segunda-feira, 24 de setembro de 2018
domingo, 19 de agosto de 2018
CURSO "A DIALÉTICA MARXISTA"
Nas manhãs de sábado, entre os dias 15 de setembro e 6 de
outubro, o Ruptura Espaço Cultural promoverá o curso "A DIALÉTICA
MARXISTA".
Excelente oportunidade tanto para aqueles que já possuem
estudos da obra de Karl Marx, quanto para aqueles que desejam uma abordagem
inicial.
As inscrições custam 20 reais e há certificação ao final do
curso.
O curso será ministrado pelo Prof. Dr. Nildo Viana, da
Faculdade de Ciências Sociais da UFG.
O Ruptura Espaço Cultural está localizado próximo à Praça da
Bíblia. Av. Anhanguera, Qd 117-B, Lt. 04, Nº 128.
Em frente ao Sindicato dos Empregados no Comércio (SECEG) e
Igreja Videira.
segunda-feira, 30 de julho de 2018
sexta-feira, 27 de julho de 2018
Nova edição da Revista ENFRENTAMENTO - PARA UMA CRÍTICA DA BUROCRACIA
Disponível a nova edição da Revista Enfrentamento!
Esta edição conta com contribuições de Nildo Viana, Edmilson Marques, Diego Marques, Rubens Vinícius e Jan Waclaw Makhaïsky, onde os autores aprofundam a crítica da burocracia (como classe social e forma organizacional) e do processo de burocratização do conjunto das relações sociais, iniciados na edição anterior.
Do editorial:
"A classe operária, nos momentos de radicalização de suas lutas, torna consciente esta característica das lutas sociais. Contudo, cessado o ciclo de lutas, tal aprendizagem, via de regra, não se acumula, não se sedimenta. Em um novo ciclo, ela deve aprender de novo, pois surge uma nova geração de trabalhadores que aprende, novamente, por si mesma, o significado da burocracia enquanto classe. Somente quando houver a superação desta situação, de modo continuado no tempo e no espaço, é que veremos a possibilidade de uma nova sociedade se apontar no horizonte. A burguesia, quando a classe operária entra em luta, é facilmente identificável como inimiga. Essa identificação também ocorre com o estado, pois este acorre em reprimir o movimento. As burocracias inferiores, contudo, são as últimas a serem percebidas como inimigas. Quando isto acontece é porque a luta de classes já está radicalizada a níveis perigosos para a classe dominante. E esta faz tudo o que puder para evitar este degrau na luta do proletariado.''
terça-feira, 24 de julho de 2018
domingo, 1 de julho de 2018
REFLEXÕES AUTOGESTIONÁRIAS 07: O QUE É SER REVOLUCIONÁRIO?
O QUE É SER REVOLUCIONÁRIO?
Carlos Henrique Marques
Uma das questões que surgem na sociedade capitalista e que é
sempre motivo para questionamento dos militantes autogestionários é sobre o que
é ser revolucionário. Ser revolucionário é apenas defender o projeto
autogestionário, ou seja, ficar no nível das ideias? Apresentaremos,
sinteticamente, uma resposta para isso.
O projeto autogestionário é parte e não a totalidade do
movimento revolucionário. E tanto as ideias autogestionárias quanto os demais
elementos do movimento revolucionário estão marginalizados em nossa sociedade
no atual momento. E não poderia deixar de ser, pois sempre foi assim.
Em épocas de ascensão das lutas, estas saem da posição
marginal e disputam, no interior das classes desprivilegiadas (e não na
sociedade como um todo) a hegemonia e em momentos revolucionários se torna
hegemônico. O movimento revolucionário é uma totalidade, que dentro do
capitalismo, se manifesta fundamentalmente no plano das ideias, pois no plano
das relações de produção permanece o capitalismo e o estudante, o intelectual,
o professor, o operário, estão reproduzindo o capitalismo, seja produzindo
mais-valor (operário), seja reproduzindo as instituições capitalistas
(professores e estudantes reproduzindo a escola, a universidade) que possuem a
função de reproduzir o capitalismo...
Obviamente que há a militância revolucionária, mas esta é,
fundamentalmente, cultural e teórica. Ela é também de intervenção nas lutas,
ações junto aos trabalhadores, etc., sendo essa parte mais limitada, tanto por
existirem poucos revolucionários (indivíduos e grupos) quanto por existir pouca
ressonância na sociedade. Ela consiste em formar grupos revolucionários,
divulgar e fortalecer a luta cultural[1], atuar no interior do
movimento operário, movimentos sociais, sociedade civil, quando isso é
possível.
O problema é considerar que ser revolucionário é agir quando
existe agitação, sendo que, na verdade, ser revolucionário é fazer o trabalho
cotidiano para fortalecer a hegemonia proletária em certos setores da sociedade
e que pode ocorrer também quando existe agitação, desde que na perspectiva
revolucionária, embasada numa estratégia revolucionária e de acordo com as
possibilidades de ação. Daí é fundamental ter em vista a distinção entre “ação
desejável” e “ação possível”. A ação desejável é a que desejamos realizar, que
pode se concretizar se for possível. A ação possível é aquilo que damos conta
de fazer em determinado contexto. Por exemplo, fazer propaganda revolucionária
generalizada no centro de uma grande capital é uma ação desejável, mas isso
depende de recursos, militantes, etc., e num regime ditatorial, não é possível.
Seria uma ação desejável, mas não uma ação possível. Para saber se é uma ação
possível é necessário ter estratégia revolucionária e análise da conjuntura no
sentido de compreender se há necessidade, possibilidade e utilidade em
determinada ação.
Ser revolucionário não é apenas fazer discurso e nem apenas
fazer agitação quando existe mobilização. Não se trata de apenas fazer
discurso, mas sim de uma luta cultural, que assume inúmeras formas (propaganda
generalizada, produção artística, produção teórica, divulgação de ideias,
conversação cotidiana, etc.) e que tem pressupostos (autoformação, reflexão,
estratégia, etc.). Da mesma forma, não se trata de apoiar toda e qualquer
mobilização (é preciso saber de quem, com que objetivos, com quais
reivindicações, quais suas tendências e consequências, etc.). Existe uma
tendência, ligada ao praticismo e ativismo, de considerar que ser
revolucionário é estar nas agitações e mobilizações. Isso é ser rebelde ou ser
oportunista (depende da forma e objetivos pelos quais se faz isso), ou, ainda,
ser ingênuo.
Ser revolucionário pressupõe objetivar a revolução e para
isso é preciso saber o que é uma revolução e como elas se realizam e,
historicamente já foi comprovado que o voluntarismo nunca gerou revoluções. A
revolução é produto de uma classe social específica, o proletariado, e que pode
até emergir a partir de lutas de outros setores da sociedade, mas não pode se
concretizar sem ele. Se não há no movimento operário uma tendência para a
revolução, de nada adianta o voluntarismo ou agitação. A agitação e mobilização
sem essa tendência, pode gerar o efeito contrário do que se espera ou a repressão
e enfraquecimento do movimento revolucionário. Por isso o militante não deve
ser voluntarista e se considerar uma “vanguarda” e nem cair no reboquismo. O
militante realmente revolucionário deve fazer um trabalho mais profundo e
cotidiano de buscar criar condições favoráveis para uma vitória do
proletariado. Esse trabalho deve ser cotidiano e fornecer armas para a luta do
proletariado, tal como elementos de cultura, ideias revolucionárias, etc., para
quem, em momentos de agitação e crise, haja o processo de autonomização do
proletariado e sua passagem para classe autodeterminada.
Ser revolucionário significa uma luta cotidiana e constante,
inclusive dos indivíduos contra eles mesmos (muitas vezes é preciso sacrificar
os interesses pessoais para manter-se como revolucionário). É uma luta contra
toda a sociedade existente, contra os valores dominantes, as ideias
hegemônicas, as pressões sociais sob inúmeras formas. Ser revolucionário
pressupõe ser forte e corajoso. Inclusive para não cair nas armadilhas do
voluntarismo e da necessidade de dar satisfação para os outros de suas ações e
posições, especialmente, nesse caso, para os progressistas (especialmente
social-democratas e leninistas), pois eles necessitam de ativismo para garantir
seus votos, uma imagem positiva diante da população, etc. Eles não são
revolucionários e não entendem o que é ser revolucionário e por isso suas
cobranças aos militantes autogestionários são ridículas e pautadas no
reformismo e, na maioria dos casos, no oportunismo. Um revolucionário não se
mede pelo discurso dos progressistas e sim pelo seu compromisso com a
transformação radical e total das relações sociais e isso leva, fatalmente, a
crítica ao capitalismo e suas expressões políticas e culturais variadas e ao
falso socialismo dos progressistas, um elemento contrarrevolucionário que
muitas vezes se infiltra no movimento operário e lutas sociais.
O revolucionário pode e deve ir em manifestações, apoiar
greves, etc., mas não é um agitador, um aventureiro, um voluntarista. Esse
momento da luta revolucionária é necessário quando embasado numa estratégia
revolucionária, o que pressupõe uma análise e reflexão sobre sua ação e
contexto. Um revolucionário jamais se dedica à “ação pela ação”, pois o seu
objetivo é ação para a revolução. Por
isso não se pode perder de vista nunca o objetivo e o significado de cada
ideia, ação, posição, em relação ao objetivo final (revolução e autogestão).
Por isso é necessário, também, superar o romantismo e o
obreirismo, buscando participar de toda e qualquer manifestação ou agitação,
por causa de um pressuposto, equivocado e não-marxista, de que o “povo”
(inclusive existem obreiristas que acabam achando que caminhoneiros são
“proletários” ou “revolucionários”) é naturalmente e espontaneamente revolucionário.
É preciso entender quem é o proletariado e quem são as outras classes, frações
de classes, categorias profissionais, etc., e seus interesses (muito mais que
seus discursos, que devem ser analisados também, mas a partir de uma concepção
totalizante e que se atende para as relações sociais concretas e os interesses
envolvidos nas lutas sociais por cada setor da sociedade). O proletariado é
potencialmente revolucionário e é na luta que isso se concretiza. Essa luta é
uma luta de classe e não se limita a meras “manifestações” de rua, algo pouco
politizado e que pouco pode fazer para avançar a luta proletária. A luta do
proletariado se revela muito mais – e de forma muito mais profunda e radical,
nas ações no local de trabalho, nas greves, no desenvolvimento da consciência
revolucionária (autoformação) e na constituição de formas de auto-organização.
É por isso que o militante revolucionário deve buscar fortalecer esses
elementos e é via luta cultural que ele pode, efetivamente, contribuir com esse
processo. No entanto, a maioria dos militantes pouco agem em momentos de
calmaria e em momentos de agitação se transforma rapidamente em ativista, sem
ter estratégia, o que pressupõe reflexão e análise. Nesse sentido, o
revolucionário reproduz o que faz o operário: passa da calmaria à agitação
quando esse o faz. Mas o bom revolucionário é aquele que se antecipa, que busca
criar condições favoráveis para o movimento operário conseguir sua vitória. O
mau revolucionário é aquele que vai com as ondas, que não consegue distinguir
luta operária de lutas de outros setores da sociedade e que fica entusiasmado
com agitações que não possuem nada de revolucionárias e que nem contribuem com
a ascensão da luta proletária ou fortalecimento do bloco revolucionário.
Em síntese, ser revolucionário é um projeto de vida e não é
o mesmo que ativismo e voluntarismo. E o projeto autogestionário é o elemento
fundamental e definidor do revolucionário. Ser revolucionário não é apenas ter
um projeto autogestionário, ou “ideias autogestionárias”, é ter e buscar
concretizar esse projeto através da luta. O revolucionário age sob várias
formas, mas a forma principal é a luta cultural. Esse é o elemento fundamental
do bloco revolucionário e no que ele mais contribui com o movimento operário e
o ajuda a realizar sua potencialidade revolucionária. A formação de centros de
contrapoder, a colaboração em greves e outras ações proletárias, são
importantes e necessárias, mas são secundárias, a não ser em momentos
revolucionários. A fusão do bloco revolucionário com o movimento operário
pressupõe uma ampla luta cultural interna (para a superação das ambiguidades,
incluindo o praticismo e o voluntarismo) e uma luta cultural externa pela
hegemonia proletária. O revolucionário é aquele que vive para o futuro e a luta
é o seu modo de ser e só tem sentido apontar para a revolução, o objetivo
final. E toda luta cotidiana deve estar articulada com tal objetivo final, ou
seja, com a revolução que instaura a sociedade autogerida realizando a
libertação humana.
[1]
Sobre luta cultural, confira: Luta
de Classes e Universo Cultural, Hegemonia
e Luta Cultural, Marx
e a Luta Cultural, Luta
Cultural e Propaganda Revolucionária,
terça-feira, 8 de maio de 2018
REFLEXÕES AUTOGESTIONÁRIAS 06: DIREITA E ESQUERDA: INIMIGAS DA EMANCIPAÇÃO HUMANA
DIREITA E ESQUERDA: INIMIGAS DA EMANCIPAÇÃO
HUMANA
Rubens Vinícius da Silva
Os recentes acontecimentos e casos de violência têm
reacendido a velha discussão entre esquerda e direita, assim como entre
fascismo/nazismo e antinazismo/antifascismo. Diante deste cenário miserável, o
qual demonstra e reafirma a total hegemonia das ideias da classe dominante (ou
seja, das ideias dominantes, produzidas pela intelectualidade e a serviço da
reprodução desta sociedade) é fundamental realizar uma crítica que supere o
aparente e ao mesmo tempo aponte para um projeto realmente revolucionário e
emancipador.
Devido ao espaço e também à íntima ligação entre direita e
nazismo/fascismo e esquerda e anti-nazismo-fascismo, irei me ater ao
significado mais amplo destes dois lados da mesma moeda, que surgem no bojo da
primeira revolução burguesa vitoriosa da história, por pura questão de espaço:
os que eram a favor do governo revolucionário e suas medidas estavam à direita;
os que eram contra (mas não queriam derrubá-los para superá-los, senão para
substituí-los) sentavam-se à esquerda.
Pois bem: estes termos há um bom tempo não dão mais conta de
explicar a realidade. Servem mais para a confusão e legitimação das relações de
produção capitalistas do que o contrário. Os partidos de esquerda têm o mesmo
objetivo que os de direita (a conquista do poder estatal), se organizam da
mesma forma (burocraticamente, através da relação social dirigentes e
dirigidos, onde uma fração de classe específica, a burocracia partidária,
exerce o controle, a direção e toma as decisões no seio do partido) e partem de
uma ideologia (assim como os partidos de direita) que lhe é fundamental: a
ideologia da representação[1],
na qual os verdadeiros interesses são omitidos (conquista e manutenção de
privilégios, maior proximidade e possibilidade de atuar a serviço dos
capitalistas) e falsos interesses são proclamados, a revolução, por exemplo.
O que mudam concretamente são as ideologias políticas para a
conquista do poder estatal, as alianças e a base social do eleitorado. Fora
isso, esquerda e direita (leia-se suas respectivas burocracias e militantes
mais identificados com as práticas, valores e mentalidade desta fração de
classe) são inimigas da emancipação humana: têm horror à destruição das
relações de exploração, dominação e opressão características da sociedade
moderna, uma vez que isso significaria o fim de sua razão de existência, qual
seja, controlar, impedir, dirigir e conter toda e qualquer possibilidade de
autonomização da luta das classes e grupos sociais desprivilegiados.
No caso dos partidos de esquerda que não defendem as
eleições ou sua participação, a única diferença se dá na forma pela qual é
feita a luta pela conquista do poder de estado: via golpe ou insurreição,
realizado por uma minoria militarmente organizada e que se revela um estado em
miniatura. Em ambos os casos (conquista do poder pela via legal ou ilegal), não
há a abolição da produção e extração de mais-valor, não há a superação da
divisão social do trabalho, da especialização que lhe caracteriza e do trabalho
assalariado, bem como não se rompe com a lógica de dirigentes-dirigidos no
processo de produção e reprodução dos bens materiais necessários à vida.
Em suma, quando nos
remetemos às experiências históricas de tomada violenta do poder estatal por um
partido de vanguarda, que diz representar as classes trabalhadoras e em verdade
possui interesses próprios, ou seja, os interesses da burocracia partidária, o
que se tem é uma variante do capitalismo privado, onde a burocracia do partido
se torna burguesia de estado e as classes subsistem, assim como sua condição de
exploração, submissão e dominação. Assim, repete-se (como tragédia e como
farsa) um fenômeno nada novo: a luta de classes é substituída pela luta em
torno das ideologias. Em todos os países onde os partidos de esquerda tomaram o
poder, as relações de produção e as demais relações sociais capitalistas foram
mantidas e reforçadas. E o pior: o movimento operário e das demais classes e
grupos explorados/oprimidos foi duramente combatido, quer pela cooptação e
integração quer pela repressão aberta e violenta.
É urgente que os revolucionários avancem para além das
aparências e não se deixem levar pelo cotidiano desumano e pela consciência
imediata que dele decorre. Por isso mesmo a necessidade de formação política
revolucionária é fundamental. Deste modo, um ponto de partida interessante é
estudar as experiências revolucionárias do século passado, muitas das quais
foram derrotadas, esmagadas e depois tiveram seu real conteúdo apropriado e
deformado pelos próprios partidos de esquerda.
Do contrário não avançamos e as classes privilegiadas se
divertem com querelas, conversas e debates improdutivos como fascismo x antifascismo;
direita x esquerda; estado máximo x estado mínimo, etc... Neste contexto, a
única alternativa possível e que realmente deve ser reforçada é a luta direta e
encarniçada contra todos os partidos e demais organizações que reproduzem a
sociedade capitalista no seu interior.
A luta cultural contra o capital é também uma luta contra as
suas classes auxiliares (burocracia e intelectualidade). Os mais radicais
dentre estas, em momentos de amortecimento e estabilidade da luta de classes se
apresentam como amigos, defensores, 'representantes' das classes trabalhadoras.
Porém, um estudo atento das lutas recentes no país reforça o que as
experiências de luta revolucionária derrotadas já evidenciaram.
Longe de recuperar
essa distinção entre esquerda e direita, é preciso criar e se balizar em
conceitos que ao mesmo tempo expressem a realidade e contribuam para
transformá-la radicalmente. Sem a autonomização da luta proletária, este
processo dificilmente pode avançar e ser concretizado, uma vez que o
proletariado, devido às suas condições e situação de classe, é o único que pode
colocar um fim ao conjunto da sociedade capitalista.
Neste sentido, o combate às organizações burocráticas (no
caso da esquerda, partidos e sindicatos; no da direita, além destes, das demais
organizações a serviço do capitalismo) deve estar articulado à necessidade da
defesa da autogestão das lutas e sua generalização. Somente com a superação da
divisão social do trabalho e dos vínculos com a sociedade burguesa, aliados à
necessidade de expansão total das organizações não-burocráticas (que não se
fundam na relação de dirigentes e dirigidos, essencialmente produto das
sociedades de classes) e superação completa da totalidade das relações sociais
burguesas é que tanto a esquerda quanto a direita serão enfrentadas,
desmascaradas e poderão ser derrotadas, pois significam a manutenção da
miséria, da exploração e de tudo o que há de mais inautêntico e desumano na
humanidade.
[1] No
livro O que são partidos políticos?, Nildo Viana desenvolve melhor a discussão
entre a ideologia da representação e os verdadeiros interesses e objetivos da
burocracia partidária: http://2012.nildoviana.com/wp/wp-content/uploads/2012/09/O-Que-Sao-Partidos-Politicos-Nildo-Viana.pdf
segunda-feira, 7 de maio de 2018
TEXTOS E DEBATES - A HISTÓRIA SE REPETE: O MAIO DE 1968/2018 E A BUROCRACIA ENQUANTO ÚLTIMA TRINCHEIRA DA BURGUESIA.
por Gabriel Teles
E depois de 50 anos, a CGT, principal e maior central
sindical francesa, cumpre novamente o seu papel burocrático, emperrando a
radicalização das lutas e criminalizando as manifestações, sobretudo a de
ontem, 1° de maio.
Hoje, Jean Pierre Mercier, delegado da CGT, foi a televisão
dizer que a "festa do dia dos trabalhadores" foi manchada por um
conjunto de arruaceiros que, pasmem, detestam o trabalho. Sorte a dos franceses
que possuem indivíduos que ainda detestam o trabalho alienado, fruto da
exploração e dominação de classe. Ao contrário deste sindicalista, que
glorifica o trabalho assalariado, estes "arruaceiros" buscam
aboli-lo.
No final da entrevista, o senhor Mercier ainda afirma, de
forma orgulhosa, que a comissão de segurança e da ordem da CGT nas
manifestações de ontem, fora mais eficazes que a polícia no estabelecimento da
ordem. Sabemos que não é a primeira vez que é confiado a este sindicato o
serviço de repressão e desmobilização dos estudantes e trabalhadores.
A história se repete, a primeira vez como tragédia e depois
como farsa.
Em 1968, a CGT e as demais burocracias sindicais e
partidárias, como bem disseram os estudantes franceses de Censier, foram as
últimas trincheiras da burguesia para conter o avanço das lutas dos
trabalhadores e dos estudantes.
Georges Seguy , secretário-geral do CGT na época, afirmara
com todas as letras que a CGT contribuiu para o estabelecimento da ordem e
retomada do geral do trabalho: “A opinião pública perturbou-se com as confusões
e as violências, desorientada pelas posições equivocadas e o abandono do
Estado, de modo que a CGT, a grande força tranquila, é quem veio restabelecer a
ordem ao organizar a retomada geral do trabalho”.
Parafraseando Marx, o principal fruto do Maio de 68 não foi
o que os estudantes e trabalhadores ganharam, mas sim o que perderam: a perda
de suas ilusões.
No século XX, as experiências revolucionárias do
proletariado (Revolução Russa, Alemã, Espanhola, Maio de 68, etc.) sempre
encontraram a burocracia enquanto uma poderosa força a ser enfrentada. É
exatamente por esse motivo que existe a necessidade de combatê-la. Assim,
buscar intensificar a luta cultural contra essa classe e suas organizações
torna-se fundamental para aqueles que almejam a transformação social e a
emancipação humana.
TEXTOS E DEBATES - 1° de maio na França: "Em Maio de 68 tiveram medo? Em 2018 vamos fazer pior!"
por Gabriel Teles
A França tem sido palco de um
acirramento das lutas que há muito não se via. Ontem, 1° de maio, dia do
trabalhador, uma manifestação combativa pipocou em várias cidades francesas e
encontrou o seu auge em Paris.
Trata-se de uma resposta dos
trabalhadores e dos estudantes diante das medidas neoliberais que estão sendo
intensificadas, ampliando ainda mais a miséria, reforçando ainda mais a dominação
e exploração das classes desprivilegiadas daquele país.
Do ponto de vista dos
trabalhadores, a reforma da previdência e a reforma trabalhista corrói o que
restava dos direitos sociais. Ainda dispersa, a resposta dos trabalhadores é
paulatinamente colocada em várias manifestações de resistência e luta. Durante
este ano, diversas greves, dos mais diversos setores (da construção de aviões
até trabalhadores de fastfood) se intensificam cada vez mais.
Entre os estudantes a situação
não é diferente. Com a aprovação de um novo plano de educação superior (que
dificulta mais ainda o ingresso na universidade), o movimento estudantil ocupa
e bloqueia diversos centros universitários e vários campi (como a Paris 1
[Tolbiac] e 8 [Saint-Denis]). O histórico campus de Nanterre (berço do estopim
do Maio de 68 francês) também foi ocupado. Mesmo com a repressão policial, os
estudantes resistem.
Na fachada de um dos campi
ocupados, os estudantes alertam: "Em Maio de 68 tiveram medo? Em 2018
vamos fazer pior!"
Que na França, mas igualmente em
todo o mundo, lutemos para a passagem da guerra civil oculta e velada à guerra
civil aberta, expressando o processo de autonomização da classe operária, das
demais classes desprivilegiadas e dos movimentos sociais revolucionários gerando
a autogestão das lutas sociais pelas classes exploradas e pelos movimentos
sociais.
quarta-feira, 2 de maio de 2018
Reflexões Autogestionárias 05: Sobre o Presentismo
Reflexões Autogestionárias 05:
SOBRE
O PRESENTISMO
Rubens Vinicius da Silva
Na sociedade contemporânea, o apego acrítico à conjuntura e
o presentismo dela decorrente constrangem até os indivíduos mais avançados a
tomarem posição diante dos recentes e fugazes acontecimentos do dia a dia.
Ninguém quer ficar de fora das polêmicas do momento: sejam elas quais forem,
tais como a questão da cura gay e da criação de um estado na região da
Catalunha. Afinal de contas, há que ser ''críticos'', não é verdade?
Contudo, o que se
percebe é uma enxurrada opiniões eivadas de preconceitos e a consequente falta
de estudos rigorosos, a partir de concepções alicerçadas numa perspectiva de
classe definida e coerente.
Pois bem: isto tudo apenas evidencia a força das ideias,
mentalidade, valores, representações e ideologias dominantes, expressando a renovação
da hegemonia burguesa. Os meios oligopolistas de comunicação contribuem
sobremaneira para impedir e combater toda e qualquer crítica autêntica, que vá
à raiz do problema: a totalidade das relações sociais e de produção burguesas.
Neste sentido, vale tudo para desviar o foco essencial da
luta de classes, da acumulação de capital e da tendência (que existe e deve ser
reforçada, embora seja marginalizada e combatida com avidez pelos capitalistas
e suas classes auxiliares) de superação radical do capitalismo. O presentismo e
o conjunturalismo predominam e se manifestam no plano nacional e internacional,
na dinâmica dos movimentos sociais e classes sociais, bem como nas elaborações
intelectuais. No primeiro caso, temos a recusa do passado e também do futuro,
pautada na despreocupação com a necessidade de ruptura radical, a qual se apoia
na negligência do projeto revolucionário: a falta da alternativa
revolucionária, no caso da tendência presentista, aponta para a fixação do
cotidiano, a aceitação acrítica do conjunto das relações sociais capitalistas,
eternizando-as sob o manto de afirmações que nada explicam, tais como “a
prática é o critério da verdade”...
Os adeptos do presentismo aceitam e defendem as mudanças
legais, institucionais, justificam as alianças com a classe dominante e suas
classes auxiliares, as políticas estatais (que apenas reproduzem em escala
ampliada as relações de exploração e dominação de classe). Nada de ruptura
revolucionária: o que importa é o ‘dá pra fazer no momento’, leia-se o que é
possível fazer para nada transformar radicalmente.
Já o conjunturalismo é o reforço do presentismo: trata-se de
fetichizar a tão famosa ‘conjuntura’, negando a historicidade dos fenômenos
sociais e realizando uma simples descrição dos fenômenos ou acontecimentos (em
geral, aqueles vinculados à política institucional burguesa). Sem dúvida, é
necessário analisar a dinâmica da sociedade contemporânea: contudo, não se
trata de ficar nos limites da conjuntura e sim entender que a repetição da
mesma é na verdade a reprodução do cotidiano, ou seja, das relações sociais
capitalista na sua totalidade. Assim, é necessário partir da crítica da
conjuntura e ir além dela, o que remete para a questão fundamental: a
necessidade da defesa de um projeto alternativo de sociedade.
Assim, no primeiro plano, a nova onda do momento passa pela
defesa de pseudoliberdades individuais (num conjunto de relações sociais
marcadas pela exploração, dominação e alienação generalizadas, onde o combate
estéril fica na maioria das vezes preso aos limites da ciência versus teologia,
duas das principais formas de pensamento complexo a serviço da reprodução e
regularização deste modo de produção). Se os problemas que se generalizam em
nossa sociedade são produtos históricos e sociais, as falsas soluções
individuais, além de não apontarem para a transformação social radical acabam
por reforçar o cotidiano e a sociedade atual, fortalecendo o que dizem
combater.
Já no segundo, tem-se o resgate de um nacionalismo caduco
(que negligencia que toda forma de estado é produto da sociedade de classes):
como se a criação de um novo estado ou organização burocrática fosse a salvação
para a superação da exploração capitalista. Ainda mais num contexto de
neoliberalismo, acirramento de conflitos, ressurgimento de novas formas de
organização e aumento da miséria em todas as suas manifestações...
Desse modo, o resgate e defesa de um projeto alternativo e
revolucionário de sociedade, aliado à crítica radical do presente, (ou seja, da
conjuntura, muito além de uma simples análise) não é apenas um dos pontos a ser
colocados no debate: expressa a única forma de superação real e concreta destas
e de outras tantas ilusões fomentadas e reproduzidas em nossa sociedade.
Inclusive por indivíduos que buscam expressar uma perspectiva proletária
autêntica.
A ‘crítica’ não alicerçada num projeto de transformação
radical da sociedade é uma crítica vazia e contemplativa, revelando uma
pseudocrítica que aponta para mudanças pontuais que nada mudam, ou melhor,
conservam as relações desumanas e inautênticas que constituem a sociedade
atual. Assim, a verdadeira função da crítica revolucionária não é apontar
mudanças dentro da ordem burguesa, ou comentar sobre suas distintas formas de
manutenção. É demonstrar como o cotidiano, a conjuntura e o presentismo deles
decorrente são mais uma expressão desta sociedade. Como bem colocou Marx:
- "A crítica não arranca as flores imaginárias dos grilhões para que o homem suporte os grilhões sem fantasia e consolo, mas para que se livre delas e possam brotar as flores vivas."
- Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel [1843-1844].
Desse modo, ao invés de compactuar com a sociedade do
presente e sua conjuntura, o fundamental e urgente é apresentar uma alternativa
de superação total do conjunto de suas relações sociais. Isso só é possível com
a defesa do projeto autogestionário, que parte da necessidade de ir além do que
existente e cuja força material é o proletariado, a classe revolucionária de
nosso tempo.
Somente a partir da autogestão das lutas por esta classe, aliadas
à defesa da autogestão social por membros de outras classes e grupos sociais
que partilham do mesmo projeto terão a possibilidade real e concreta de
abolição do presentismo e do conjunturalismo, expressões da sociedade capitalista.
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