segunda-feira, 13 de julho de 2020

COMO ASSIM VOCÊ NÃO É FEMINISTA?



COMO ASSIM VOCÊ NÃO É FEMINISTA?



Jaciara Veiga

Ao dizer que não sou feminista, logo surgem algumas perguntas já com um “ar de reprovação”, sem ao menos buscar saber o porquê de tal afirmação: Como assim você não é feminista? Então você é contra a luta pela igualdade das mulheres em relação aos homens? Como uma mulher pode não ser feminista?

Parece natural que a reação da grande maioria das pessoas seja exatamente essa, a de estranhamento diante do que parece óbvio: “toda mulher é/deve ser feminista”. Isso acontece porque o feminismo é conhecido como o movimento que luta em favor das mulheres, de todas as mulheres; um movimento que reivindica a igualdade social e política entre os sexos. Apesar de hoje se falar de feminismo no plural (os feminismos), todos eles, com raras e ambíguas exceções, consideram a mulher — e não o proletariado — o sujeito da ação política, cujo interesse fundamental seria a luta pela igualdade de direitos em relação aos homens, uma luta pelo fim de sua opressão[1] numa sociedade “machista” e “patriarcal”. Esse estranhamento ocorre justamente por se acreditar que o movimento de luta das mulheres é homogêneo, isto é, desconsiderando que as mesmas pertencem à classes sociais distintas, desvinculando suas lutas das demais relações sociais e, por conseguinte, reduzindo-as meramente a uma relação entre homem-mulher, onde sua opressão seria causada pela “maldade inata do homem”. Nesse sentido, cria-se a ilusão de uma unidade entre as mulheres que através de interesses comuns, independentes dos de sua classe, constroem uma “fraternidade de sexo”, uma “sororidade”.

O feminismo se coloca como representante dos interesses das mulheres como um todo, mas, na verdade, representa os interesses das mulheres das classes superiores[2]. Apesar de estar ligado ao movimento das mulheres em geral, o feminismo é uma concepção ambígua (que pode se manifestar sob a forma de ideologia, doutrina ou representações) que diz representar os interesses das mulheres como grupo social em sua totalidade, mas  no fundo, representa os interesses individuais, setoriais ou das mulheres de determinadas classes sociais)[3]. Não é possível, portanto, falar em um movimento unitário das mulheres em uma sociedade dividida em classes sociais.

De fato, as mulheres sempre se rebelaram contra a situação social de opressão e subordinação a qual estão submetidas, e isso ocorreu durante um longo processo histórico e se desenvolveu sob diversas formas[4]. Contudo, o movimento de luta das mulheres tem sido por natureza um movimento fragmentado, com múltiplas manifestações, objetivos e pretensões diversas. O movimento feminino é considerado por muitos como homogêneo. No entanto, ele é heterogêneo e possui ramificações com variações em suas manifestações, como é o exemplo do feminismo[5].

Deste modo, não podemos confundir o movimento social em sua totalidade, o movimento feminino, com uma de suas ramificações, o feminismo[6]. É imprescindível fazermos a distinção entre movimento feminino e feminismo, para compreendermos a diferença entre ambos e superarmos o equívoco que considera todas as lutas, históricas e concretas das mulheres como sendo lutas feministas.

Apesar do feminismo ter mais destaque e hegemonia entre as mulheres das classes superiores, assim como nos meios acadêmicos e de comunicação e suas exigências aparentemente serem radicais, não se deve perder de vista o fato de que as feministas não podem e não querem, devido aos seus interesses de classe, lutar pela transformação radical da sociedade, sem a qual a libertação das mulheres não se efetivará. O feminismo é expressão da classe burguesa em oposição ao movimento feminino revolucionário, cuja expressão é a da classe operária. Seu objetivo implica uma emancipação particular (somente das mulheres), uma vez que afirma que o agente da libertação da opressão é o próprio indivíduo oprimido. Logo, a libertação das mulheres seria obra das próprias mulheres. A tentativa de associar a luta da mulher trabalhadora à luta feminista, não passa de uma estratégia que desvia da luta de classes, negando o proletariado como único agente histórico revolucionário.

  A luta das mulheres trabalhadoras não pode ser confundida com a ideologia feminista que busca uma “igualdade” em conformidade com a ideologia dominante, ou seja, a integração das mulheres no capitalismo “reformado”, através de conquistas parciais, tais como a “representatividade” nas instituições burguesas que, aliás, não serão alcançadas por todas as mulheres, mas criam a ilusão de que é possível encontrar “seu lugar” na sociedade. Sem dúvida alguma, mesmo que estas reformas sejam realizadas, a determinação fundamental da subordinação da mulher não será eliminada.

Então deve-se abandonar as lutas especificamente femininas em prol da luta de classes? É óbvio que a resposta é não. O que está sendo combatido é a forma como isso tem sido feito — além de isolar as lutas das mulheres, tornando-as autônomas e independentes das demais lutais sociais e acima da luta de classes, defende que a “maldade inata do homem” é a causa de sua opressão. Um equívoco que contribui muito mais para a reprodução das relações de subordinação do que para uma transformação radical dessas mesmas.

A luta, entretanto, deve ser classe contra classe e não sexo contra sexo[7]. A substituição da luta de classes pela luta entre os sexos é um verdadeiro entrave para a libertação das mulheres. É por isso que a luta das mulheres trabalhadoras é ao lado de seus companheiros de classe, os homens proletários, bem como de todos os homens e mulheres que se engajam na luta pela revolução, e não ao lado das feministas, mulheres que expressam os interesses da classe antagônica à sua. Para lutar pela emancipação das mulheres não é preciso ser feminista, muito pelo contrário, deve-se combater o feminismo e seu caráter burguês, pois somente assim, as trabalhadoras poderão construir um movimento, no qual os interesses de classe estejam acima dos interesses particulares, pois é somente através da transformação social total, que as mulheres, em particular, e a humanidade, em geral, poderá se libertar.

Combater o capitalismo, colocando em primeiro plano a luta pela autogestão social ao lado do movimento operário, segue sendo uma árdua, mas necessária tarefa das mulheres trabalhadoras.



[1] Não há como negar que na sociedade capitalista existe opressão e subordinação da mulher e que ela passou por diferentes formas e graus, mas que ainda continua existindo. O grande problema da mulher no capitalismo, bem como em toda sociedade de classe, é a subordinação. A opressão nas sociedades classistas atinge tanto mulheres quanto homens, mas a opressão da mulher segue sendo um problema maior que a dos homens, pois ela é acompanhada da subordinação, transformando-se em algo quantitativa e qualitativamente diferente. Ver Marxismo, Antropologia e Subordinação da Mulher, Nildo Viana in A Opressão das Mulheres no passado e presente – para acabar no futuro: uma perspectiva marxista, Christophe Darmangeat, 2017.

[2] Sobre classes superiores e classes inferiores ver “Classes superiores e classes inferiores”, Viana, 2019.

[3] Sobre movimento feminino e feminismo ver:

Movimento Feminino e Feminismo,  Marcus Gomes:  https://redelp.net/revistas/index.php/rms/article/view/06gomesms03;

O Feminismo como Ideologia Reformista, Florence Oppen:  http://phl.bibliotecaleontrotsky.org/arquivo/mv06neept/mv 06neept-11o.pdf;

Por qué no soy feminista: Un manifiesto feminista, Jessa Crispin.  Madrid: Lince, 2016;

Os Fundamentos Sociais da Questão Feminina, Alexandra Kollontai:  https://www.marxists.org/portugues/kollontai/1907/mes/fundamentos.htm;

Coletivo 8 de Março: http://coletivooitodemarco.blogspot.com/

Nuevo Curso: https://nuevocurso.org/diccionario/feminismo/

Barbaria: http://barbaria.net/tag/critica-al-feminismo/

[4] Concordamos com a tese de que a opressão das mulheres tem sua origem nas sociedades classistas, negando, portanto, a naturalização da opressão universal da mulher.

[5] Que, por sua vez, é dividido em várias tendências: “liberais”, “radicais”, “existencialistas”, “marxistas”, “anarquistas”, “socialdemocratas”.

[6] Os movimentos sociais produzem diversas ramificações, isto é, um movimento social pode ser considerado um caule do qual brotam diversos ramos. Essas ramificações, por sua vez, são derivações dos movimentos sociais. Apesar de muitas vezes serem confundidas com um movimento social em si, são partes dele sem ser sua totalidade ou ele mesmo. Ver: Os Movimentos Sociais, Nildo Viana, 2016.

[7] Sexo contra sexo ou classe contra classe: https://www.marxists.org/portugues/reed-evelyn/ano/mes/sexo.htm

 


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