quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Carta aos revolucionários sobre o antifascismo



Carta aos revolucionários sobre o antifascismo

Alexandra Peixoto Viana

O antifascismo, encabeçado pelos partidos políticos da dita esquerda, causa uma polarização simplória e reducionista [1], necessária para a reprodução do capitalismo. Quando revolucionários optam por bradar o mesmo grito, nada fazem além de dar um tiro no próprio pé. Compreendo a intenção, e ela é boa, mas não é estratégica e mostra insuficiência teórica.
Reforçar esse discurso e, como inevitável consequência, essa polarização, principalmente em contexto eleitoral, só faz com que trabalhadores e militantes: 1) temam uma suposta ameaça fascista e, em reação, votem no “menos ruim”, iniciando enxurradas de discussões acerca do tal “voto útil” e distanciando-se cada vez mais dos princípios e objetivos revolucionários; 2) optem por ficar do lado dos semifascistas, reproduzindo ainda mais discursos de ódio e aumentando as chances de eleição do candidato tão repudiado pelos partidos de esquerda. Inclusive, quanto mais “ibope” é dado, quanto mais as pessoas se debatem contra determinado candidato, mais ele cresce em intenção de voto.
Além da falta de reflexão estratégica, o antifascismo expressa também insuficiência teórica. A fim de atingir a autogestão social, nossas energias devem ser sempre despendidas nesse sentido. Os meios devem apontar para os fins. Além disso, não faz sentido lutar contra o fascismo no bojo da sociedade capitalista, pois ele, se os capitalistas assim quiserem ou precisarem, aparecerá por mais que relutemos.
Afirmar que estamos sob ameaça de “golpes”, como no caso do impeachment da Dilma ou da suposta ditadura fascista que, não à toa, teóricos atrelados ao poder estatal – seja por cargos ou por interesses de classe, enquanto intelligentsia [2] sustentada por partidos como o PT – tanto discorrem e teorizam a respeito, é reconhecer que vivemos sob um regime democrático. Acho que, a essa altura do campeonato, todos sabem que não existe democracia (no sentido ideal da palavra, como “governo do povo e para o povo”) no capitalismo. As mudanças políticas que ocorrem estão sempre atreladas ao interesse da classe capitalista, ou seja, o “golpe” e ditaduras só ocorrem com seu aval e mediante sua necessidade – eles mandam nas regras do jogo e, portanto, não há e nunca houve nada de democrático no capitalismo.
Vale lembrar que o próprio PT já foi acusado de fascismo por anarquistas: “Pois se o ‘golpismo fascista’ significa desenvolver a militarização política, hoje o que existe de mais próximo de fascismo no Brasil é o próprio PT, que reedita leis da ditadura, prende manifestantes e mata pobres nos campos e favelas” (BLOG UNIÃO ANARQUISTA, 2015). A luta antifascista, além de seus problemas estratégicos e teóricos, torna-se redundante e tudo pode ser tido como fascismo.
Ademais, lutar contra a ameaça fantasma de ditadura não leva a um aumento da consciência de classe, como é pretendido. Ao contrário, aumenta a animosidade, pois diminui o diálogo e classifica pessoas, que podem ser apenas desinformadas ou levadas pelo que leem nas correntes de WhatsApp e Facebook, como fascistas cruéis. Sabemos que as coisas não são tão simples e que essas categorizações são pobres.
Por mais que pareça uma boa ideia, o antifascismo jamais vislumbrará algo além do capitalismo. Nesse esteio, a única forma de combater o fascismo é fortalecendo as pautas revolucionárias, estimulando o proletariado – ou seja, quem produz e tem potencial de transformar radicalmente a sociedade – a ter consciência dessa potencialidade. A luta cultural é nosso principal meio de conseguir algo, através do estímulo e apoio aos trabalhadores e suas associações auto-organizadas. Isso não pode ser feito a partir de uma denúncia do fascismo, mediante as argumentações supracitadas.
Assim, me parece muito mais interessante e eficaz – ao invés de discursar contra um determinado candidato ou posicionamento político – discutir o Estado e suas implicações, sua função na manutenção da exploração e sua inevitável finalidade de nos manter trancafiados, calados, calejados. O voto é, para nós, uma ilusão, e esse ideal sobressai ao medo de um candidato X ou Y por ser fascista – por mais que este seja, de fato, assustador.
Em suma, quanto mais denunciamos o fascismo, mais força ganham os discursos de ódio, aumenta-se a polarização política vazia de sentido e fortalece-se o modo de produção capitalista. Toda essa animosidade entre nós mesmos não leva a lugar algum, só retardada o movimento e mantém tudo como está. Lembremos que a autocrítica é uma das nossas mais necessárias ferramentas em tempos de exacerbado egocentrismo, e a exercitemos.  É preciso não esquecer do objetivo principal e final da nossa luta: a emancipação humana. Para isso, não podemos nos deixar levar por modismos ideológicos ou pelo medo. Precisamos enxergar o todo.

Notas
[1] A polarização “esquerda versus direita” é simplória e reducionista, uma vez que não enxerga além das estruturas de poder estatais e das relações de produção contemporâneas, intrínsecas ao modo de produção capitalista. Ou seja, apoiar partidos de esquerda não é ser revolucionário, uma vez que não se propõe a mudança radical da sociedade, mas, ao contrário, a aceita e se contenta com pequenas reformas. Sobre isso, poderíamos discorrer ainda acerca da vanguarda e outros discursos partidários contrarrevolucionários.
[2] Intelligentsia é um conceito exposto por Makhaïski. Ela é caracterizada como um exército de trabalhadores intelectuais que se aproximam, por seu nível de vida, da burguesia. Não constitui um proletariado instruído, como quiseram afirmar alguns ideólogos, como Kautsky. A intelligentsia é responsável por propagar ideologias (falsas formas de consciência sistematizadas) que convém ao interesse de manter os privilégios (manutenção de cargos e salários, incluindo cargos acadêmicos) e, portanto, está atrelada aos interesses de capitalistas e burocratas. Ou seja, é uma classe auxiliar da burguesia, a classe dos intelectuais. O ideal desta classe é a transferência dos meios de produção ao Estado, reduzindo a luta operária à construção de um “socialismo de Estado”, no qual fariam parte da nova burocracia e aumentariam sua parte na partilha da mais-valia global (TRAGTENBERG, 1981).

Referências

BARROT, Jean. O antifascismo é o pior produto do fascismo. Revista Marxismo e Autogestão, número 4, jul./dez. de 2015.
MAKHAÏSKI, Jan Waclav. O Socialismo de Estado. In: TRAGTENBERG, Maurício (org.). Marxismo Heterodoxo. São Paulo: Brasiliense, 1981.
TRAGTENBERG, Maurício (org.). Marxismo Heterodoxo. São Paulo: Brasiliense, 1981.
BLOG UNIÃO ANARQUISTA. Os presos políticos do PT. Disponível em: https://uniaoanarquista.files.wordpress.com/2015/02/cdp71.pdf (acesso em outubro de 2018).

As mudanças que as eleições prometem é que não vão mudar nada [Textos e Debates]

Textos e Debates

As mudanças que as eleições prometem é que não vão mudar nada

Edmilson Borges da Silva

Estas eleições marcadas por um forte apelo anticorrupção, nos mostra como os mesmos nomes fazem as regras do jogo. Os eleitos nas eleições anteriores são as novidades de agora, que são os mesmos que alimentaram um dos elementos inerentes ao capitalismo, ou seja, subornar, corromper, ser corrompido, fraudar, pra melhor entender, roubar e legalizar o roubo. Os ditos “homens de negócios” alimentam os abutres que lhes representam nas instituições do Estado, desta forma, o processo eleitoral é uma farsa em que o que se diz não é para ser cumprido, ou ainda, se diz o que está latente à audição de quem sofre as mazelas da exploração e opressão e esconde as tramas fundamentais que retroalimentam essa ordem. Desta forma, são os lobos que falam aos cordeiros como se proteger, o que é a verdade, o que é a ética, a moral, etc. Refletir como a novidade é aparente, mesmo sendo os nomes, em muitos casos conhecidos; como os partidos mudam o figurino sem mudar o conteúdo; como os templos continuam “abençoando” os feitores e, afirmar que a radicalidade de uma mudança não passará por essa vã esperança em que os exploradores orientam os explorados a repetir o ritual é a necessidade deste texto.
Número de deputados federais de Goiás no congresso nacional: 17
Eleitos em 2014
Os que disputam a reeleição em 2018
Estão na disputa do executivo Estadual
Na disputa como suplente de senador
Não disputam a reeleição mas apoiam outros candidatos
17
12
02
01
02
Os deputados federais eleitos em 2014, vários já vinham de reeleição e novamente estão no pleito eleitoral de 2018. Renovação é uma retórica. Estes dados estão disponíveis em sites dos tribunais eleitorais, Câmara Federal e em outros.
Estes números demonstram que não há novidades no fronte. A reeleição será garantida à maioria que fizeram quatro anos de campanha à custa do erário. Mesmo as renovações serão ocupadas por ex-deputados federais que eram suplentes ou ocupavam cargos nas instâncias estaduais ou municipais.
Delegado, pastor e policial são ocupações que aparecem antes do nome do candidato como um adjetivo apresentando e qualificando o nome postulando ao cargo. Como se isso fosse reserva moral da sociedade, se fosse qualidade supranormal. O uso da fé profana os templos, em busca do poder e da vontade desenfreada de determinar a subordinação da vida. A violência, o medo, o sofrimento vira discurso fácil na boca de quem é pago para combater a mesma, no entanto, é a sociedade marcada pela dissimulação e o Estado correspondente que facilita a emergência desse tipo que tenta se consagrar como um combatente do crime. Na verdade, sua emergência já é uma mentira e uma manipulação da triste realidade.
A ampla visibilidade da corrupção, lugar comum no discurso do eleitor, não altera o processo eleitoral, ao contrário, os escroques são os mesmos, as instituições são as mesmas e por isso, surrupiar o dinheiro público continuará galopante. O eleitor continuará elegendo os seus feitores em troca de migalhas ou de mais maldades.
Pelo menos seis partidos mudaram de nomes para disfarçarem suas picaretagens, mudar o nome sem mudar mais nada (o partido atualmente denominado DEM tem suas origens na antiga ARENA, passando para PDS e PFL; MDB, PMDB e retornou ao MDB; PTN virou PODEMOS; PTdoB se intitula AVANTE; PEN passou a PATRIOTA e PSDC para DC), existe os figurões que não mudaram os nomes dos partidos mas se transferiram para outros partidos, cientes que o eleitor não tem tempo para colher essas informações.
Desta forma os eleitores de forma inocente, induzidos ou com negócios no Estado, continuam participando da farsa legitimando-a. Ao que tudo indica, feitores de ontem ou de hoje chegarão ao poder com a gana do ilícito. A farda, o mal uso da fé, a polícia, negócios familiares – de pai pra filho – e outros vilipendiosos negócios fazem das eleições o que é, um balcão de negócios sórdidos.
No país o que se observa é isto, processo eleitoral de pais pra filhos, os patrões indicando/impondo candidaturas, o uso do Estado para legitimar o medo, a violência balizando nomes para dirigir o mesmo. O eleitor subjugado pela fé, o medo, a fome e uma vã esperança, somado ao oportunista, o larápio, o negociante do voto, aquele com interesse no Estado e de prontidão para agenciar o eleitor irá legitimar o processo garantindo aos mercenários/empresários o Estado como fórum privilegiado da exploração e opressão dos trabalhadores.  
Lutar por uma possibilidade de superação destas caras instituições que formam o Estado capitalista, de maneira a indicar sua superação, é o que sobram aos trabalhadores, portanto, votar nulo é legítimo e mais preciso quando se declara que a luta pela autogestão é condição necessária deste ato.

domingo, 19 de agosto de 2018

CURSO "A DIALÉTICA MARXISTA"



Nas manhãs de sábado, entre os dias 15 de setembro e 6 de outubro, o Ruptura Espaço Cultural promoverá o curso "A DIALÉTICA MARXISTA".

Excelente oportunidade tanto para aqueles que já possuem estudos da obra de Karl Marx, quanto para aqueles que desejam uma abordagem inicial.

As inscrições custam 20 reais e há certificação ao final do curso.

O curso será ministrado pelo Prof. Dr. Nildo Viana, da Faculdade de Ciências Sociais da UFG.

O Ruptura Espaço Cultural está localizado próximo à Praça da Bíblia. Av. Anhanguera, Qd 117-B, Lt. 04, Nº 128.

Em frente ao Sindicato dos Empregados no Comércio (SECEG) e Igreja Videira.

Informações e Inscrições:
nupaccursos@gmail.com
http://nupac.net 







sexta-feira, 27 de julho de 2018

Nova edição da Revista ENFRENTAMENTO - PARA UMA CRÍTICA DA BUROCRACIA

Disponível a nova edição da Revista Enfrentamento!
Esta edição conta com contribuições de Nildo Viana, Edmilson Marques, Diego Marques, Rubens Vinícius e Jan Waclaw Makhaïsky, onde os autores aprofundam a crítica da burocracia (como classe social e forma organizacional) e do processo de burocratização do conjunto das relações sociais, iniciados na edição anterior. 
Do editorial:
"A classe operária, nos momentos de radicalização de suas lutas, torna consciente esta característica das lutas sociais. Contudo, cessado o ciclo de lutas, tal aprendizagem, via de regra, não se acumula, não se sedimenta. Em um novo ciclo, ela deve aprender de novo, pois surge uma nova geração de trabalhadores que aprende, novamente, por si mesma, o significado da burocracia enquanto classe. Somente quando houver a superação desta situação, de modo continuado no tempo e no espaço, é que veremos a possibilidade de uma nova sociedade se apontar no horizonte. A burguesia, quando a classe operária entra em luta, é facilmente identificável como inimiga. Essa identificação também ocorre com o estado, pois este acorre em reprimir o movimento. As burocracias inferiores, contudo, são as últimas a serem percebidas como inimigas. Quando isto acontece é porque a luta de classes já está radicalizada a níveis perigosos para a classe dominante. E esta faz tudo o que puder para evitar este degrau na luta do proletariado.''



domingo, 1 de julho de 2018

REFLEXÕES AUTOGESTIONÁRIAS 07: O QUE É SER REVOLUCIONÁRIO?


O QUE É SER REVOLUCIONÁRIO?

Carlos Henrique Marques

Uma das questões que surgem na sociedade capitalista e que é sempre motivo para questionamento dos militantes autogestionários é sobre o que é ser revolucionário. Ser revolucionário é apenas defender o projeto autogestionário, ou seja, ficar no nível das ideias? Apresentaremos, sinteticamente, uma resposta para isso.

O projeto autogestionário é parte e não a totalidade do movimento revolucionário. E tanto as ideias autogestionárias quanto os demais elementos do movimento revolucionário estão marginalizados em nossa sociedade no atual momento. E não poderia deixar de ser, pois sempre foi assim.

Em épocas de ascensão das lutas, estas saem da posição marginal e disputam, no interior das classes desprivilegiadas (e não na sociedade como um todo) a hegemonia e em momentos revolucionários se torna hegemônico. O movimento revolucionário é uma totalidade, que dentro do capitalismo, se manifesta fundamentalmente no plano das ideias, pois no plano das relações de produção permanece o capitalismo e o estudante, o intelectual, o professor, o operário, estão reproduzindo o capitalismo, seja produzindo mais-valor (operário), seja reproduzindo as instituições capitalistas (professores e estudantes reproduzindo a escola, a universidade) que possuem a função de reproduzir o capitalismo...

Obviamente que há a militância revolucionária, mas esta é, fundamentalmente, cultural e teórica. Ela é também de intervenção nas lutas, ações junto aos trabalhadores, etc., sendo essa parte mais limitada, tanto por existirem poucos revolucionários (indivíduos e grupos) quanto por existir pouca ressonância na sociedade. Ela consiste em formar grupos revolucionários, divulgar e fortalecer a luta cultural[1], atuar no interior do movimento operário, movimentos sociais, sociedade civil, quando isso é possível.

O problema é considerar que ser revolucionário é agir quando existe agitação, sendo que, na verdade, ser revolucionário é fazer o trabalho cotidiano para fortalecer a hegemonia proletária em certos setores da sociedade e que pode ocorrer também quando existe agitação, desde que na perspectiva revolucionária, embasada numa estratégia revolucionária e de acordo com as possibilidades de ação. Daí é fundamental ter em vista a distinção entre “ação desejável” e “ação possível”. A ação desejável é a que desejamos realizar, que pode se concretizar se for possível. A ação possível é aquilo que damos conta de fazer em determinado contexto. Por exemplo, fazer propaganda revolucionária generalizada no centro de uma grande capital é uma ação desejável, mas isso depende de recursos, militantes, etc., e num regime ditatorial, não é possível. Seria uma ação desejável, mas não uma ação possível. Para saber se é uma ação possível é necessário ter estratégia revolucionária e análise da conjuntura no sentido de compreender se há necessidade, possibilidade e utilidade em determinada ação.

Ser revolucionário não é apenas fazer discurso e nem apenas fazer agitação quando existe mobilização. Não se trata de apenas fazer discurso, mas sim de uma luta cultural, que assume inúmeras formas (propaganda generalizada, produção artística, produção teórica, divulgação de ideias, conversação cotidiana, etc.) e que tem pressupostos (autoformação, reflexão, estratégia, etc.). Da mesma forma, não se trata de apoiar toda e qualquer mobilização (é preciso saber de quem, com que objetivos, com quais reivindicações, quais suas tendências e consequências, etc.). Existe uma tendência, ligada ao praticismo e ativismo, de considerar que ser revolucionário é estar nas agitações e mobilizações. Isso é ser rebelde ou ser oportunista (depende da forma e objetivos pelos quais se faz isso), ou, ainda, ser ingênuo.

Ser revolucionário pressupõe objetivar a revolução e para isso é preciso saber o que é uma revolução e como elas se realizam e, historicamente já foi comprovado que o voluntarismo nunca gerou revoluções. A revolução é produto de uma classe social específica, o proletariado, e que pode até emergir a partir de lutas de outros setores da sociedade, mas não pode se concretizar sem ele. Se não há no movimento operário uma tendência para a revolução, de nada adianta o voluntarismo ou agitação. A agitação e mobilização sem essa tendência, pode gerar o efeito contrário do que se espera ou a repressão e enfraquecimento do movimento revolucionário. Por isso o militante não deve ser voluntarista e se considerar uma “vanguarda” e nem cair no reboquismo. O militante realmente revolucionário deve fazer um trabalho mais profundo e cotidiano de buscar criar condições favoráveis para uma vitória do proletariado. Esse trabalho deve ser cotidiano e fornecer armas para a luta do proletariado, tal como elementos de cultura, ideias revolucionárias, etc., para quem, em momentos de agitação e crise, haja o processo de autonomização do proletariado e sua passagem para classe autodeterminada.

Ser revolucionário significa uma luta cotidiana e constante, inclusive dos indivíduos contra eles mesmos (muitas vezes é preciso sacrificar os interesses pessoais para manter-se como revolucionário). É uma luta contra toda a sociedade existente, contra os valores dominantes, as ideias hegemônicas, as pressões sociais sob inúmeras formas. Ser revolucionário pressupõe ser forte e corajoso. Inclusive para não cair nas armadilhas do voluntarismo e da necessidade de dar satisfação para os outros de suas ações e posições, especialmente, nesse caso, para os progressistas (especialmente social-democratas e leninistas), pois eles necessitam de ativismo para garantir seus votos, uma imagem positiva diante da população, etc. Eles não são revolucionários e não entendem o que é ser revolucionário e por isso suas cobranças aos militantes autogestionários são ridículas e pautadas no reformismo e, na maioria dos casos, no oportunismo. Um revolucionário não se mede pelo discurso dos progressistas e sim pelo seu compromisso com a transformação radical e total das relações sociais e isso leva, fatalmente, a crítica ao capitalismo e suas expressões políticas e culturais variadas e ao falso socialismo dos progressistas, um elemento contrarrevolucionário que muitas vezes se infiltra no movimento operário e lutas sociais.

O revolucionário pode e deve ir em manifestações, apoiar greves, etc., mas não é um agitador, um aventureiro, um voluntarista. Esse momento da luta revolucionária é necessário quando embasado numa estratégia revolucionária, o que pressupõe uma análise e reflexão sobre sua ação e contexto. Um revolucionário jamais se dedica à “ação pela ação”, pois o seu objetivo é ação para a revolução. Por isso não se pode perder de vista nunca o objetivo e o significado de cada ideia, ação, posição, em relação ao objetivo final (revolução e autogestão).

Por isso é necessário, também, superar o romantismo e o obreirismo, buscando participar de toda e qualquer manifestação ou agitação, por causa de um pressuposto, equivocado e não-marxista, de que o “povo” (inclusive existem obreiristas que acabam achando que caminhoneiros são “proletários” ou “revolucionários”) é naturalmente e espontaneamente revolucionário. É preciso entender quem é o proletariado e quem são as outras classes, frações de classes, categorias profissionais, etc., e seus interesses (muito mais que seus discursos, que devem ser analisados também, mas a partir de uma concepção totalizante e que se atende para as relações sociais concretas e os interesses envolvidos nas lutas sociais por cada setor da sociedade). O proletariado é potencialmente revolucionário e é na luta que isso se concretiza. Essa luta é uma luta de classe e não se limita a meras “manifestações” de rua, algo pouco politizado e que pouco pode fazer para avançar a luta proletária. A luta do proletariado se revela muito mais – e de forma muito mais profunda e radical, nas ações no local de trabalho, nas greves, no desenvolvimento da consciência revolucionária (autoformação) e na constituição de formas de auto-organização. É por isso que o militante revolucionário deve buscar fortalecer esses elementos e é via luta cultural que ele pode, efetivamente, contribuir com esse processo. No entanto, a maioria dos militantes pouco agem em momentos de calmaria e em momentos de agitação se transforma rapidamente em ativista, sem ter estratégia, o que pressupõe reflexão e análise. Nesse sentido, o revolucionário reproduz o que faz o operário: passa da calmaria à agitação quando esse o faz. Mas o bom revolucionário é aquele que se antecipa, que busca criar condições favoráveis para o movimento operário conseguir sua vitória. O mau revolucionário é aquele que vai com as ondas, que não consegue distinguir luta operária de lutas de outros setores da sociedade e que fica entusiasmado com agitações que não possuem nada de revolucionárias e que nem contribuem com a ascensão da luta proletária ou fortalecimento do bloco revolucionário.

Em síntese, ser revolucionário é um projeto de vida e não é o mesmo que ativismo e voluntarismo. E o projeto autogestionário é o elemento fundamental e definidor do revolucionário. Ser revolucionário não é apenas ter um projeto autogestionário, ou “ideias autogestionárias”, é ter e buscar concretizar esse projeto através da luta. O revolucionário age sob várias formas, mas a forma principal é a luta cultural. Esse é o elemento fundamental do bloco revolucionário e no que ele mais contribui com o movimento operário e o ajuda a realizar sua potencialidade revolucionária. A formação de centros de contrapoder, a colaboração em greves e outras ações proletárias, são importantes e necessárias, mas são secundárias, a não ser em momentos revolucionários. A fusão do bloco revolucionário com o movimento operário pressupõe uma ampla luta cultural interna (para a superação das ambiguidades, incluindo o praticismo e o voluntarismo) e uma luta cultural externa pela hegemonia proletária. O revolucionário é aquele que vive para o futuro e a luta é o seu modo de ser e só tem sentido apontar para a revolução, o objetivo final. E toda luta cotidiana deve estar articulada com tal objetivo final, ou seja, com a revolução que instaura a sociedade autogerida realizando a libertação humana.


terça-feira, 8 de maio de 2018

REFLEXÕES AUTOGESTIONÁRIAS 06: DIREITA E ESQUERDA: INIMIGAS DA EMANCIPAÇÃO HUMANA


DIREITA E ESQUERDA: INIMIGAS DA EMANCIPAÇÃO HUMANA

Rubens Vinícius da Silva

Os recentes acontecimentos e casos de violência têm reacendido a velha discussão entre esquerda e direita, assim como entre fascismo/nazismo e antinazismo/antifascismo. Diante deste cenário miserável, o qual demonstra e reafirma a total hegemonia das ideias da classe dominante (ou seja, das ideias dominantes, produzidas pela intelectualidade e a serviço da reprodução desta sociedade) é fundamental realizar uma crítica que supere o aparente e ao mesmo tempo aponte para um projeto realmente revolucionário e emancipador.

Devido ao espaço e também à íntima ligação entre direita e nazismo/fascismo e esquerda e anti-nazismo-fascismo, irei me ater ao significado mais amplo destes dois lados da mesma moeda, que surgem no bojo da primeira revolução burguesa vitoriosa da história, por pura questão de espaço: os que eram a favor do governo revolucionário e suas medidas estavam à direita; os que eram contra (mas não queriam derrubá-los para superá-los, senão para substituí-los) sentavam-se à esquerda.

Pois bem: estes termos há um bom tempo não dão mais conta de explicar a realidade. Servem mais para a confusão e legitimação das relações de produção capitalistas do que o contrário. Os partidos de esquerda têm o mesmo objetivo que os de direita (a conquista do poder estatal), se organizam da mesma forma (burocraticamente, através da relação social dirigentes e dirigidos, onde uma fração de classe específica, a burocracia partidária, exerce o controle, a direção e toma as decisões no seio do partido) e partem de uma ideologia (assim como os partidos de direita) que lhe é fundamental: a ideologia da representação[1], na qual os verdadeiros interesses são omitidos (conquista e manutenção de privilégios, maior proximidade e possibilidade de atuar a serviço dos capitalistas) e falsos interesses são proclamados, a revolução, por exemplo.

O que mudam concretamente são as ideologias políticas para a conquista do poder estatal, as alianças e a base social do eleitorado. Fora isso, esquerda e direita (leia-se suas respectivas burocracias e militantes mais identificados com as práticas, valores e mentalidade desta fração de classe) são inimigas da emancipação humana: têm horror à destruição das relações de exploração, dominação e opressão características da sociedade moderna, uma vez que isso significaria o fim de sua razão de existência, qual seja, controlar, impedir, dirigir e conter toda e qualquer possibilidade de autonomização da luta das classes e grupos sociais desprivilegiados.

No caso dos partidos de esquerda que não defendem as eleições ou sua participação, a única diferença se dá na forma pela qual é feita a luta pela conquista do poder de estado: via golpe ou insurreição, realizado por uma minoria militarmente organizada e que se revela um estado em miniatura. Em ambos os casos (conquista do poder pela via legal ou ilegal), não há a abolição da produção e extração de mais-valor, não há a superação da divisão social do trabalho, da especialização que lhe caracteriza e do trabalho assalariado, bem como não se rompe com a lógica de dirigentes-dirigidos no processo de produção e reprodução dos bens materiais necessários à vida.

 Em suma, quando nos remetemos às experiências históricas de tomada violenta do poder estatal por um partido de vanguarda, que diz representar as classes trabalhadoras e em verdade possui interesses próprios, ou seja, os interesses da burocracia partidária, o que se tem é uma variante do capitalismo privado, onde a burocracia do partido se torna burguesia de estado e as classes subsistem, assim como sua condição de exploração, submissão e dominação. Assim, repete-se (como tragédia e como farsa) um fenômeno nada novo: a luta de classes é substituída pela luta em torno das ideologias. Em todos os países onde os partidos de esquerda tomaram o poder, as relações de produção e as demais relações sociais capitalistas foram mantidas e reforçadas. E o pior: o movimento operário e das demais classes e grupos explorados/oprimidos foi duramente combatido, quer pela cooptação e integração quer pela repressão aberta e violenta.

É urgente que os revolucionários avancem para além das aparências e não se deixem levar pelo cotidiano desumano e pela consciência imediata que dele decorre. Por isso mesmo a necessidade de formação política revolucionária é fundamental. Deste modo, um ponto de partida interessante é estudar as experiências revolucionárias do século passado, muitas das quais foram derrotadas, esmagadas e depois tiveram seu real conteúdo apropriado e deformado pelos próprios partidos de esquerda.

Do contrário não avançamos e as classes privilegiadas se divertem com querelas, conversas e debates improdutivos como fascismo x antifascismo; direita x esquerda; estado máximo x estado mínimo, etc... Neste contexto, a única alternativa possível e que realmente deve ser reforçada é a luta direta e encarniçada contra todos os partidos e demais organizações que reproduzem a sociedade capitalista no seu interior.

A luta cultural contra o capital é também uma luta contra as suas classes auxiliares (burocracia e intelectualidade). Os mais radicais dentre estas, em momentos de amortecimento e estabilidade da luta de classes se apresentam como amigos, defensores, 'representantes' das classes trabalhadoras. Porém, um estudo atento das lutas recentes no país reforça o que as experiências de luta revolucionária derrotadas já evidenciaram.

 Longe de recuperar essa distinção entre esquerda e direita, é preciso criar e se balizar em conceitos que ao mesmo tempo expressem a realidade e contribuam para transformá-la radicalmente. Sem a autonomização da luta proletária, este processo dificilmente pode avançar e ser concretizado, uma vez que o proletariado, devido às suas condições e situação de classe, é o único que pode colocar um fim ao conjunto da sociedade capitalista.

Neste sentido, o combate às organizações burocráticas (no caso da esquerda, partidos e sindicatos; no da direita, além destes, das demais organizações a serviço do capitalismo) deve estar articulado à necessidade da defesa da autogestão das lutas e sua generalização. Somente com a superação da divisão social do trabalho e dos vínculos com a sociedade burguesa, aliados à necessidade de expansão total das organizações não-burocráticas (que não se fundam na relação de dirigentes e dirigidos, essencialmente produto das sociedades de classes) e superação completa da totalidade das relações sociais burguesas é que tanto a esquerda quanto a direita serão enfrentadas, desmascaradas e poderão ser derrotadas, pois significam a manutenção da miséria, da exploração e de tudo o que há de mais inautêntico e desumano na humanidade.




[1] No livro O que são partidos políticos?, Nildo Viana desenvolve melhor a discussão entre a ideologia da representação e os verdadeiros interesses e objetivos da burocracia partidária: http://2012.nildoviana.com/wp/wp-content/uploads/2012/09/O-Que-Sao-Partidos-Politicos-Nildo-Viana.pdf