segunda-feira, 13 de julho de 2020

COMO ASSIM VOCÊ NÃO É FEMINISTA?



COMO ASSIM VOCÊ NÃO É FEMINISTA?



Jaciara Veiga

Ao dizer que não sou feminista, logo surgem algumas perguntas já com um “ar de reprovação”, sem ao menos buscar saber o porquê de tal afirmação: Como assim você não é feminista? Então você é contra a luta pela igualdade das mulheres em relação aos homens? Como uma mulher pode não ser feminista?

Parece natural que a reação da grande maioria das pessoas seja exatamente essa, a de estranhamento diante do que parece óbvio: “toda mulher é/deve ser feminista”. Isso acontece porque o feminismo é conhecido como o movimento que luta em favor das mulheres, de todas as mulheres; um movimento que reivindica a igualdade social e política entre os sexos. Apesar de hoje se falar de feminismo no plural (os feminismos), todos eles, com raras e ambíguas exceções, consideram a mulher — e não o proletariado — o sujeito da ação política, cujo interesse fundamental seria a luta pela igualdade de direitos em relação aos homens, uma luta pelo fim de sua opressão[1] numa sociedade “machista” e “patriarcal”. Esse estranhamento ocorre justamente por se acreditar que o movimento de luta das mulheres é homogêneo, isto é, desconsiderando que as mesmas pertencem à classes sociais distintas, desvinculando suas lutas das demais relações sociais e, por conseguinte, reduzindo-as meramente a uma relação entre homem-mulher, onde sua opressão seria causada pela “maldade inata do homem”. Nesse sentido, cria-se a ilusão de uma unidade entre as mulheres que através de interesses comuns, independentes dos de sua classe, constroem uma “fraternidade de sexo”, uma “sororidade”.

O feminismo se coloca como representante dos interesses das mulheres como um todo, mas, na verdade, representa os interesses das mulheres das classes superiores[2]. Apesar de estar ligado ao movimento das mulheres em geral, o feminismo é uma concepção ambígua (que pode se manifestar sob a forma de ideologia, doutrina ou representações) que diz representar os interesses das mulheres como grupo social em sua totalidade, mas  no fundo, representa os interesses individuais, setoriais ou das mulheres de determinadas classes sociais)[3]. Não é possível, portanto, falar em um movimento unitário das mulheres em uma sociedade dividida em classes sociais.

De fato, as mulheres sempre se rebelaram contra a situação social de opressão e subordinação a qual estão submetidas, e isso ocorreu durante um longo processo histórico e se desenvolveu sob diversas formas[4]. Contudo, o movimento de luta das mulheres tem sido por natureza um movimento fragmentado, com múltiplas manifestações, objetivos e pretensões diversas. O movimento feminino é considerado por muitos como homogêneo. No entanto, ele é heterogêneo e possui ramificações com variações em suas manifestações, como é o exemplo do feminismo[5].

Deste modo, não podemos confundir o movimento social em sua totalidade, o movimento feminino, com uma de suas ramificações, o feminismo[6]. É imprescindível fazermos a distinção entre movimento feminino e feminismo, para compreendermos a diferença entre ambos e superarmos o equívoco que considera todas as lutas, históricas e concretas das mulheres como sendo lutas feministas.

Apesar do feminismo ter mais destaque e hegemonia entre as mulheres das classes superiores, assim como nos meios acadêmicos e de comunicação e suas exigências aparentemente serem radicais, não se deve perder de vista o fato de que as feministas não podem e não querem, devido aos seus interesses de classe, lutar pela transformação radical da sociedade, sem a qual a libertação das mulheres não se efetivará. O feminismo é expressão da classe burguesa em oposição ao movimento feminino revolucionário, cuja expressão é a da classe operária. Seu objetivo implica uma emancipação particular (somente das mulheres), uma vez que afirma que o agente da libertação da opressão é o próprio indivíduo oprimido. Logo, a libertação das mulheres seria obra das próprias mulheres. A tentativa de associar a luta da mulher trabalhadora à luta feminista, não passa de uma estratégia que desvia da luta de classes, negando o proletariado como único agente histórico revolucionário.

  A luta das mulheres trabalhadoras não pode ser confundida com a ideologia feminista que busca uma “igualdade” em conformidade com a ideologia dominante, ou seja, a integração das mulheres no capitalismo “reformado”, através de conquistas parciais, tais como a “representatividade” nas instituições burguesas que, aliás, não serão alcançadas por todas as mulheres, mas criam a ilusão de que é possível encontrar “seu lugar” na sociedade. Sem dúvida alguma, mesmo que estas reformas sejam realizadas, a determinação fundamental da subordinação da mulher não será eliminada.

Então deve-se abandonar as lutas especificamente femininas em prol da luta de classes? É óbvio que a resposta é não. O que está sendo combatido é a forma como isso tem sido feito — além de isolar as lutas das mulheres, tornando-as autônomas e independentes das demais lutais sociais e acima da luta de classes, defende que a “maldade inata do homem” é a causa de sua opressão. Um equívoco que contribui muito mais para a reprodução das relações de subordinação do que para uma transformação radical dessas mesmas.

A luta, entretanto, deve ser classe contra classe e não sexo contra sexo[7]. A substituição da luta de classes pela luta entre os sexos é um verdadeiro entrave para a libertação das mulheres. É por isso que a luta das mulheres trabalhadoras é ao lado de seus companheiros de classe, os homens proletários, bem como de todos os homens e mulheres que se engajam na luta pela revolução, e não ao lado das feministas, mulheres que expressam os interesses da classe antagônica à sua. Para lutar pela emancipação das mulheres não é preciso ser feminista, muito pelo contrário, deve-se combater o feminismo e seu caráter burguês, pois somente assim, as trabalhadoras poderão construir um movimento, no qual os interesses de classe estejam acima dos interesses particulares, pois é somente através da transformação social total, que as mulheres, em particular, e a humanidade, em geral, poderá se libertar.

Combater o capitalismo, colocando em primeiro plano a luta pela autogestão social ao lado do movimento operário, segue sendo uma árdua, mas necessária tarefa das mulheres trabalhadoras.



[1] Não há como negar que na sociedade capitalista existe opressão e subordinação da mulher e que ela passou por diferentes formas e graus, mas que ainda continua existindo. O grande problema da mulher no capitalismo, bem como em toda sociedade de classe, é a subordinação. A opressão nas sociedades classistas atinge tanto mulheres quanto homens, mas a opressão da mulher segue sendo um problema maior que a dos homens, pois ela é acompanhada da subordinação, transformando-se em algo quantitativa e qualitativamente diferente. Ver Marxismo, Antropologia e Subordinação da Mulher, Nildo Viana in A Opressão das Mulheres no passado e presente – para acabar no futuro: uma perspectiva marxista, Christophe Darmangeat, 2017.

[2] Sobre classes superiores e classes inferiores ver “Classes superiores e classes inferiores”, Viana, 2019.

[3] Sobre movimento feminino e feminismo ver:

Movimento Feminino e Feminismo,  Marcus Gomes:  https://redelp.net/revistas/index.php/rms/article/view/06gomesms03;

O Feminismo como Ideologia Reformista, Florence Oppen:  http://phl.bibliotecaleontrotsky.org/arquivo/mv06neept/mv 06neept-11o.pdf;

Por qué no soy feminista: Un manifiesto feminista, Jessa Crispin.  Madrid: Lince, 2016;

Os Fundamentos Sociais da Questão Feminina, Alexandra Kollontai:  https://www.marxists.org/portugues/kollontai/1907/mes/fundamentos.htm;

Coletivo 8 de Março: http://coletivooitodemarco.blogspot.com/

Nuevo Curso: https://nuevocurso.org/diccionario/feminismo/

Barbaria: http://barbaria.net/tag/critica-al-feminismo/

[4] Concordamos com a tese de que a opressão das mulheres tem sua origem nas sociedades classistas, negando, portanto, a naturalização da opressão universal da mulher.

[5] Que, por sua vez, é dividido em várias tendências: “liberais”, “radicais”, “existencialistas”, “marxistas”, “anarquistas”, “socialdemocratas”.

[6] Os movimentos sociais produzem diversas ramificações, isto é, um movimento social pode ser considerado um caule do qual brotam diversos ramos. Essas ramificações, por sua vez, são derivações dos movimentos sociais. Apesar de muitas vezes serem confundidas com um movimento social em si, são partes dele sem ser sua totalidade ou ele mesmo. Ver: Os Movimentos Sociais, Nildo Viana, 2016.

[7] Sexo contra sexo ou classe contra classe: https://www.marxists.org/portugues/reed-evelyn/ano/mes/sexo.htm

 


sexta-feira, 10 de julho de 2020

O ESPANTALHO FASCISTA DOS ANTIFASCISTAS E A LUTA CONTRA AS ILUSÕES DEMOCRÁTICAS




O ESPANTALHO FASCISTA DOS ANTIFASCISTAS E A LUTA CONTRA AS ILUSÕES DEMOCRÁTICAS



Guilherme Bachmann


A questão do combate ao fascismo volta a ser pauta generalizada após inúmeros acontecimentos, o que vem acirrando os nervos de diversos blocos sociais[1]. A pandemia e a queda da acumulação de capital já demonstravam a tendência de uma maior animosidade entre classes, blocos sociais, partidos etc. Este cenário gera uma tensão crescente, em especial entre o proletariado e demais classes inferiores, os quais ao longo dos sucessivos governos democráticos estão assistindo a piora cada vez maior de suas condições de vida (corrosão de direitos trabalhistas, arrocho salarial, etc.). Como se não bastasse, num contexto marcado por tal situação desesperadora, nos deparamos com um governo cujos discursos são marcados não pela conciliação, mas pela continuidade e insistência (até suas últimas consequências) na polarização, agora entre governistas e não-governistas. Assim, a aparência comedida que tanto caracterizava a burocracia governamental parece não mais existir: o presidente não mascara seu desprezo pela população (sobretudo em se tratando do proletariado e outras classes inferiores) e sim o escancara. Tal postura causa espanto, revolta e exalta os ânimos de indivíduos e setores influenciados pelas correntes de opinião e representações produzidas pelo capital comunicacional e pela ação do bloco progressista. Não é absurdo imaginar que se o governo moderasse o discurso a revolta seria menor, ainda que fossem mantidas as mesmas políticas.

Agora novamente se fala em defender a democracia. Os sociais democratas elegeram esta máxima como a salvação da humanidade, o triunfo supremo da civilização. Os leninistas a defendem como um melhor caminho para realizar sua tomada do estado. Os anarquistas cambaleiam tentando defendê-la enquanto tentam ter o mínimo de concordância com seus ideais anti-estatistas. Juntam-se todos a defender a democracia contra o “fascismo”. O antifascismo é esse bolo ideológico que aglutina parcela da classe proletária e do bloco revolucionário[2] para dentro de uma ação conservadora. É orquestrado e tocado pelas mesmas figuras carimbadas ao longo da história e seus resultados já são dados. Não é de se espantar que muita gente esteja revoltada com os dizeres e ações repulsivos do governo e do presidente. Também não surpreende que essa revolta esteja sendo direcionada para a defesa da democracia, pois o discurso democrático é o discurso da garantia de direitos, do respeito, da “egalité, fraternité, liberté”[3]. Parcelas significativas de diversas classes sociais percebem este discurso como possibilidade concreta de realização: “Hoje está ruim porque fascistas comandam o país, quando líderes democráticos assumirem as coisas irão melhorar. Quando reina a democracia, reina a liberdade”.

Junto da defesa da democracia vem as frentes democráticas e “antifascistas”, organizações políticas ou um conjunto delas que teriam o propósito de representar o interesse democrático da população. Clamam aos revolucionários, bem como aos lumpemproletários, proletários e demais classes subalternas que abracem a luta democrática. Imploram que se abandone as diferenças para lutar contra um “inimigo comum”, pois a ameaça iminente de uma ditadura totalitária colocaria em risco os interesses de classes e blocos sociais distintos. Tal ditadura, argumentam, já teria começado. Para garantir nossos direitos e nossa liberdade precisaríamos defender com unhas e dentes as instituições democráticas. Esta espécie de fetichismo com a democracia é, obviamente, um construto ideológico burguês. A defesa da democracia reforça a hegemonia burguesa, já que historicamente ela é apenas uma forma que a classe dominante tem para gerir seus interesses.

Esquecem-se, às vezes de propósito e às vezes não, que foi na democracia norte americana que morreu George Floyd. Esta mesma democracia que muito antes de Trump já causou todo tipo de dominação e violência ao redor do globo e dentro de suas fronteiras. É a democracia dos países de capitalismo imperialista que, diante das necessidades e interesses do capital bélico (em especial no caso dos EUA) promovem guerras de rapina (anos 1950 Coreia; anos 1960-70 Vietnam; anos 1980-1990 Oriente Médio e América Latina; anos 1940-1990 Guerra ‘Fria’) a fim de manter sua elevada acumulação de capital. Foi na democracia (também) que o Estado brasileiro subjugou populações indígenas, ribeirinhas e quilombolas[4]. Foi na democracia que se prendeu Rafael Braga por portar uma garrafa de pinho sol e se aprovou a chamada lei “antiterrorismo”[5], que serve, basicamente, para reprimir de maneira mais eficiente os movimentos sociais que se busca criminalizar. É na democracia que se trabalha e morre sem o direito a tomar os meios de decisão de nossas vidas. Que interesse tem o proletariado em defender a democracia? Que benefício traz ao projeto revolucionário defender as instituições burguesas? Quando se prega aos quatro ventos o evangelho da “união de esquerda” e da “frente antifascista” esconde-se o fato de que, embora alguns interesses imediatos pareçam coincidir (não é do interesse do proletariado nem dos revolucionários um regime fascista), os objetivos concretos de tais frentes não apenas divergem daqueles dos revolucionários mas são antagônicos a eles. Em última instância aliar-se a estas organizações é aliar-se ao projeto burguês de sociedade, pouco importa se o discurso ideológico que adotam é mais moderado e revestido de liberalismo. Pouco importa também se os membros que compõe as frentes se auto intitulam “comunistas” ou “anarquistas”. É preciso ter em mente que quando se fala em fortalecer as “instituições democráticas” se está falando em fortalecer as instituições burguesas. Quando o objetivo é defender a democracia, se está a defender a sociedade capitalista. É essa mesma sociedade que irá combater com veemência qualquer tentativa revolucionária por parte do proletariado. Da mesma forma as frentes e uniões de esquerda combatem de toda maneira qualquer postura mais radicalizada de seus membros.

Precisamos romper com a lógica de olhar apenas o horizonte imediato, no qual tudo que se enxerga são aqueles que possuem, no momento, as ferramentas de dominação. Não há espaço para, apenas por causa das emoções que surgem diante dos absurdos do governo, abrir mão dos nossos interesses históricos, de um horizonte que aponte para outra sociedade, um horizonte revolucionário. É preciso mais do que nunca manter a crítica o mais radical possível, sem desviar para concessões reformistas. Realizar a defesa da democracia burguesa é abrir mão desse horizonte. Incentivar o proletariado e parte do bloco revolucionário a aderir a esta causa é trabalhar contra a superação desta sociedade, uma vez que se está trabalhando por sua manutenção. Não se trata de pensar que a classe proletária irá aderir ao projeto revolucionário em bloco de maneira imediata. Sabe-se dos limites do proletariado “em-si” que permanece subjugado pela ideologia burguesa e burocrática de nossos tempos. Também não se trata de desconsiderar as manifestações que surgem no Brasil como meras insurgências partidárias e reformistas. No momento o que ocorrem são revoltas espontâneas e organizadas sobre anseios comuns. Parte da população está revoltada, ainda que não tenha bem em mente contra o quê. Reconhecer os limites da consciência imediata do proletariado não significa negar o potencial concreto de sua elevação em classe autodeterminada (para-si) que será sempre uma possibilidade real enquanto existir capitalismo (consequentemente enquanto houver burguesia e proletariado). Cabe àqueles que defendem um projeto revolucionário justamente radicalizar e tencionar determinados setores, auxiliar na medida do possível o desenvolvimento deste processo. Isso inclui, também, abordar seu amigo e seu colega “antifascista” e dizer com todas as letras que ele está defendendo uma pauta conservadora. Não abrir mão da crítica e deixar claro quais os interesses por trás da ideologia do antifascismo, que é em última instância a manutenção da sociedade burguesa.

A luta contra o capital já é uma luta “antifascista”, na medida em que o fascismo é um fenômeno do capitalismo, mas ela também é uma luta “antidemocrática”. Há muito já dizia um velho barbudo alemão: “o poder executivo do Estado moderno não passa de um comitê para gerenciar os assuntos comuns de toda a burguesia”. Nosso interesse não é manter este comitê nem lutar pelos assuntos comuns da burguesia. Nosso interesse é de superar por completo essa sociedade, de instaurar a autogestão social.



[1] Os blocos sociais são determinadas formas mais organizadas e conscientes de parcelas de classes sociais distintas que possuem programas e interesses comuns. Gravitam em torno do conflito das duas classes fundamentais (proletariado e burguesia) mas não devem ser confundidos com as mesmas.

[2] O bloco revolucionário é formado pelos indivíduos mais avançados do proletariado e membros de outras classes sociais (geralmente as classes desprivilegiadas) que aderem ao projeto revolucionário do proletariado.

[3] “Igualdade, fraternidade e liberdade”. Slogan utilizado durante a revolução francesa cujo conteúdo se dá na defesa de supostos direitos universais que viriam a ser garantidos pela república, em contraposição à “tirania” dos monarcas. Trata-se, historicamente, de um discurso burguês.

[4] Destacam-se, entre tantos acontecimentos, a construção da barragem de Belo Monte e as remoções forçadas para a realização dos megaeventos esportivos (copa do mundo e olimpíadas).

[5] Tanto a prisão de Rafael Braga quanto a aprovação da lei antiterrorismo curiosamente ocorreram durante o governo petista, assim como a construção de Belo Monte e as remoções forçadas mencionadas anteriormente. Hoje a mesma esquerda que um dia participou dessa violência de estado conclama o combate ao fascismo.


terça-feira, 7 de julho de 2020

REFLEXÕES AUTOGESTIONÁRIAS 11: A IMPORTÂNCIA DA AUTOFORMAÇÃO PARA A CONVICÇÃO REVOLUCIONÁRIA





A importância da autoformação para a convicção revolucionária

Gabriel Teles

A Autogestão Social é o maior e mais belo projeto político empreendido na história da Humanidade. Essa utopia concreta, que aponta para a emancipação humana, nos leva a necessidade de transformar radicalmente a totalidade das relações sociais derivadas da atual sociedade capitalista na qual vivemos, fundada na divisão entre classes sociais. Trata-se de uma nova sociedade radicalmente distinta, com um outro modo de produção, outras formas sociais e uma outra maneira de se viver e expressar nossas verdadeiras potencialidades enquanto seres humanos.
Aquele que almeja essa nova sociedade, a aurora da humanidade, busca contribuir com o processo revolucionário que nos leve até ela. O denominamos de revolucionário. O revolucionário é aquele que, como bem disse Carlos Marques em “O que é ser revolucionário?[1], luta e busca concretizar o projeto autogestionário, acima de seus interesses individuais. Assim, o revolucionário vincula o seu projeto de vida ao projeto revolucionário; se liga, numa atitude de coragem e convicção, aos objetivos históricos da classe social que possui os interesses e potencialidade de efetivar a revolução social, o proletariado. Tal atitude não é fácil: ser revolucionário, numa sociedade que respira o ar pesado das ideias dominantes, significa remar contra a maré num frágil barco sem hastilhas. Em momentos não-revolucionários, ser revolucionário é lutar contra quase tudo e todos, inclusive consigo mesmo, com nossos interesses individuais que eventualmente podem se chocar com os interesses históricos que buscamos expressar. A convicção, então, é fundamental; e um revolucionário só pode sê-lo se tiver convicção daquilo que acredita.
A convicção revolucionária é radicalmente distinta de uma opinião[2]. Uma mera opinião  política é tão frágil que com uma simples oscilação do indivíduo ou do meio que o cerca (condições políticas, arrefecimento de uma luta que o indivíduo faz parte, etc.), pode ser desfeita e cessar. Em muitos casos, a anedota sobre os jovens é correta: incendiário na juventude e bombeiro em idade adulta. Quem não conhece aquele conhecido ou amigo que, quando jovem ou dentro de um processo de intensificação das lutas sociais, torna-se um ardente militante, mas tão logo passa a sua fase de ressocialização (determinação fundamental da juventude) ou as lutas esmorecem, ele volta a ter atitudes conservadoras, a taxar de radicais aqueles que ainda continuam na luta ou aprofundam a sua perspectiva revolucionária? Se o indivíduo em questão só possui uma mera opinião frágil sobre a necessidade de mudar o mundo, será necessária pouco vento para que ele debande para uma visão mais moderada ou até mesmo conservadora. Esse indivíduo, no máximo, vai à reboque dos sabores e dissabores da dinâmica das lutas de classe, podendo conjunturalmente se radicalizar ou tornar-se mais conservador de acordo os ventos do cotidiano capitalista. As opiniões, enfim, estão na superfície da mentalidade do indivíduo, não descortinam os elementos e determinações mais profundos da mentalidade.
Esse exemplo, definitivamente, não aponta para um caráter revolucionário necessário a uma pessoa que busca a transformação social. Isso, exige, como dissemos, convicção. A convicção pode ser fundamentada em diversos processos sociais: sentimentos, valores, interesses, razão, etc. Diferentemente da opinião, a convicção está no âmago do indivíduo, elas são as “opiniões entranhadas” nos dizeres de Fromm e Maccoby. Dado ao seu caráter sólido e estruturado, é um dos guias elementares de um indivíduo.
Um revolucionário, que sempre votou nulo ou absteve-se de votar por acreditar que a democracia burguesa faz parte do conjunto das relações sociais que contribuem na reprodução do capitalismo, não irá mudar a sua militância porque na eleição X ou Y está um candidato mais reacionário e outro mais democrático (a velha questão da escolha do mal menor). Independente de quem se candidatar, o revolucionário tem consciência que esse processo não irá contribuir para acelerar o processo revolucionário; não há concessões e ilusões com aquilo que só irá retardar ainda mais a necessária autonomização do proletariado e das demais classes inferiores. O que é o "mal menor", em luta política, senão o prolongamento de um período até que o "mal maior" vença? A aposta, consciente e militante, na transformação radical da sociedade é muito mais realista do que realismo presentista.
Tal aposta exige a mais estruturada e mais importante das convicções para quem almeja uma sociedade radicalmente distinta: a convicção racional. As convicções fundadas racionalmente estão ligadas aos interesses da verdade e correspondem a realidade concreta. Não se alinha ao presentismo, não se ilude com o imediatismo e recusa o conjunturalismo. Isso, exige, evidentemente, formação revolucionária, ou melhor dizendo, autoformação revolucionária.
Sem autoformação não há convicção revolucionária. É impossível intervir na realidade sem antes compreendê-la e analisá-la de maneira que fiquem claros os interesses conflitivos da sociedade. A convicção revolucionária, então, parte, necessariamente, da perspectiva do proletariado, um dos elementos fundamentais do materialismo histórico-dialético, a principal arma intelectual fornecida pelo marxismo (expressão teórica do movimento revolucionário do proletariado), para analisarmos a sociedade. A autoformação aponta para o desenvolvimento da consciência revolucionária do indivíduo, que contribui não só consigo mas com a sua intervenção nas lutas, seja de maneira organizada a partir de um coletivo ou individualmente. Essa autoformação se dá a partir da leitura, no interior das experiências práticas, lutas, discussões, etc. A sua manifestação mais desenvolvida é a teoria, que é expressão da realidade num universo conceitual que evidencia cada elemento constitutivo do real numa totalidade concreta. Quanto mais ela for desenvolvida, mais o movimento revolucionário como um todo tende a avançar e conseguir concretizar o seu processo.
Uma luta cultural efetiva só pode ser plenamente revolucionária se os indivíduos que a produzem estão armados pela crítica revolucionária e esta só pode ser adquirida a partir da autoformação, que contribui para conhecer a realidade concreta, suas tendências,  potencialidades, e os perigos das falsas promessas e ilusões dos que dizem estarem ao nosso lado (organizações burocráticas das mais diversas [partidos políticos, sindicatos, etc.], ideologias progressistas, etc.).
Assim, quanto mais temos elementos sobre a nossa realidade, mais a nossa prática política estará coerente e contribuirá com os fins revolucionários que nos propomos. Como bem disse Anton Pannekoek: a revolução não será o efeito de uma força física bruta, será sim uma vitória da consciência. Sem convicção revolucionária, não há práxis revolucionária. Somente a percepção e a convicção da necessidade de combater a sociedade desumanizada nos levará a humanização da sociedade.




[2] Sobre a distinção entre opinião e convicção, veja Cf. “Caráter Social de uma Aldeia” de Erich Fromm e Michael Maccoby e “As Representações Cotidianas e as Correntes de Opinião” de Nildo Viana (Cf. https://redelp.net/revistas/index.php/rel/article/view/293/227)

quinta-feira, 11 de junho de 2020

REFLEXÕES AUTOGESTIONÁRIAS 10: A QUEM SERVE O ANTIFASCISMO?



A QUEM SERVE O ANTIFASCISMO?
Jaciara Veiga
Mateus Alves


Eis que ressurge o monstro chamado fascismo e, consequentemente, seu produto, aquele que busca combatê-lo: o antifascismo.
Estamos sob ameaça de uma ditadura e não podemos subestimá-la, portanto, ser antifascista é urgente — clamam os defensores da democracia em “perigo”. O antifascismo volta à moda. Até mesmo aqueles que não sabem realmente do que se trata, se denominam antifascista. Muitas pessoas estão sendo rotuladas de fascistas: em especial, por aqueles que estão vendo fascismo em todo e qualquer fenômeno. O termo fascista foi despolitizado e tornou-se um chavão que frequentemente tem sido utilizado como arma na disputa política institucional, num jogo cujo objetivo nada mais é que impedir toda e qualquer forma de autonomização do proletariado, mantendo-o na dinâmica da reprodução ampliada do capital.
Nesse jogo, vale tudo. Utiliza-se da manipulação de sentimentos das classes inferiores, onde o medo, o ódio, a defesa da nação reforçam a adesão à ideia do monstro fascismo. Deste modo, somos encorajados a combater o inimigo fascista na defesa da nossa tão “igualitária” democracia. De fato, a ignorância e o medo podem nos levar à cegueira e, por conseguinte, à adesão daquilo que nem se quer sabemos definir.  Sendo assim, é até possível ignorar que o interesse da classe dominante é a manutenção de sua dominação sob qualquer forma, seja em um regime político democrático ou ditatorial, bem como o que determina se a burguesia optará por uma das duas formas é a dinâmica das lutas de classes e a perda de sua hegemonia no conjunto da sociedade. 
Para combater determinado fenômeno é necessário, antes de tudo, saber do que se trata o mesmo. Logo, a pergunta a ser feita é se sabemos o que estamos combatendo. Afinal de contas, o que é fascismo?
O fascismo [1] é um movimento político, ou seja, uma expressão política de classe (ou conjunto de classes, alianças de classes etc.); é caracterizado por ser um nacionalismo expansionista, integralista e totalitário; busca um estado forte, orgânico, sustentado por uma base policlassista. Ele não é um fenômeno universal, que emerge em qualquer contexto, sob qualquer forma; é uma forma histórica do capitalismo, não é um movimento destituído de historicidade e produzido arbitrariamente.
O fascismo é um produto do capitalismo. Ele surge em momentos de crise de um regime de acumulação [2], nos países imperialistas ou potencialmente imperialistas, num contexto de recuo e derrotas do movimento operário. O fascismo é, portanto, uma forma política específica e determinada utilizada pela classe dominante em alguns países de capitalismo imperialista. Seu caráter de classe é burguês, assentado numa burocracia forte (partidária, mas principalmente num estado forte, integral, totalitário), que satisfaça suas necessidades.
O fascismo (enquanto movimento político e forma estatal) desapareceu. Contudo, o uso banalizado do termo no capitalismo contemporâneo é marcado pela suposta reemergência deste fenômeno. Com certeza, tal utilização não tem relação alguma com o que se passou no contexto da luta de classes na Itália durante as décadas de 1920 e 1930. Para ser fascismo necessitaria possuir seus elementos essenciais supracitados. Sendo assim, podemos dizer que o atual governo brasileiro é fascista?
De acordo com determinadas representações cotidianas [3] e algumas representações ilusórias [4] acerca do governo Bolsonaro — que se baseiam no comportamento de um indivíduo, no caso, o próprio Bolsonaro — estamos sim sob um governo fascista. Esse discurso tem sua origem nas eleições de 2018 onde, para surpresa e descontentamento de muitos, se deu sua vitória. Todavia, esse discurso não foi totalmente superado e voltou à tona. Apesar de o Brasil ser um país de capitalismo subordinado, sem nenhuma base imperialista, o presidente é considerado fascista, e logo, o seu governo também.
Dizer que o atual governo é fascista demonstra, de um lado, a ausência de criticidade por parte de indivíduos que desconhecem esse fenômeno e apenas reproduzem tal discurso e, por outro, o oportunismo daqueles que buscam reproduzir essa sociedade, seja lá qual for a forma, se pela via democrática ou pela via ditatorial. O governo Bolsonaro [5] é um governo neoliberal, subordinado aos países imperialistas. Por mais que o presidente, alguns setores do seu governo e parcelas da sociedade demonstrem desejar romper com o “estado democrático”, isso não é suficiente para afirmar que o mesmo seja fascista, faltam diversos elementos para que se configure um governo realmente fascista. Logo, um movimento que se denomina antifascista combate, na verdade, uma caricatura mal feita do fascismo.
O antifascismo não está livre da determinação dos interesses de classe, pois, nas sociedades classistas, os interesses e a consciência dos seres humanos são determinados pela sua posição (e em como enxergam sua posição) na divisão social do trabalho. Na sociedade contemporânea existem diversas classes sociais que apresentam interesses fundamentais distintos e até antagônicos que se manifestam por meio da luta de classes. Então, torna-se essencial refletir quais interesses são expressos pelo antifascismo e como a luta de classes se manifesta concretamente em seu ressurgimento no atual cenário político brasileiro.
Como já mencionado anteriormente, o governo Bolsonaro não é fascista, mas apesar disso, os antifascistas combatem o atual governo qualificando-o como tal. Esta caracterização ofusca a consciência dos indivíduos acerca da realidade, pois apresenta a mera mudança de governo como solução para a insatisfação de parte das classes inferiores em relação às políticas estatais. E, além disso, esconde os interesses do estado pela reprodução do capitalismo. As ações do governo Bolsonaro são determinadas, em última instância, pelos interesses da burguesia em manter o próprio capitalismo. Qualquer outro governo, da mesma forma que o atual, deve efetivar políticas estatais que correspondam às necessidades da acumulação de capital. Portanto, o limite intransponível do antifascismo é a mera mudança de um governo conservantista para um governo progressista, isto é, um governo que atende algumas exigências mínimas das classes inferiores com o único objetivo de estabilizar a acumulação de capital.
Não é surpresa que parte do bloco progressista (partidos social-democratas, partidos leninistas, alguns intelectuais, etc.) [6] se contorça de prazer quando conseguem apoio de parte da sociedade em torno do antifascismo, uma vez que ganham mais força política para conseguir concretizar seu principal interesse: ascender ao poder estatal. Também não é surpresa que as manifestações, textos, manifestos antifascistas sejam defendidos por alguns partidos, alguns intelectuais, e algumas organizações mobilizadoras dos movimentos sociais de tendência progressista.
No entanto, o bloco progressista necessita, em decorrência da própria fragilidade, do apoio de outros setores da sociedade para conseguir satisfazer seu próprio interesse e, ao mesmo tempo, não pode revelar toda a verdade para as classes inferiores, correndo o risco delas se rebelarem. Assim, nada mais oportuno que, em um momento de fragilidade do governo Bolsonaro, ressurja o antifascismo que consegue enfraquecer o atual governo, e simultaneamente legitimar e reforçar o bloco progressista e suas principais ideologias como o reformismo, para enfim, ter apoio e condições de conquistar o poder estatal.
Então, se o antifascismo não é capaz de expressar os interesses fundamentais do proletariado revolucionário e, na verdade, ressurge como expressão do oportunismo do bloco progressista, diante da conjuntura atual, para enfraquecer tão somente o governo Bolsonaro com o objetivo de trocá-lo por outro, resta-nos saber a posição dos revolucionários sobre esta questão.
Os revolucionários não se interessam pela conquista do poder estatal ou mesmo em quem o assumiu ou assumirá. Não nos interessa também quais são as políticas estatais que se efetivarão para atender as necessidades da acumulação de capital, mantendo os trabalhadores ainda sob o julgo da exploração e dominação. O que nos interessa é a abolição total do estado simultaneamente com a abolição do modo de produção capitalista e de todas as outras formas sociais determinadas por ele, isto é, queremos a abolição total das relações sociais capitalistas em prol de uma sociedade onde as relações sociais atendam às necessidades humanas, bem como estimulem as suas potencialidades. Em outras palavras, este é o projeto autogestionário que visa uma sociedade autogerida.
A adesão ao antifascismo significaria trilhar um caminho que nos levaria em direções contrárias ao nosso destino. Significaria realizar uma série de concessões contrarrevolucionárias, que não representam um passo rumo à abolição do capitalismo e da concretização do projeto autogestionário, mas sim o oposto, significaria reforçar e legitimar ideologias como o reformismo, progressismo, estatismo etc.
Para concretizar o projeto autogestionário são necessários meios adequados, isto é, deve existir uma unidade entre meios e fins. Então, para isso, insistimos que o fundamental é ainda a velha máxima do Manifesto Comunista: a associação dos trabalhadores visando sua autoemancipação. Dessa maneira, é necessário criticar todas as ideologias, concepções etc. que ofuscam a realidade e impedem uma consciência revolucionária. A adesão ao antifascismo é um obstáculo que impede o proletariado revolucionário de trilhar seu caminho rumo a uma sociedade autogerida.

Notas:
[2] O regime de acumulação é a forma que o capitalismo assume durante o seu desenvolvimento, mantendo sua essência. É marcado por determinada forma de organização do trabalho, determinada forma estatal e determinada forma de exploração internacional, manifestando, portanto, um determinado estágio da luta de classes. Sobre regimes de acumulação: O capitalismo na era da acumulação integral, Nildo Viana; O regime de acumulação integral: retratos do capitalismo contemporâneo, Felipe Mateus (org.).
[3] As representações cotidianas são formas de representar o mundo em nossa cotidianidade, reproduzindo suas características (simplicidade, regularidade e naturalidade). Estas representações podem ser ilusórias, mas também verdadeiras.  Sobre representações cotidianas, ver: Senso comum, representações sociais e representações cotidianas, de Nildo Viana.
[4] A titulo de exemplo, temos o discurso de alguns representantes do bloco progressista como Fernando Haddad: “Quando superarmos a ameaça fascista e garantirmos a preservação do Estado de Direito, se dará a verdadeira disputa democrática, entre diferentes times e sonhos. Espero que sem trapaça desta vez" (https://www.brasil247.com/poder/haddad-defende-manifestos-e-frentes-popular-e-antifascista). E também de Boulos: “Não basta assinarmos manifestos unitários, que julgo importantes, aliás, subscrevi todos. Mas a hegemonia fascista, mesmo minoritária, se afirma nas ruas. Foi assim com os Camisas Negras de Mussolini e com as milícias hitleristas. Poderia ter sido assim com os integralistas de Plinio Salgado no Brasil se os comunistas não os tivessem enxotado das ruas. Se normalizamos gente defendendo AI-5 e agredindo opositores, jornalistas e enfermeiras em praça pública, daqui a pouco não teremos condições de dar as caras” (https://www.brasil247.com/brasil/boulos-mtst-e-povo-sem-medo-estarao-nas-ruas-no-domingo). Pode-se observar tanto a manipulação de sentimentos por meio da “ameaça fascista” quanto a tentativa de canalizar as lutas do proletariado para as disputas da política institucional (“disputa democrática”).


domingo, 7 de junho de 2020

RACISMO E CAPITALISMO E AS LUTAS PARA SUPERÁ-LOS




Matheus Almeida
"Não existe capitalismo sem racismo", disse certa vez Malcolm X.
Se o que Malcolm X colocou está correto, então toda luta contra o racismo que não lute também contra o capitalismo é uma luta pela metade. Afinal, enquanto houver capitalismo haverá racismo.
Do mesmo modo, se esta afirmação é correta, então toda luta contra o capitalismo que não lute também contra o racismo é uma luta pela metade. Afinal, poupar um elemento tão caro ao capitalismo, como é o racismo, implicaria não combatê-lo por inteiro. Logo, enquanto houver racismo, o capitalismo não estará plenamente superado.
Portanto, a luta antirracista autêntica (e, logo, radical, porque vai à raiz do racismo) é aquela que combate também o capitalismo, e a luta anticapitalista autêntica (ou seja, radical, que vai à raiz do capitalismo) é aquela que combate também o racismo.
Se isto está correto, vemos que tarefas estão colocadas: nada menos do que uma revolução social generalizada, que destrua todas as relações sociais capitalistas e racistas, construindo em seu lugar novas relações sociais produtoras de uma humanidade emancipada.
Concordando com este objetivo, o meio para alcançá-lo haveria de ser: Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos, há muito o que revolucionar. A luta contra o racismo não é tarefa somente dos negros, é dever de todos aqueles que pretendem transformar radicalmente este mundo; Negros revolucionários de todo o mundo, unamo-nos. A luta contra o capitalismo é necessária para superarmos o racismo, e nessa luta não podemos selecionar (ou querer melhor "representar") a cor das classes inimigas.
Soma-se a estas nossas tarefas a necessidade de combater toda forma de ilusão e imposição de limites a esta luta, que são precisamente tarefas das classes inimigas. Neste sentido, ilusão e limitação são armadilhas que cumprem o mesmo papel que a repressão: atuam no interesse da manutenção da sociedade vigente.
Assim, se o capitalismo no atual regime de acumulação integral [1] reserva às classes inferiores as formas mais degradantes e miseráveis de vida, e se a maioria da população negra foi jogada no interior destas classes, o que em países como Brasil e EUA é uma realidade advinda do escravismo e continuada no capitalismo, não resta dúvida de que temos de combater velhas e novas formas de dominação e opressão.
Diante disso, o enfrentamento deve se dar tanto às antigas e contínuas práticas brutais de assassinatos, torturas e humilhações a que os negros são submetidos, como também a novas formas de ilusão e limitação, como o microrreformismo [2], as ideologias de representatividade, de empoderamento e qualquer outra que vise substituir a luta revolucionária por disputa por migalhas, êxitos individuais e melhor integração na sociedade capitalista. Estes são os imensos desafios para o avanço da luta antirracista e anticapitalista.
Um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres, numa sociedade após a abolição do capitalismo e do racismo, isto é, na autogestão social, é o que a vitória dessa luta nos reserva à frente.

[1] Sobre o regime de acumulação integral:
[2] Sobre o microrreformismo e a integração dos movimentos sociais no capitalismo contemporâneo: 



quinta-feira, 4 de junho de 2020

REFLEXÕES AUTOGESTIONÁRIAS 09: CAPITALISMO, INTERESSES DE CLASSE E POLÍTICA INSTITUCIONAL

Miopia Legislativa | GaúchaZH


CAPITALISMO, INTERESSES DE CLASSE E POLÍTICA INSTITUCIONAL

Rubens Vinícius da Silva

O caso brasileiro recente nos remete para um fenômeno que é recorrente na história das lutas de classes: as classes que detém ou auxiliam na manutenção do poder político buscam apresentar os seus interesses de classe (que são transitórios, históricos e se originam da posição ocupada na divisão social do trabalho constituída pelo modo de produção dominante) como sendo universais e válidos para todas as classes sociais. Com isso, conseguem camuflar e ocultar que seus interesses vão ao encontro da manutenção dessa sociedade.

Não nos iludamos: no contexto atual, marcado por uma queda na acumulação capitalista no país e reforçado por um cenário de pandemia, que agrava ainda mais a queda na acumulação de capital no resto do mundo, qualquer pretensa "ruptura" visa "mudar para conservar". Ficam intactos os interesses da classe dominante, isso às custas do aumento da exploração do proletariado e da precarização das demais classes inferiores: outra consequência mais do que grave é o aumento do lumpemproletariado (mendigos, desempregados, sem-teto, "autônomos", etc.), que expõe em todos os rincões do mundo capitalista a sua face mais cruel e desumana.

Noutras palavras: a intensificação das tensões entre setores da burocracia que expressam distintas posições políticas, vinculadas a setores da burguesia ("judiciário" versus "executivo", em linguagem ideológica) é na verdade uma disputa para quem vai melhor servir aos interesses da classe dominante: tem como objetivo implícito desviar o proletariado e demais classes inferiores da manutenção das relações de exploração e dominação de classe, cujo aumento crescente avança independentemente da sucessiva troca de governos.

Mais do que nunca, é necessário romper com o presentismo[1] e o personalismo[2] (quer dizer, a ausência da percepção da historicidade das sociedades e da especificidade de suas relações sociais, em conjunto com o isolamento fantástico de determinados indivíduos ou personalidades da totalidade das relações sociais e, na sociedade moderna, das relações de classe que as caracterizam), divulgando um projeto e consciência futurista da realidade: somente a luta por outra sociedade é algo são, realista e verdadeiro nesta sociedade doente, hipócrita e mentirosa em que vivemos. Ficar nos limites da conjuntura ou querer nela permanecer é escolher o “mal menor”, que só reforça ilusões e reproduz a miséria reinante.

É necessário não perder de vista que somente quando o proletariado, demais classes inferiores e setores que contestam o capitalismo se auto-organizarem de maneira autônoma e autodeterminada (ou seja, numa perspectiva autogestionária e revolucionária) seus interesses serão expressos. Tal processo deve avançar e se intensificar para além dos limites impostos pelo capitalismo: do contrário será tragado pelos interesses mesquinhos e particularistas da classe dominante (burguesia).

O resto é oportunismo ou miopia política: desde as lutas, greves e ocupações mais recentes nos últimos 10 anos é sabido que tanto o bloco dominante quanto o bloco progressista buscam, num primeiro momento, reprimir e negar o movimento espontâneo do proletariado e demais setores contestadores. Num segundo momento, alguns setores destes blocos sociais tentam de todas as formas canalizar tal movimento e se apropriar do mesmo segundo seus interesses de classe, com o objetivo de amortecer os conflitos e lutas sociais.

O capital sabe usar muito bem do par antinômico democracia e ditadura para com isso continuar preservando intactos seus interesses de classe e as relações de exploração e dominação. A verdadeira ditadura é a ditadura da burguesia, que surge nos locais de produção e se alastra para o conjunto da vida social. Não nos esqueçamos que foi o "governo democrático-popular" (eufemismo para os anos de governo neoliberal neopopulista do PT[3]) que reavivou as leis da ditadura militar para perseguir, criminalizar e melhor reprimir seus antagonistas e opositores.

Ao proletariado, classes inferiores e outros setores que contestam a sociedade capitalista o único caminho realista é generalizar e ampliar a ruptura com toda e qualquer organização burocrática, pois estas reproduzem a divisão social do trabalho e, portanto, relações de classes no seu interior.

A história do movimento operário indica o horizonte a ser retomado: a criação de novas formas de auto-organização (em conjunto com um processo de intensa luta cultural visando ao aumento da autoeducação e autoformação revolucionárias) que ao mesmo tempo ponham em xeque o capitalismo e sejam o embrião da sociedade futura, aliada à crítica implacável de todos os seus inimigos de classe (seja à direita ou à esquerda).

A velha máxima da luta proletária, em tempos de pandemia gerada pelo modo de produção capitalista, é cada vez mais atual: autogestão social ou barbárie!   


[3] No que tange aos anos de governo do PT, seu significado para a reprodução do capitalismo e posterior amortecimento da luta revolucionária: https://movaut.blogspot.com/2018/04/reflexoes-autogestionarias-04-lula-e.html.  

segunda-feira, 25 de maio de 2020

REFLEXÕES AUTOGESTIONÁRIAS 08: O GOVERNO BOLSONARO, A PANDEMIA E O DUPLIPENSAR




O GOVERNO BOLSONARO, A PANDEMIA E O DUPLIPENSAR

Lucas Maia

O clássico 1984 de George Orwell publicado em 1949 apresenta um futuro atordoante. Uma sociedade autoritária, burocrática, na qual nenhum tipo de liberdade é possível, principalmente a de pensamento. Pensar além do que é permitido pelo poder instituído é o maior dos crimes, a “Crimideia”. Esta sociedade autoritária, cujo poder aparentemente eterno e imbatível do Partido único e seu Grande Irmão é possível devido a três elementos: “novilíngua”, “controle do passado” e “duplipensar”.

Vou me ater somente ao último estratagema do poder para refletir sobre a postura do governo Bolsonaro diante do problema da pandemia relacionada ao coronavírus. Antes de continuar, há que se entender o que é o duplipensar. Orwell assim o define:

Saber e não saber, ter consciência de completa veracidade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, defender simultaneamente duas opiniões opostas, sabendo-as contraditórias e ainda assim acreditando em ambas; usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade em nome da moralidade (...). Até para compreender a palavra duplipensar era necessário usar o duplipensar (ORWELL, George. 1984).

É possível uma tal forma de pensar? Este raciocínio de Orwell só é possível na sociedade por ele imaginada, com aquele futuro sombrio e autoritário? Ou será que o duplipensar está tão entranhado em nosso cotidiano, que nós o usamos ou o vemos sendo usado a todo momento e nem o percebemos?

Já estamos em 2020, 36 anos depois de 1984. Talvez a distopia já se tenha concretizado e estamos tão enterrados nela que nem ao menos conseguimos perceber que a novilíngua é reinventada a todo o momento. Veja o que fez o capitalismo contemporâneo, com seu arsenal de novas palavras: “empreendedorismo”, “gestão de carreira”, “inteligência emocional”... E o controle do passado? Já acontece? Os revisionismos históricos estão aí para provar: holocausto não existiu, nazismo era de esquerda, ditadura militar no Brasil não existiu ou não foi assim tão violenta etc.

E o duplipensar? É real? É possível afirmar coisas contraditórias, uma negando a outra e mesmo assim acreditar que ambas são verdadeiras? É possível mentir, acreditando realmente dizer a verdade? É possível ser ilógico usando a lógica? Imoral defendendo a moralidade?

Parece-me que a atitude do governo federal, em sua disputa política com os governos estaduais, setores do capital comunicacional (Rede Globo, Jornal Folha de São Paulo etc.), o bloco progressista em peso (partidos de esquerda, sindicatos, alguns setores da intelectualidade etc.) utiliza exatamente o duplipensar. A distopia de Orwell não se realizou num Estado ditatorial, com partido único, sob a égide e mão de ferro de um suposto Big Brother (que não é o da Rede Globo). Ocorre numa tal democracia neoliberal, pluripartidária, com liberdades (de imprensa, de reunião, de pensamento etc.). Claro, são todas liberdades formais, que não existem concretamente para todos. Talvez esta seja a única diferença entre a sociedade fantástica imaginada por Orwell e o absurdo da realidade em que vivemos.

E como o governo mente, acreditando dizer a verdade? Como ele diz coisas opostas acreditando serem ambas verdadeiras?

Uma amostra grátis permite compreender o que estou dizendo. Bolsonaro e a equipe econômica do governo afirmam que é preciso cuidar da questão (“cuestão”) do emprego e da economia da mesma forma que da “cuestão” da saúde. No atual contexto (em que não existe vacina nem tratamento), do modo como o governo entende o problema, constitui de fato uma oposição, embora ele diga o contrário. Fazer como defende o governo (isolamento vertical, ou seja, só grupos de risco) e relaxar as restrições para os demais grupos é falso, pois a contaminação se estenderia aos grupos de risco e  como vem sendo demonstrado, pessoas fora do grupo de risco também vem apresentando problemas graves por causa da Covid-19. No final das contas, trata-se de uma imposição do capital para a retomada da acumulação, e isto, no atual contexto, dar-se-á em detrimento da saúde do trabalhador, que será exposto ao vírus para manter seu emprego, ou seja, garantir a reprodução do capital. O governo dizer, portanto, que vai cuidar da “cuestão” da saúde e da economia e emprego simultaneamente é uma mentira, apesar de seu tom verdadeiro e grave. Talvez ele acredite nisto realmente, ou seja, seu pensamento já emprega o duplipensar. Pode ser que seja só um mentiroso mesmo, o que é mais provável.

Esta não é, contudo, uma característica específica do governo Bolsonaro, pois o duplipensar, sob formas discursivas diferentes, com vínculos partidários e interesses determinados, sempre existiu no capitalismo e tem que existir enquanto forem as relações capitalistas dominantes. Isto se deve ao fato de a verdade não poder ser dita em sua totalidade, pois revelaria os interesses da classe capitalista, que não são idênticos aos interesses das demais classes. Assim, necessariamente, este duplo tem que aparecer. Ou seja, dizer-se uma parte da verdade, escondendo-se a outra. Convencer a todos que esta parte da verdade é toda a verdade é o próprio “duplipensar”. A arte de mentir acreditando dizer a verdade.

No que refere ao caso brasileiro, o mais problemático é que parcelas significativas da população, algumas devido suas condições materiais de existência (almoçar e jantar, pagar as contas no final do mês etc.), outras devido posicionamento político acrítico pró-Bolsonaro, e ainda outras por interesses econômicos mais ou menos mesquinhos, realmente empregam o duplipensar, sem mesmo o saber. Aceitam as duas proposições contraditórias e acham que ambas são verdadeiras.

Eis o drama de nossos dias. Contudo, para as classes inferiores em geral, e para o proletariado em particular, a lógica do duplipensar não interessa. Interessa-os outra lógica, outro discurso, outra prática, outra vida, outra alternativa. Cuidar da saúde ou morrer de fome? Cuidar do emprego ou morrer de Covid-19? Isto não é escolha, é chantagem. São todas oposições que reproduzem a sociedade burguesa. Interessa aos trabalhadores abolir estas oposições. Interessa-os, abolir a sociedade existente. Interessa-os, portanto, a luta contra a ordem estabelecida e a constituição de outras relações sociais, estas sim, humanizadas!!!

terça-feira, 5 de maio de 2020

Minicurso "Luta de Classes e Projeto Autogestionário", com Nildo Viana



No dia 23 de Maio o Movaut promoverá o Minicurso "Luta de Classes e Projeto Autogestionário", com Nildo Viana. O minicurso é promovido pelo Movaut - Movimento Autogestionário, com apoio e organização de militantes de Porto Alegre/RS.

O curso será das 14:00 até às 18:00 via Conferência Web RNP*.

O link para acesso será postado aqui, no dia do curso, às 13:30.

Para participar via RNP:
https://conferenciaweb.rnp.br/webconf/nildo

Para assistir (sem participação) via youtube:
https://youtu.be/0ZNo93-mglE

Aqui um tutorial para quem for acessar o RNP pela primeira vez.
É muito simples e pode ser feito usando conta do Facebook ou Google.
Basta clicar no link acima e escolher uma dessas opções. Para quem já participa e tem conta institucional, pode acessar por sua conta

TUTORIAL:




sábado, 25 de janeiro de 2020

30 anos de lutas autogestionárias



O MOVAUT completou, em 2019, 30 anos de lutas autogestionárias. O Movaut surgiu em Goiânia, em 1989, e depois de assumir alguns nomes até chegar ao definitivo Movimento Autogestionário, atuou no movimento estudantil, movimento negro e lutas políticas na cidade de Goiânia no final dos anos 1980 e início da década de 1990, pasando a realizar atividades como publicações, panfletagens, cursos, entre outros, bem como se expandiu para outras cidades do Estado de Goiás e outros Estados do Brasil.

Abaixo passamos um link para uma edição comemorativa dos 30 anos do Movaut da Revista Enfrentamento. Clique na capa e terá acesso à Revista, que disponibiliza materiais históricos do Movaut produzidos nesse período de 30 anos.


Clique na imagem para acessar a revista.



sexta-feira, 13 de setembro de 2019

A POLÍTICA BURGUESA NÃO É UM JOGO DE FUTEBOL



Rubens Vinícius da Silva

Há muita gente que diz estar torcendo "contra" ou mesmo torce "a favor" do governo Bolsonaro. O mesmo se observa com relação à prisão do ex-presidente Lula, bem como às demais disputas no interior das burocracias partidária, sindical, estatal e governamental. Afinal de contas, é possível sair desse círculo vicioso que é a política burguesa?
O grande problema de tal pensamento (simplista e reducionista, diga-se de passagem) é desconsiderar o fato de que, no jogo de cartas marcadas que é a política institucional no capitalismo, a classe dominante - independente de quem ocupar o poder de estado, seja "progressista" ou conservador - sempre está ganhando de goleada.
Daí a necessidade de intensificar a luta cultural, evidenciando que seja qual for o político profissional, sua respectiva ideologia e partido político que esteja no poder, todos atuam no sentido de garantir a reprodução ampliada do capital e a manutenção das relações de exploração e dominação de classe características do capitalismo.
Há uma forte tendência a greves e radicalização das lutas sociais, em virtude das medidas do governo atual (que como todos os demais só age no sentido de satisfazer e gerir os negócios comuns da burguesia). Contudo, tais movimentos grevistas tendem a emergir controlados pela burocracia sindical, estudantil e partidária, as quais têm interesses próprios, vinculados à manutenção da sociedade atual. Em virtude disso, é fundamental constituir outras formas de organização, autárquicas, onde inexista a cisão entre dirigentes e dirigidos, bem como a reprodução da divisão social do trabalho.
Somente com a articulação e generalização da auto-organização, aliada ao projeto autogestionário - ou seja, a um projeto de transformação total e radical do conjunto das relações sociais capitalistas - será possível avançar na denúncia de todos os governos, partidos e demais organizações burocráticas, que dissimulam seus verdadeiros interesses (conquista e manutenção de seus privilégios de classe) e professam interesses falsos (representar o "povo", ou os "oprimidos").
A política burguesa não é um jogo de futebol: mais do que torcer - contra ou a favor - de determinado governo, partido ou político profissional, é essencial demonstrar que não devemos nos deixar dominar pela aparência dos fenômenos. É preciso negar e denunciar radicalmente o jogo de cartas marcadas que é a política institucional no capitalismo e se auto-organizar, visando constituir outra sociedade, com outras regras e que não se fundamente mais na competição, mercantilização e burocratização das relações sociais.
Para finalizar, é sempre bom relembrar a letra da canção, na qual as supostas diferenças entre esquerda e direita, direitos e deveres, os patetas e os poderes explicitam que se trata de dois lados da mesma moeda chamada capitalismo: "nossos sonhos são os mesmos há muito tempo, mas não há mais muito tempo pra sonhar."