítica, assim como as
anteriores, usa o artifício discursivo retórico de buscar “escandalizar”
através da transformação de um procedimento comum em um verdadeiro “escândalo
intelectual”. Ou então está colocando que os grupos revolucionários não podem
possuir concepções revolucionárias e que os anarquistas deveriam abandonar a
linguagem anarquista, os marxistas a linguagem marxista, e assim por diante. A
ideia subentendida aqui é escandalização e flexibilização. Essa suposta flexibilização
seria semelhante a que existe numa fábrica toyotista, ou seja, é mera retórica
para garantir a dominação. Nesse sentido, o pseudocrítico não se distancia de
nenhum conservador, pois quer que os grupos revolucionários abandonem seu
caráter revolucionário.
O pseudocrítico
continua com suas afirmações abstratificadas[3],
pois não coloca nada de concreto para confirmar ou permitir ao leitor saber se
isso é assim ou não na realidade concreta, pois nenhum exemplo, caso,
acontecimento, autor, militante, texto, é citado. No mundo fantasioso do senhor
pseudocrítico, qualquer pseudocrítica pode ser feita, pois é um mundo
abstratificado que ele cria e denomina “mundo grupal”. E ele continua ao
afirmar que os militantes, nos grupos revolucionários, não são medidos por sua
“capacidade de intervenção” e sim pela reprodução das “fórmulas sagradas”. Aqui
emerge uma mal escondida concepção individualista: “os militantes” não são
medidos por sua “capacidade de intervenção”. Os militantes são indivíduos e o
“medidor grupal”, segundo a concepção do pseudocrítico, é sua “capacidade
(individual...) de intervenção”. Parece que o pseudocrítico entende a relação
entre “grupo revolucionário” e “militante” (indivíduo) como se fosse apenas
formal ou de “nome”. “Sou do grupo X, e tenho capacidade de intervenção, logo,
sou bom e devo ser valorado”. O grupo X é apenas o nome que o militante
(indivíduo) carrega. É como se um time de futebol não fosse um coletivo e cada
jogador não devesse arcar com nenhuma responsabilidade coletiva e defender os
objetivos do coletivo. Um jogador que dá entrevistas sobre temas políticos,
aparece em programas de televisão, sai com jogadores de outros times e na hora
do jogo do seu time não segue as orientações do esquema tático e trabalho em
equipe, não busca marcar o gol ou defendê-lo do ataque do adversário, etc. tem,
sem dúvida, “capacidade de intervenção”, mas não será valorado, pois age sob
forma individualista e visando seus interesses pessoais. O pseudocrítico, no
entanto, pensa que exigir do jogador o trabalho coletivo é querer prendê-lo às
“fórmulas sagradas” do time, que se torna apenas um nome na camisa. Mas, nessa
concepção individualista, pouco importa a concepção revolucionária defendida
pelo grupo. E o grupo o tortura com suas cobranças e quando ele sai ou é
expulso, o militante individualista é acusado de “incompetência” ou “falha
ética”. O pseudocrítico, além de defender um time de futebol sem equipe e onde
é “cada um por si”, ainda considera que os grupos revolucionários devem ser um
“clube acadêmico” onde cada um faz o que quer e deve ter liberdade ampla para
pensar o que quiser, inclusive ser contra a concepção revolucionária que forma
o programa e projeto do coletivo. Parece ser essa a ideia.
Mas um outro
elemento se destaca nessa pseudocrítica: a ideia de um “medidor” que remete, no
fundo, para a competição social. A mentalidade burguesa emerge nesse momento,
pois em partidos políticos e organizações burocráticas em geral, a competição
(por cargos, status, dinheiro, etc.) existe e por isso a ideia de um
“medidor” de integrantes tem sentido. Que sentido tem isso num grupo
revolucionário? Para o pseudocrítico individualista e competidor, tem todo o
sentido, afinal, certamente, especialmente se também for um narcisista, quer
reconhecimento e ser “medido” por sua suposta “capacidade de intervenção” e,
como quer descartar a concepção política (que aparece como “demarcação
simbólica rígida”), basta apoiar qualquer moita se movimentando por causa do vento
e assim espera ganhar “boa nota”. É o caso do militante que não milita por
convicção política, projeto revolucionário, vontade de contribuir com a
transformação social efetiva, mas sim para “estar em evidência”, “aparecer”,
“receber curtidas em redes sociais”, etc.
Outra acusação é o
“purismo”. Sem dúvida, existem, em certos grupos revolucionários, a ideia de
“purismo”. Não no sentido que o pseudocrítico coloca. Mas vamos nos limitar ao
que diz o pseudocrítico e sua ideia de “purismo”. Esse purismo agora ganha uma delimitação
maior: é no interior do marxismo. Os grupos revolucionários criam uma história
do marxismo que é “recontada” sob forma linear e sem contradições e que culmina
com suas próprias concepções. Novamente o artifício discursivo retórico de
escandalizar. Todas as organizações políticas (e não só políticas, como até
mesmo as sociedades, passando por todas as instituições, bem como concepções
religiosas, etc., contam uma história que culmina nelas). A sociedade
capitalista transformou o seu passado imediato em “idade das trevas”. Hegel
transformou todo o pensamento anterior em uma série de equívocos que foram
sendo diminuídos até chegar ao seu pensamento e todos os pensadores fizeram o
mesmo, sob formas diferentes. Os exemplos se multiplicariam e isso atinge as
concepções e organizações políticas, sejam elas conservadoras, reformistas ou
revolucionárias. Essa banalidade é apresentada como característica apenas dos
grupos revolucionários. Os anarco-coletivistas deveriam abandonar suas
concepções para não serem mais “puristas” e os bernardianos deveriam reconhecer
que João Bernardo não é o “último grande pensador”, que estaria certo e que
explicaria o marxismo (distinguindo entre o das “forças produtivas” e o das
“relações de produção”), assim como Ernst Bloch não deveria distinguir entre “o
marxismo da corrente fria e o da corrente quente”, bem como Lênin não deveria
questionar o revisionismo como não sendo marxista, os comunistas de conselhos
não deveriam chamar os leninistas de pseudomarxistas, Rosa Luxemburgo deveria
ter ficado no SPD (Partido Social-Democrata Alemão) e não ter fundado o USPD
(Partido Social-Democrata Independente da Alemanha) e o KPD (Partido Comunista
da Alemanha), pois ela apenas reproduzia o sectarismo da Liga Spartacus.
Ainda sobre Rosa
Luxemburgo, ela não deveria ter criticado Bernstein, Kautsky, Lênin, pois isso
é muito “sectarismo”. Só ela estava certa! E usou uma linguagem própria, se
expressando com termos como espontaneidade, greve de massas, burocracia, entre
diversos outros. Ela não deveria ter criticado o “suposto marxismo” alheio. E,
em mais um ato inaceitável e exemplo de sectarismo, se opunha a Otto Rühle, que
futuramente será um comunista conselhista e já era um dissidente radical como
ela! Rosa Luxemburgo, como todo revolucionário, era sectária, purista e criava
linguagem própria! O pseudocrítico, no fundo, quer que os revolucionários
deixem de ser revolucionários. O mais coerente e honesto, nesse caso, seria
dizer que abandonou a posição revolucionária e agora é contra o bloco
revolucionário. Porém, os seus interesses ocultos o impedem de dizer isso.
Esse purismo
reconta a história do marxismo como algo linear. Ora, esse é o caso de Rosa
Luxemburgo, dos comunistas conselhistas, dos situacionistas, dos marxistas
autogestionários, ou seja, de todos os marxistas revolucionários. Do mesmo
modo, mas sob formas diferentes, todas as demais posições políticas, tanto as
autocráticas quanto as “democráticas”, do liberalismo ao fascismo, do nazismo
ao bolchevismo, da social-democracia ao maoísmo, fazem o mesmo. Não se trata de
“recontar a história” e sim de distinguir, no processo histórico, aquilo que é
seu antecessor e fonte de inspiração e que lhe é semelhante, com o que é
dessemelhante e oposto. Sem dúvida, em alguns casos o “esquecimento” acontece,
tal como os stalinistas esqueceram Trotsky e os trotskistas na sua história da
Revolução Russa ou os leninistas e social-democratas que “esquecem” os
comunistas de conselhos em sua história do marxismo (e que não é generalizado,
embora hegemônico). Os comunistas conselhistas não esqueceram a
social-democracia e o bolchevismo, inclusive realizaram a sua crítica, e o que
fizeram foi exclui-los da história do marxismo através da sua desvinculação
entre este e o leninismo e o reformismo. O mesmo faz o marxismo
autogestionário, pois este não esquece ninguém, apenas faz distinções e
críticas, retirando do marxismo o pseudomarxismo. Sem dúvida, o pseudocrítico
talvez não saiba o que significa a palavra “esquecimento”.
Sem dúvida, o
pseudocrítico pode afirmar que o que é esquecido são “outros grupos
revolucionários”. Isso seria apenas uma mentira deslavada, pois os marxistas
autogestionários são os primeiros, no caso brasileiro, a resgatar e discutir
com as várias correntes autonomistas, anarquistas, etc. Basta ver sua
divulgação do autonomismo norte-americano, esquecido e até desconhecido por
diversos “autonomistas” brasileiros, entre outros autores e pensadores de
diversas correntes radicais marginais e pouco conhecidas. Obviamente que
resgata essas concepções e grupos sob forma crítica, que é o que se espera de
uma posição revolucionária. A história do marxismo, assim, não é recontada sob
forma linear e sim a partir de uma determinada concepção de marxismo e que
todas as concepções marxistas (e, em outros casos, de todas as concepções
políticas sobre suas tradições e fontes de inspirações), fazem o mesmo. O
artifício da escandalização é apenas retórica vazia. Os bakuninistas, os
anarcossindicalistas, os autonomistas adeptos da corrente portuguesa, todos
fazem isso. Inclusive alguns querem até encontrar “antecessores” visando criar
uma “tradição” diferente (basta ver a tentativa de transformar Varlin no
“grande nome da Comuna de Paris” para ver isso).
Assim, quando o
pseudocrítico diz que tal abordagem deixa de lado a “disputa teórica”, as
“contradições internas” e os “impasses históricos” que marcaram o “marxismo
revolucionário” desde o seu surgimento, apenas diz mentiras. Qual grupo
revolucionário fez isso? Tomemos o exemplo da Internacional Situacionista. Ela
criticou a social-democracia, o bolchevismo e o anarquismo. Não esqueceu,
criticou. Reconheceu as divergências e processos na história do marxismo a
partir de sua concepção. O máximo que se poderia dizer é que não foi
suficientemente justa com a contribuição de Henri Lefebvre. Porém, isso requer
uma pesquisa profunda para entender melhor as relações complicadas entre tal
indivíduo e tal coletivo. As divergências, contradições e impasses são abordadas
pelos grupos revolucionários, sob formas diferentes, incluindo e excluindo
indivíduos e coletivos do marxismo, etc., obviamente a partir de sua
perspectiva, pois sem isso não existe grupo e concepção revolucionária. No
fundo, como o “mundo grupal” do pseudocrítico é uma abstratificação que não tem
nada de concreto, nenhum grupo é citado, nenhum autor, nenhum acontecimento,
etc., então qualquer afirmação falsa é possível.
O resultado disso
tudo (que, como vimos, é uma invenção do pseudocrítico) é o “essencialismo”. Os
conceitos passam a ser “percebidos como meros reprodutores imediatos da
essência dos fenômenos sociais”. Afirmação que, mais uma vez, nada tem de
concreto para confirmá-la e assim é fácil fazer pseudocríticas. Daí a conclusão
do pseudocrítico de que “a visão promovida pelo grupo carece de concretude”.
Aqui reside a hipocrisia e a inversão. O pseudocrítico apresenta os grupos
revolucionários como uma essência caracterizada pelo purismo, sectarismo, etc.,
e, depois dessa abordagem essencialista e sem nada de concreto (nenhum grupo,
acontecimento, fenômeno, ideia, autor, texto, etc., aparece) acusa os grupos
revolucionários do que ele mesmo faz: essencialismo e falta de concreticidade.
Se alguém faz um discurso afirmando que certos grupos são essencialistas e sem
concreticidade e não trata de nenhum grupo real, sob o pretexto retórico e
discursivo de ser “por demais conhecidos”, simplesmente pratica o que critica.
O presente texto
poderia ser acusado da mesma coisa? Não, pois efetivamente existe tal
pseudocrítica e o que fizemos não foi “inventá-la”, mas sim sintetizá-la e
refutá-la. Realizamos uma síntese de suas principais afirmações
(não-fundamentadas e sem concreticidade alguma) e demonstramos que é um
discurso retórico, desonesto e permeado de falsidades, mas que se esconde por
detrás justamente da falta de concreticidade, pois se chega-se à realidade
concreta se destruiria e é motivado por determinados interesses do
pseudocrítico. O procedimento aqui é, portanto, diferente.
Mas há um elemento
importante que não pode ser esquecido nessa pseudocrítica. Ele cria duas
abstratificações: o “mundo grupal” e o “mundo social”. Uma análise cuidadosa
revelaria que o pseudocrítico apresenta uma percepção essencialista, homogênea,
sem contradições, impasses, etc., no grupo revolucionário. E, curiosamente, a
outra abstratificação, o “mundo social”, é defendido como sendo ambíguo,
contraditório, imperfeito, etc. Nessa contraposição entre abstratificações, a
pseudocrítica se esforça para criticar o “mundo grupal”, através da
simplificação e atribuição elementos comuns e exagero ao lado do reducionismo
ao essencialismo, purismo, etc. e realiza um outro esforço, que deveria chamar
a atenção de qualquer militante, de defesa do “mundo social”. O que preocupa o
pseudocrítico não é o “mundo social” e sim o “mundo grupal” e assim ele precisa
defender o primeiro do segundo. Esse mundo social é “confuso, ambíguo,
contraditório, imperfeito”. O pseudocrítico, que diz realizar uma crítica da
perspectiva supostamente “marxista” ou algo parecido, aborda uma
abstratificação chamada “mundo social” que não é o capitalismo. Esse último
nome nunca aparece. A ideia é defender o capitalismo do marxismo
revolucionário. O artifício discursivo é dizer que o problema está nos grupos
revolucionários e não no “mundo social” (capitalismo). A defesa sub-reptícia do
capitalismo é perceptível ao criticar os grupos revolucionários por não se
integrarem no “mundo social”, pois se “isolam”, “criticam”, etc. E a
complacência com o capitalismo (“mundo social”) revela que tal crítica não tem
nenhum vínculo com perspectiva revolucionária e, além disso, é uma forma de
autocomplacência, pois quem defende a sociedade capitalista é para justificá-la
e, simultaneamente, justificar sua adesão a ela (e suas instituições, incluindo
a academia).
Assim, o
pseudocrítico faz uma pseudocrítica pseudorrevolucionária que em nenhum momento
questiona o capitalismo, a exploração, a dominação, a alienação. Nunca coloca
as coisas em termos de luta de classes. Aliás, nem luta, nem classes. Como já
dizia o humorista, essa crítica não tem “nenhuma classe”, em duplo sentido.
Claro que os interesses pessoais do pseudocrítico que é o produtor da
pseudocrítica ficam ocultos, mas existem, estão lá, a complacência com o
capitalismo e suas instituições é a prova disso. É o caso daqueles que querem
se posar de críticos e até mesmo “revolucionários”, mas, no fundo, querem
apenas um “público jovem” e ingênuo para satisfazer seus interesses pessoais,
tal como a “popularidade”, algo que hoje é perseguido ansiosamente (e essa
palavra não é gratuita) por certos intelectuais contemporâneos[4]. É a
lógica de agradar a tudo e a todos e assim escolher um alvo que não realiza tal
política e desagrada a muitos é o ideal para um intelectual populista aparecer
e fazer “sucesso”. No caso do pseudocrítico, ele vendeu sua alma ao demônio
chamado “popularidade” e em troca disso se presta a qualquer papel, perdendo
assim a ética, a honestidade, a humanidade. O pseudocrítico se junta ao que de
mais baixo a humanidade já criou, e o pior que não é como outros fizeram, por
destruição psíquica ou miséria real, mas tão somente por sua ambição
intelectual desmedida, seu narcisismo exacerbado. Ou é o caso do “rebelde”,
discutido por Erich Fromm no início do século 20, no qual é alguém que quer
espaço no mundo capitalista (“social”) e não consegue e aí se disfarça de ser
“revolucionário” até conseguir realizar seus sonhos burgueses e abandonar
qualquer vínculo com uma posição revolucionária[5].
Mas o pseudocrítico
trata da “relação com outros coletivos”. O pecado dos grupos revolucionários é
realizar a crítica dos demais coletivos. Sem dúvida, aqui ocorre novas
abstratificações, pois ele não cita nenhum grupo para confirmar que seu “tipo
ideal” de “grupo revolucionário” realiza o que ele diz. Da mesma forma, faz de
conta de que existem “coletivos” que não fazem isso. Qual grupo não critica os demais? Todo o
debate político realiza exatamente isso, inclusive o pseudocrítico reproduz
isso ao criticar os “grupos revolucionários”. Se os coletivos não fizessem
isso, estariam unificados, mas cada um tem suas concepções, estratégias,
tradições, etc. e por isso possuem divergências e críticas recíprocas, o que é
normal e só assume contornos mais fortes em casos concretos. Porém, o pseudocrítico
não quer, sob forma alguma, algo concreto, apesar de ser esse um defeito
apontado no outro. Essa é apenas mais uma abstratificação e falsificação, que
nem merece maiores comentários.
Apontar os erros
dos demais coletivos é outro crime dos grupos revolucionários. E qual
indivíduo, grupo, instituição, etc., não faz isso? Aliás, não é isso que faz o
pseudocrítico? Ele não está identificando supostos “erros” nos “grupos
revolucionários” para dizer que é ele que está certo e estes estão errados e
que os erros destes mostram seus acertos? Esse discurso retórico, simplista,
reducionista, essencialista, nada diz de útil para quem realmente quer pensar
uma reflexão política no interior do bloco revolucionário. Serve apenas como
ataque ao movimento revolucionário, mesmo que não se assuma como tal.
A pseudocrítica
complementar, é a de que os grupos revolucionários trabalham com um “mecanismo
disciplinar rigoroso” e “excomunga” os indivíduos que se afastam do coletivo. A
relação com indivíduos que saem do coletivo não pode ser um “mecanismo disciplinar
rigoroso”, pois isso só funciona internamente, se existir (isso depende do
grupo). Os situacionistas, por exemplo, adoravam expulsões. Um coletivo que se
dizia situacionista, no Brasil, publicava com alegria as suas expulsões nas
páginas de sua revista. Aqui, se a pseudocrítica fosse realmente crítica e
honesta, se poderia discutir as relações internas nos grupos revolucionários e
o exemplo situacionista é um caso que difere radicalmente de outros, tal como
no caso do marxismo autogestionário. De qualquer forma, o rótulo “mecanismo
disciplinar rigoroso” é apenas artifício retórico de exagerar e escandalizar.
Qualquer grupo político (não apenas os revolucionários) possuem concepções,
estratégias e objetivos e quem não concorda mais em certo nível não deve continuar.
Sobre a relação posterior da saída ou expulsão de algum integrante, isso
depende de coisas bem concretas, que a pseudocrítica não quer saber, tais como:
o ex-integrante mantém relações com o grupo? Quais relações? Ele se tornou um
político profissional ou um conservador assumido? Aderiu a alguma concepção
próxima? Continua tendo contato com o coletivo ou seus integrantes? Essas
questões concretas ajudam a entender a posição do coletivo em relação ao
indivíduo. Porém, seja qual for a ação e posição posterior dos ex-integrantes,
raramente um grupo revolucionário vai se posicionar ou agir em relação a ele, a
não ser em casos excepcionais. A razão disso é que os grupos revolucionários
não tratam de indivíduos e somente se esses criam algum problema, como fazer
pseudocríticas ao coletivo, é que será alvo de alguma ação grupal contra ele. E
isso é absolutamente normal e ocorre em todos os coletivos da sociedade e não
apenas nos revolucionários.
Se um ex-integrante
se torna pseudocrítico do antigo grupo que fazia parte, se começa a caluniar ou
fazer pseudocríticas, então o coletivo decidirá o que fazer com isso e poderá
agir em relação a isso. Porém, o que o pseudocrítico quer confundir são ações
individuais, de acordo com as idiossincrasias dos integrantes do grupo
revolucionário, como se fosse “ação grupal”, ou seja, uma posição e ação do
coletivo. Isso é facilitado por ter criado uma abstratificação chamada “mundo
grupal”, marcado pelo essencialismo e purismo, através da análise pseudocrítica
essencialista e abstratificada e que não teriam integrantes (com suas
idiossincrasias), contradições, imperfeições, etc., pois isso seria
característica apenas do “mundo social”. O “mundo grupal” deve ser perfeito
enquanto o “mundo social” pode ser imperfeito. Isso é apenas discurso retórico
e falsificador da realidade.
A relação de um
grupo revolucionário com ex-integrantes varia de acordo com o grupo e, além
disso, dependa da posterior relação e proximidade estabelecida. E, no interior
de todo grupo revolucionário, existem vários indivíduos com suas
idiossincrasias que podem manifestar críticas, ações indevidas, desprezo,
esquecimento, etc., de acordo de quem se trata. Nenhum grupo revolucionário faz
reuniões para discutir ex-integrante a, b ou c. Se o grupo revolucionário toma
alguma atitude em relação a ex-integrante, é por este ter feito algo que mereça
uma posição coletiva. Logo, a pseudocrítica não tem fundamento e não sai das
abstratificações, pois se descesse ao mundo concreto, se autodestruiria.
Por fim, resta a
relação dos grupos revolucionários com a história. E aqui a defesa do
capitalismo, ou do “mundo social”, se torna ainda mais explícita. Os grupos
revolucionários consideram o presente um retrocesso! O que é o presente? O
mundo social, ou, em outros termos, o capitalismo. Para a pseudocrítica, o
presente não é problemático. Os conservadores e reformistas podem dizer isso
tranquilamente, mas os revolucionários são anticapitalistas e, portanto, o que
se está questionando é a perspectiva revolucionária e não os grupos
revolucionários. O passado, para os grupos revolucionários, é um “equívoco”.
Certamente, para o pseudocrítico a escravidão e a servidão devem ser “acertos”.
O futuro, ou a revolução, é “sempre adiada”. Os termos “retrocesso” e “equívoco”
é da pseudocrítica, pois são sem sentido. Para os grupos revolucionários, que
são anticapitalistas, o passado da humanidade foi um processo complexo que, sob
contradições e lutas, gerou alguns benefícios – poucos e concentrados
geralmente nas mãos das classes dominantes – e que precisa ser analisada e
estudada em seus processos concretos, mas, evidentemente, retirando a chamada
pré-história, foi marcada pela exploração, dominação e alienação. Não se trata
de “equívocos” e sim de uma realidade indesejável que já ocorreu. O presente, o
capitalismo, é a reprodução atualizada e específica desse processo e, por
conseguinte, deve ser criticado e superado. A pseudocrítica que aparentemente
se diz “contestadora”, não quer criticar e superar o capitalismo, ou o “mundo
social”, o que significa que quer sua conservação.
Os grupos
revolucionários, segundo o pseudocrítico, sempre adiam a revolução, o futuro.
Aqui a pseudocrítica cai no ridículo desavergonhadamente. Os grupos
revolucionários – com exceção do bolchevismo e seus semelhantes – consideram
que a revolução é um processo complexo cujo agente não são eles e sim a classe
operária e seus aliados (as demais classes inferiores, certos setores da
sociedade, etc.). Entre os grupos revolucionários, poucos diferem dessa
posição. Que sentido tem afirmar que os grupos revolucionários “adiam a
revolução”? Não “testam” a revolução? Isso só teria sentido se eles se
autoproclamassem os agentes da revolução. Essa pseudocrítica é risível, mas
mostra apenas que se trata de um discurso desonesto e sem sentido. É o mesmo
que dizer que a revolução não acontece por decisão dos grupos revolucionários.
Os grupos revolucionários não fazem revolução. Eles buscam incentivar e
fortalecer a tendência revolucionária que existe na sociedade capitalista
derivada de suas contradições e do potencial revolucionário do proletariado.
Culpar os grupos revolucionários por não ocorrer revolução e ainda afirmar que
é por decisão deles é algo tão estúpido que nem mereceria refutação, pois nesse
caso bastaria risadas.
Por fim, a
conclusão da pseudocrítica: os grupos revolucionários, devido a tudo que foi
dito (e tudo é apenas falácia retórica sem nenhuma concreticidade e sem
fundamento, sendo falso), são sectários. A pseudocrítica termina com a acusação
de “sectarismo”. Aqui o artifício retórico final é a rotulação, usando um termo
pejorativo para causar impacto emocional, e encerrar com “chave de ouro” o
discurso falacioso, desonesto e oportunista. Como a base dessa afirmação já foi
refutada, então não restaria mais nada a dizer. Porém, há uma nova antinomia
(uma característica do pensamento burguês e que já se viu em outras antinomias
do texto, especialmente a fundamental: “mundo grupal” versus “mundo social”)[6]:
falsa coerência dos grupos revolucionários versus coerência da pseudocrítica.
Assim, os grupos
revolucionários devem abandonar seu programa, projeto e objetivos; devem
relativizar e se inserir no “mundo social”; devem deixar seus integrantes
fazerem qualquer coisa, inclusive ser contra aquilo que lhe caracteriza (e que
deve ser abandonado), etc. Em síntese, segundo a pseudocrítica os grupos
revolucionários devem deixar de existir ou então se tornarem “grupos
acadêmicos”, relativistas e flexíveis, aceitando tudo e, certamente, buscando
oportunisticamente espaços nas academias e alianças com qualquer um, desde que
dê retorno (claro que pessoal, pois a revolução já foi abandonada). Afinal de
contas, coerência é outra coisa! E o que seria o par antinômico do sectarismo
que seria efetivamente “coerência”? Relativização, ambiguidade, flexibilidade?
Adaptação ao “mundo social” (capitalismo) com suas contradições, imperfeições,
ambiguidades? Sim, a pseudocrítica direciona para isso. Então o oposto ao
“sectarismo”, da perspectiva revolucionária, é o oportunismo. Ao invés de
antinomia entre (falso) “sectarismo” e (falso) mundo social ambíguo e flexível,
o que existe é uma distinção política entre posição
revolucionária e posição oportunista (e
esta é, obviamente, conservadora – mesmo se dizendo “progressista” ou até mesmo
“revolucionária”).
A pseudocrítica se
revela um discurso oportunista a favor do oportunismo. E o oportunismo
(político) é muito antigo. Uma de suas características é querer separar
“teoria” e “prática”, pois o mundo social é ambíguo, contraditório, imperfeito.
Rosa Luxemburgo já dizia isso: “os que só procuram resultados práticos têm um
pendor natural para reclamar liberdade de manobra, separar a prática da
‘teoria’, torná-las independentes”[7]. O
“sinal distintivo do oportunismo”, já dizia Rosa Luxemburgo, é a “hostilidade
em relação à teoria”. Esta, na pseudocrítica aqui apresentada, essa recusa da
teoria aparece através da atribuição de essencialismo, purismo, etc. Assim, o
oportunismo é incompatível com a autogestão. “A sua tendência intrínseca é
orientar o movimento operário para a vida burguesa, ou dito de outra maneira:
paralisar completamente a luta de classes proletária”[8].
É por isso que a pseudocrítica se importa e quer criticar os grupos
revolucionários e não o aparato estatal, as guerras, o reformismo, as
ideologias contemporâneas.
O que incomoda ao
pseudocrítico são os grupos revolucionários. O que lhe interessa é defender o
“mundo social”, adequar as lutas sociais à “vida burguesa”. A liberdade
burguesa de “escrever o que quiser”, juntar ecleticamente tudo, se adaptar às
instituições burguesas e conseguir vantagens pessoais disso, bajular
instituições e pessoas, é essa a receita do pseudocrítico. É por isso que nunca
aparece “capitalismo”, “instituições burguesas”, “classes sociais”, “luta de
classes”, “exploração”, “dominação”, “alienação”. Essa é a “linguagem própria”
que deve ser condenada. A realidade é apresentada como uma antinomia
abstratificada entre “mundo grupal” e “mundo social”. O oportunismo discursivo
apenas justifica e legitima o oportunismo prático (político, acadêmico, etc.).
Deixemos os
oportunistas defenderem o “mundo social” (e o seu “pequeno mundo” no interior
dele) e combaterem retoricamente o bloco revolucionário, pois essa praga
capitalista sempre existiu e continuará existindo. Cabe ao Movaut e ao
movimento revolucionário continuar com seu trabalho, não para ter “sucesso”
dentro do capitalismo, tal como almejado pelo novo tipo de oportunismo
intelectual emergente, e sim para contribuir com a luta pela libertação humana,
o que pressupõe a abolição da sociedade capitalista e instauração da sociedade
autogerida.
* Movimento
Autogestionário. O Movaut é um grupo marxista autogestionário que busca contribuir com o processo de constituição de uma sociedade autogerida.
Mais informações: https://movaut.com.br/; https://movaut.blogspot.com/
[1] Cf. “sobre o discurso
retórico”: https://redelp.net/index.php/rsr/article/view/1466/1290
[2] O termo “ecletismo” possui
vários sentidos dependendo do contexto que é utilizado. Aqui usamos no sentido
do subjetivismo contemporâneo, que é uma espécie de bricolagem que junta
diversas concepções aleatoriamente e oportunisticamente e se justifica com a ideia
de “pluralismo” (que emerge desde o liberalismo até as ideologias subjetivistas
contemporâneas – e que alguns autores, como Sartre e Pierucci já identificaram
suas origens conservadoras).
[3] O rigor conceitual, criticado
pelo pseudocrítico, é uma necessidade do pensamento humano que se quer claro e
não evita a realidade e sua complexidade. Por isso, é interessante esclarecer
aqui o que significa “abstratificação” e sua diferença em relação ao termo
semelhante, “abstração”. A abstratificação é o processo de retirar o fenômeno
abordado da história e das relações sociais, excluindo sua historicidade e sua
relação com a totalidade. Abstração, no sentido dialético do termo, é um
processo mental que visa decompor o fenômeno em seus elementos constitutivos
para compreendê-lo mais profundamente e recompô-lo como totalidade concreta.
[4] Sobre os intelectuais ávidos
por popularidade na era das redes sociais virtuais e seu populismo, cf. https://redelp.net/index.php/rsr/article/view/1466/1290
[6] O antinomismo é uma
característica da episteme burguesa e se reproduz espontaneamente na sociedade
moderna, tal como nos casos exemplares de indivíduo/sociedade; sujeito/objeto;
individualismo/holismo; romantismo/iluminismo; racionalismo/empiricismo, etc.
Para uma reflexão a esse respeito, cf. VIANA, Nildo. O Modo de Pensar
Burguês. Episteme Marxista e Episteme Burguesa. Curitiba: CRV, 2018.
[7] LUXEMBURGO, Rosa. Reforma
Social ou Revolução? São Paulo: Global, 1986, p. 118.
[8] LUXEMBURGO, Rosa. Obra
citada, p. 119.


