quinta-feira, 11 de junho de 2020

REFLEXÕES AUTOGESTIONÁRIAS 10: A QUEM SERVE O ANTIFASCISMO?



A QUEM SERVE O ANTIFASCISMO?
Jaciara Veiga
Mateus Alves


Eis que ressurge o monstro chamado fascismo e, consequentemente, seu produto, aquele que busca combatê-lo: o antifascismo.
Estamos sob ameaça de uma ditadura e não podemos subestimá-la, portanto, ser antifascista é urgente — clamam os defensores da democracia em “perigo”. O antifascismo volta à moda. Até mesmo aqueles que não sabem realmente do que se trata, se denominam antifascista. Muitas pessoas estão sendo rotuladas de fascistas: em especial, por aqueles que estão vendo fascismo em todo e qualquer fenômeno. O termo fascista foi despolitizado e tornou-se um chavão que frequentemente tem sido utilizado como arma na disputa política institucional, num jogo cujo objetivo nada mais é que impedir toda e qualquer forma de autonomização do proletariado, mantendo-o na dinâmica da reprodução ampliada do capital.
Nesse jogo, vale tudo. Utiliza-se da manipulação de sentimentos das classes inferiores, onde o medo, o ódio, a defesa da nação reforçam a adesão à ideia do monstro fascismo. Deste modo, somos encorajados a combater o inimigo fascista na defesa da nossa tão “igualitária” democracia. De fato, a ignorância e o medo podem nos levar à cegueira e, por conseguinte, à adesão daquilo que nem se quer sabemos definir.  Sendo assim, é até possível ignorar que o interesse da classe dominante é a manutenção de sua dominação sob qualquer forma, seja em um regime político democrático ou ditatorial, bem como o que determina se a burguesia optará por uma das duas formas é a dinâmica das lutas de classes e a perda de sua hegemonia no conjunto da sociedade. 
Para combater determinado fenômeno é necessário, antes de tudo, saber do que se trata o mesmo. Logo, a pergunta a ser feita é se sabemos o que estamos combatendo. Afinal de contas, o que é fascismo?
O fascismo [1] é um movimento político, ou seja, uma expressão política de classe (ou conjunto de classes, alianças de classes etc.); é caracterizado por ser um nacionalismo expansionista, integralista e totalitário; busca um estado forte, orgânico, sustentado por uma base policlassista. Ele não é um fenômeno universal, que emerge em qualquer contexto, sob qualquer forma; é uma forma histórica do capitalismo, não é um movimento destituído de historicidade e produzido arbitrariamente.
O fascismo é um produto do capitalismo. Ele surge em momentos de crise de um regime de acumulação [2], nos países imperialistas ou potencialmente imperialistas, num contexto de recuo e derrotas do movimento operário. O fascismo é, portanto, uma forma política específica e determinada utilizada pela classe dominante em alguns países de capitalismo imperialista. Seu caráter de classe é burguês, assentado numa burocracia forte (partidária, mas principalmente num estado forte, integral, totalitário), que satisfaça suas necessidades.
O fascismo (enquanto movimento político e forma estatal) desapareceu. Contudo, o uso banalizado do termo no capitalismo contemporâneo é marcado pela suposta reemergência deste fenômeno. Com certeza, tal utilização não tem relação alguma com o que se passou no contexto da luta de classes na Itália durante as décadas de 1920 e 1930. Para ser fascismo necessitaria possuir seus elementos essenciais supracitados. Sendo assim, podemos dizer que o atual governo brasileiro é fascista?
De acordo com determinadas representações cotidianas [3] e algumas representações ilusórias [4] acerca do governo Bolsonaro — que se baseiam no comportamento de um indivíduo, no caso, o próprio Bolsonaro — estamos sim sob um governo fascista. Esse discurso tem sua origem nas eleições de 2018 onde, para surpresa e descontentamento de muitos, se deu sua vitória. Todavia, esse discurso não foi totalmente superado e voltou à tona. Apesar de o Brasil ser um país de capitalismo subordinado, sem nenhuma base imperialista, o presidente é considerado fascista, e logo, o seu governo também.
Dizer que o atual governo é fascista demonstra, de um lado, a ausência de criticidade por parte de indivíduos que desconhecem esse fenômeno e apenas reproduzem tal discurso e, por outro, o oportunismo daqueles que buscam reproduzir essa sociedade, seja lá qual for a forma, se pela via democrática ou pela via ditatorial. O governo Bolsonaro [5] é um governo neoliberal, subordinado aos países imperialistas. Por mais que o presidente, alguns setores do seu governo e parcelas da sociedade demonstrem desejar romper com o “estado democrático”, isso não é suficiente para afirmar que o mesmo seja fascista, faltam diversos elementos para que se configure um governo realmente fascista. Logo, um movimento que se denomina antifascista combate, na verdade, uma caricatura mal feita do fascismo.
O antifascismo não está livre da determinação dos interesses de classe, pois, nas sociedades classistas, os interesses e a consciência dos seres humanos são determinados pela sua posição (e em como enxergam sua posição) na divisão social do trabalho. Na sociedade contemporânea existem diversas classes sociais que apresentam interesses fundamentais distintos e até antagônicos que se manifestam por meio da luta de classes. Então, torna-se essencial refletir quais interesses são expressos pelo antifascismo e como a luta de classes se manifesta concretamente em seu ressurgimento no atual cenário político brasileiro.
Como já mencionado anteriormente, o governo Bolsonaro não é fascista, mas apesar disso, os antifascistas combatem o atual governo qualificando-o como tal. Esta caracterização ofusca a consciência dos indivíduos acerca da realidade, pois apresenta a mera mudança de governo como solução para a insatisfação de parte das classes inferiores em relação às políticas estatais. E, além disso, esconde os interesses do estado pela reprodução do capitalismo. As ações do governo Bolsonaro são determinadas, em última instância, pelos interesses da burguesia em manter o próprio capitalismo. Qualquer outro governo, da mesma forma que o atual, deve efetivar políticas estatais que correspondam às necessidades da acumulação de capital. Portanto, o limite intransponível do antifascismo é a mera mudança de um governo conservantista para um governo progressista, isto é, um governo que atende algumas exigências mínimas das classes inferiores com o único objetivo de estabilizar a acumulação de capital.
Não é surpresa que parte do bloco progressista (partidos social-democratas, partidos leninistas, alguns intelectuais, etc.) [6] se contorça de prazer quando conseguem apoio de parte da sociedade em torno do antifascismo, uma vez que ganham mais força política para conseguir concretizar seu principal interesse: ascender ao poder estatal. Também não é surpresa que as manifestações, textos, manifestos antifascistas sejam defendidos por alguns partidos, alguns intelectuais, e algumas organizações mobilizadoras dos movimentos sociais de tendência progressista.
No entanto, o bloco progressista necessita, em decorrência da própria fragilidade, do apoio de outros setores da sociedade para conseguir satisfazer seu próprio interesse e, ao mesmo tempo, não pode revelar toda a verdade para as classes inferiores, correndo o risco delas se rebelarem. Assim, nada mais oportuno que, em um momento de fragilidade do governo Bolsonaro, ressurja o antifascismo que consegue enfraquecer o atual governo, e simultaneamente legitimar e reforçar o bloco progressista e suas principais ideologias como o reformismo, para enfim, ter apoio e condições de conquistar o poder estatal.
Então, se o antifascismo não é capaz de expressar os interesses fundamentais do proletariado revolucionário e, na verdade, ressurge como expressão do oportunismo do bloco progressista, diante da conjuntura atual, para enfraquecer tão somente o governo Bolsonaro com o objetivo de trocá-lo por outro, resta-nos saber a posição dos revolucionários sobre esta questão.
Os revolucionários não se interessam pela conquista do poder estatal ou mesmo em quem o assumiu ou assumirá. Não nos interessa também quais são as políticas estatais que se efetivarão para atender as necessidades da acumulação de capital, mantendo os trabalhadores ainda sob o julgo da exploração e dominação. O que nos interessa é a abolição total do estado simultaneamente com a abolição do modo de produção capitalista e de todas as outras formas sociais determinadas por ele, isto é, queremos a abolição total das relações sociais capitalistas em prol de uma sociedade onde as relações sociais atendam às necessidades humanas, bem como estimulem as suas potencialidades. Em outras palavras, este é o projeto autogestionário que visa uma sociedade autogerida.
A adesão ao antifascismo significaria trilhar um caminho que nos levaria em direções contrárias ao nosso destino. Significaria realizar uma série de concessões contrarrevolucionárias, que não representam um passo rumo à abolição do capitalismo e da concretização do projeto autogestionário, mas sim o oposto, significaria reforçar e legitimar ideologias como o reformismo, progressismo, estatismo etc.
Para concretizar o projeto autogestionário são necessários meios adequados, isto é, deve existir uma unidade entre meios e fins. Então, para isso, insistimos que o fundamental é ainda a velha máxima do Manifesto Comunista: a associação dos trabalhadores visando sua autoemancipação. Dessa maneira, é necessário criticar todas as ideologias, concepções etc. que ofuscam a realidade e impedem uma consciência revolucionária. A adesão ao antifascismo é um obstáculo que impede o proletariado revolucionário de trilhar seu caminho rumo a uma sociedade autogerida.

Notas:
[2] O regime de acumulação é a forma que o capitalismo assume durante o seu desenvolvimento, mantendo sua essência. É marcado por determinada forma de organização do trabalho, determinada forma estatal e determinada forma de exploração internacional, manifestando, portanto, um determinado estágio da luta de classes. Sobre regimes de acumulação: O capitalismo na era da acumulação integral, Nildo Viana; O regime de acumulação integral: retratos do capitalismo contemporâneo, Felipe Mateus (org.).
[3] As representações cotidianas são formas de representar o mundo em nossa cotidianidade, reproduzindo suas características (simplicidade, regularidade e naturalidade). Estas representações podem ser ilusórias, mas também verdadeiras.  Sobre representações cotidianas, ver: Senso comum, representações sociais e representações cotidianas, de Nildo Viana.
[4] A titulo de exemplo, temos o discurso de alguns representantes do bloco progressista como Fernando Haddad: “Quando superarmos a ameaça fascista e garantirmos a preservação do Estado de Direito, se dará a verdadeira disputa democrática, entre diferentes times e sonhos. Espero que sem trapaça desta vez" (https://www.brasil247.com/poder/haddad-defende-manifestos-e-frentes-popular-e-antifascista). E também de Boulos: “Não basta assinarmos manifestos unitários, que julgo importantes, aliás, subscrevi todos. Mas a hegemonia fascista, mesmo minoritária, se afirma nas ruas. Foi assim com os Camisas Negras de Mussolini e com as milícias hitleristas. Poderia ter sido assim com os integralistas de Plinio Salgado no Brasil se os comunistas não os tivessem enxotado das ruas. Se normalizamos gente defendendo AI-5 e agredindo opositores, jornalistas e enfermeiras em praça pública, daqui a pouco não teremos condições de dar as caras” (https://www.brasil247.com/brasil/boulos-mtst-e-povo-sem-medo-estarao-nas-ruas-no-domingo). Pode-se observar tanto a manipulação de sentimentos por meio da “ameaça fascista” quanto a tentativa de canalizar as lutas do proletariado para as disputas da política institucional (“disputa democrática”).


domingo, 7 de junho de 2020

RACISMO E CAPITALISMO E AS LUTAS PARA SUPERÁ-LOS




Matheus Almeida
"Não existe capitalismo sem racismo", disse certa vez Malcolm X.
Se o que Malcolm X colocou está correto, então toda luta contra o racismo que não lute também contra o capitalismo é uma luta pela metade. Afinal, enquanto houver capitalismo haverá racismo.
Do mesmo modo, se esta afirmação é correta, então toda luta contra o capitalismo que não lute também contra o racismo é uma luta pela metade. Afinal, poupar um elemento tão caro ao capitalismo, como é o racismo, implicaria não combatê-lo por inteiro. Logo, enquanto houver racismo, o capitalismo não estará plenamente superado.
Portanto, a luta antirracista autêntica (e, logo, radical, porque vai à raiz do racismo) é aquela que combate também o capitalismo, e a luta anticapitalista autêntica (ou seja, radical, que vai à raiz do capitalismo) é aquela que combate também o racismo.
Se isto está correto, vemos que tarefas estão colocadas: nada menos do que uma revolução social generalizada, que destrua todas as relações sociais capitalistas e racistas, construindo em seu lugar novas relações sociais produtoras de uma humanidade emancipada.
Concordando com este objetivo, o meio para alcançá-lo haveria de ser: Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos, há muito o que revolucionar. A luta contra o racismo não é tarefa somente dos negros, é dever de todos aqueles que pretendem transformar radicalmente este mundo; Negros revolucionários de todo o mundo, unamo-nos. A luta contra o capitalismo é necessária para superarmos o racismo, e nessa luta não podemos selecionar (ou querer melhor "representar") a cor das classes inimigas.
Soma-se a estas nossas tarefas a necessidade de combater toda forma de ilusão e imposição de limites a esta luta, que são precisamente tarefas das classes inimigas. Neste sentido, ilusão e limitação são armadilhas que cumprem o mesmo papel que a repressão: atuam no interesse da manutenção da sociedade vigente.
Assim, se o capitalismo no atual regime de acumulação integral [1] reserva às classes inferiores as formas mais degradantes e miseráveis de vida, e se a maioria da população negra foi jogada no interior destas classes, o que em países como Brasil e EUA é uma realidade advinda do escravismo e continuada no capitalismo, não resta dúvida de que temos de combater velhas e novas formas de dominação e opressão.
Diante disso, o enfrentamento deve se dar tanto às antigas e contínuas práticas brutais de assassinatos, torturas e humilhações a que os negros são submetidos, como também a novas formas de ilusão e limitação, como o microrreformismo [2], as ideologias de representatividade, de empoderamento e qualquer outra que vise substituir a luta revolucionária por disputa por migalhas, êxitos individuais e melhor integração na sociedade capitalista. Estes são os imensos desafios para o avanço da luta antirracista e anticapitalista.
Um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres, numa sociedade após a abolição do capitalismo e do racismo, isto é, na autogestão social, é o que a vitória dessa luta nos reserva à frente.

[1] Sobre o regime de acumulação integral:
[2] Sobre o microrreformismo e a integração dos movimentos sociais no capitalismo contemporâneo: 



quinta-feira, 4 de junho de 2020

REFLEXÕES AUTOGESTIONÁRIAS 09: CAPITALISMO, INTERESSES DE CLASSE E POLÍTICA INSTITUCIONAL

Miopia Legislativa | GaúchaZH


CAPITALISMO, INTERESSES DE CLASSE E POLÍTICA INSTITUCIONAL

Rubens Vinícius da Silva

O caso brasileiro recente nos remete para um fenômeno que é recorrente na história das lutas de classes: as classes que detém ou auxiliam na manutenção do poder político buscam apresentar os seus interesses de classe (que são transitórios, históricos e se originam da posição ocupada na divisão social do trabalho constituída pelo modo de produção dominante) como sendo universais e válidos para todas as classes sociais. Com isso, conseguem camuflar e ocultar que seus interesses vão ao encontro da manutenção dessa sociedade.

Não nos iludamos: no contexto atual, marcado por uma queda na acumulação capitalista no país e reforçado por um cenário de pandemia, que agrava ainda mais a queda na acumulação de capital no resto do mundo, qualquer pretensa "ruptura" visa "mudar para conservar". Ficam intactos os interesses da classe dominante, isso às custas do aumento da exploração do proletariado e da precarização das demais classes inferiores: outra consequência mais do que grave é o aumento do lumpemproletariado (mendigos, desempregados, sem-teto, "autônomos", etc.), que expõe em todos os rincões do mundo capitalista a sua face mais cruel e desumana.

Noutras palavras: a intensificação das tensões entre setores da burocracia que expressam distintas posições políticas, vinculadas a setores da burguesia ("judiciário" versus "executivo", em linguagem ideológica) é na verdade uma disputa para quem vai melhor servir aos interesses da classe dominante: tem como objetivo implícito desviar o proletariado e demais classes inferiores da manutenção das relações de exploração e dominação de classe, cujo aumento crescente avança independentemente da sucessiva troca de governos.

Mais do que nunca, é necessário romper com o presentismo[1] e o personalismo[2] (quer dizer, a ausência da percepção da historicidade das sociedades e da especificidade de suas relações sociais, em conjunto com o isolamento fantástico de determinados indivíduos ou personalidades da totalidade das relações sociais e, na sociedade moderna, das relações de classe que as caracterizam), divulgando um projeto e consciência futurista da realidade: somente a luta por outra sociedade é algo são, realista e verdadeiro nesta sociedade doente, hipócrita e mentirosa em que vivemos. Ficar nos limites da conjuntura ou querer nela permanecer é escolher o “mal menor”, que só reforça ilusões e reproduz a miséria reinante.

É necessário não perder de vista que somente quando o proletariado, demais classes inferiores e setores que contestam o capitalismo se auto-organizarem de maneira autônoma e autodeterminada (ou seja, numa perspectiva autogestionária e revolucionária) seus interesses serão expressos. Tal processo deve avançar e se intensificar para além dos limites impostos pelo capitalismo: do contrário será tragado pelos interesses mesquinhos e particularistas da classe dominante (burguesia).

O resto é oportunismo ou miopia política: desde as lutas, greves e ocupações mais recentes nos últimos 10 anos é sabido que tanto o bloco dominante quanto o bloco progressista buscam, num primeiro momento, reprimir e negar o movimento espontâneo do proletariado e demais setores contestadores. Num segundo momento, alguns setores destes blocos sociais tentam de todas as formas canalizar tal movimento e se apropriar do mesmo segundo seus interesses de classe, com o objetivo de amortecer os conflitos e lutas sociais.

O capital sabe usar muito bem do par antinômico democracia e ditadura para com isso continuar preservando intactos seus interesses de classe e as relações de exploração e dominação. A verdadeira ditadura é a ditadura da burguesia, que surge nos locais de produção e se alastra para o conjunto da vida social. Não nos esqueçamos que foi o "governo democrático-popular" (eufemismo para os anos de governo neoliberal neopopulista do PT[3]) que reavivou as leis da ditadura militar para perseguir, criminalizar e melhor reprimir seus antagonistas e opositores.

Ao proletariado, classes inferiores e outros setores que contestam a sociedade capitalista o único caminho realista é generalizar e ampliar a ruptura com toda e qualquer organização burocrática, pois estas reproduzem a divisão social do trabalho e, portanto, relações de classes no seu interior.

A história do movimento operário indica o horizonte a ser retomado: a criação de novas formas de auto-organização (em conjunto com um processo de intensa luta cultural visando ao aumento da autoeducação e autoformação revolucionárias) que ao mesmo tempo ponham em xeque o capitalismo e sejam o embrião da sociedade futura, aliada à crítica implacável de todos os seus inimigos de classe (seja à direita ou à esquerda).

A velha máxima da luta proletária, em tempos de pandemia gerada pelo modo de produção capitalista, é cada vez mais atual: autogestão social ou barbárie!   


[3] No que tange aos anos de governo do PT, seu significado para a reprodução do capitalismo e posterior amortecimento da luta revolucionária: https://movaut.blogspot.com/2018/04/reflexoes-autogestionarias-04-lula-e.html.  

segunda-feira, 25 de maio de 2020

REFLEXÕES AUTOGESTIONÁRIAS 08: O GOVERNO BOLSONARO, A PANDEMIA E O DUPLIPENSAR




O GOVERNO BOLSONARO, A PANDEMIA E O DUPLIPENSAR

Lucas Maia

O clássico 1984 de George Orwell publicado em 1949 apresenta um futuro atordoante. Uma sociedade autoritária, burocrática, na qual nenhum tipo de liberdade é possível, principalmente a de pensamento. Pensar além do que é permitido pelo poder instituído é o maior dos crimes, a “Crimideia”. Esta sociedade autoritária, cujo poder aparentemente eterno e imbatível do Partido único e seu Grande Irmão é possível devido a três elementos: “novilíngua”, “controle do passado” e “duplipensar”.

Vou me ater somente ao último estratagema do poder para refletir sobre a postura do governo Bolsonaro diante do problema da pandemia relacionada ao coronavírus. Antes de continuar, há que se entender o que é o duplipensar. Orwell assim o define:

Saber e não saber, ter consciência de completa veracidade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, defender simultaneamente duas opiniões opostas, sabendo-as contraditórias e ainda assim acreditando em ambas; usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade em nome da moralidade (...). Até para compreender a palavra duplipensar era necessário usar o duplipensar (ORWELL, George. 1984).

É possível uma tal forma de pensar? Este raciocínio de Orwell só é possível na sociedade por ele imaginada, com aquele futuro sombrio e autoritário? Ou será que o duplipensar está tão entranhado em nosso cotidiano, que nós o usamos ou o vemos sendo usado a todo momento e nem o percebemos?

Já estamos em 2020, 36 anos depois de 1984. Talvez a distopia já se tenha concretizado e estamos tão enterrados nela que nem ao menos conseguimos perceber que a novilíngua é reinventada a todo o momento. Veja o que fez o capitalismo contemporâneo, com seu arsenal de novas palavras: “empreendedorismo”, “gestão de carreira”, “inteligência emocional”... E o controle do passado? Já acontece? Os revisionismos históricos estão aí para provar: holocausto não existiu, nazismo era de esquerda, ditadura militar no Brasil não existiu ou não foi assim tão violenta etc.

E o duplipensar? É real? É possível afirmar coisas contraditórias, uma negando a outra e mesmo assim acreditar que ambas são verdadeiras? É possível mentir, acreditando realmente dizer a verdade? É possível ser ilógico usando a lógica? Imoral defendendo a moralidade?

Parece-me que a atitude do governo federal, em sua disputa política com os governos estaduais, setores do capital comunicacional (Rede Globo, Jornal Folha de São Paulo etc.), o bloco progressista em peso (partidos de esquerda, sindicatos, alguns setores da intelectualidade etc.) utiliza exatamente o duplipensar. A distopia de Orwell não se realizou num Estado ditatorial, com partido único, sob a égide e mão de ferro de um suposto Big Brother (que não é o da Rede Globo). Ocorre numa tal democracia neoliberal, pluripartidária, com liberdades (de imprensa, de reunião, de pensamento etc.). Claro, são todas liberdades formais, que não existem concretamente para todos. Talvez esta seja a única diferença entre a sociedade fantástica imaginada por Orwell e o absurdo da realidade em que vivemos.

E como o governo mente, acreditando dizer a verdade? Como ele diz coisas opostas acreditando serem ambas verdadeiras?

Uma amostra grátis permite compreender o que estou dizendo. Bolsonaro e a equipe econômica do governo afirmam que é preciso cuidar da questão (“cuestão”) do emprego e da economia da mesma forma que da “cuestão” da saúde. No atual contexto (em que não existe vacina nem tratamento), do modo como o governo entende o problema, constitui de fato uma oposição, embora ele diga o contrário. Fazer como defende o governo (isolamento vertical, ou seja, só grupos de risco) e relaxar as restrições para os demais grupos é falso, pois a contaminação se estenderia aos grupos de risco e  como vem sendo demonstrado, pessoas fora do grupo de risco também vem apresentando problemas graves por causa da Covid-19. No final das contas, trata-se de uma imposição do capital para a retomada da acumulação, e isto, no atual contexto, dar-se-á em detrimento da saúde do trabalhador, que será exposto ao vírus para manter seu emprego, ou seja, garantir a reprodução do capital. O governo dizer, portanto, que vai cuidar da “cuestão” da saúde e da economia e emprego simultaneamente é uma mentira, apesar de seu tom verdadeiro e grave. Talvez ele acredite nisto realmente, ou seja, seu pensamento já emprega o duplipensar. Pode ser que seja só um mentiroso mesmo, o que é mais provável.

Esta não é, contudo, uma característica específica do governo Bolsonaro, pois o duplipensar, sob formas discursivas diferentes, com vínculos partidários e interesses determinados, sempre existiu no capitalismo e tem que existir enquanto forem as relações capitalistas dominantes. Isto se deve ao fato de a verdade não poder ser dita em sua totalidade, pois revelaria os interesses da classe capitalista, que não são idênticos aos interesses das demais classes. Assim, necessariamente, este duplo tem que aparecer. Ou seja, dizer-se uma parte da verdade, escondendo-se a outra. Convencer a todos que esta parte da verdade é toda a verdade é o próprio “duplipensar”. A arte de mentir acreditando dizer a verdade.

No que refere ao caso brasileiro, o mais problemático é que parcelas significativas da população, algumas devido suas condições materiais de existência (almoçar e jantar, pagar as contas no final do mês etc.), outras devido posicionamento político acrítico pró-Bolsonaro, e ainda outras por interesses econômicos mais ou menos mesquinhos, realmente empregam o duplipensar, sem mesmo o saber. Aceitam as duas proposições contraditórias e acham que ambas são verdadeiras.

Eis o drama de nossos dias. Contudo, para as classes inferiores em geral, e para o proletariado em particular, a lógica do duplipensar não interessa. Interessa-os outra lógica, outro discurso, outra prática, outra vida, outra alternativa. Cuidar da saúde ou morrer de fome? Cuidar do emprego ou morrer de Covid-19? Isto não é escolha, é chantagem. São todas oposições que reproduzem a sociedade burguesa. Interessa aos trabalhadores abolir estas oposições. Interessa-os, abolir a sociedade existente. Interessa-os, portanto, a luta contra a ordem estabelecida e a constituição de outras relações sociais, estas sim, humanizadas!!!

terça-feira, 5 de maio de 2020

Minicurso "Luta de Classes e Projeto Autogestionário", com Nildo Viana



No dia 23 de Maio o Movaut promoverá o Minicurso "Luta de Classes e Projeto Autogestionário", com Nildo Viana. O minicurso é promovido pelo Movaut - Movimento Autogestionário, com apoio e organização de militantes de Porto Alegre/RS.

O curso será das 14:00 até às 18:00 via Conferência Web RNP*.

O link para acesso será postado aqui, no dia do curso, às 13:30.

Para participar via RNP:
https://conferenciaweb.rnp.br/webconf/nildo

Para assistir (sem participação) via youtube:
https://youtu.be/0ZNo93-mglE

Aqui um tutorial para quem for acessar o RNP pela primeira vez.
É muito simples e pode ser feito usando conta do Facebook ou Google.
Basta clicar no link acima e escolher uma dessas opções. Para quem já participa e tem conta institucional, pode acessar por sua conta

TUTORIAL:




sábado, 25 de janeiro de 2020

30 anos de lutas autogestionárias



O MOVAUT completou, em 2019, 30 anos de lutas autogestionárias. O Movaut surgiu em Goiânia, em 1989, e depois de assumir alguns nomes até chegar ao definitivo Movimento Autogestionário, atuou no movimento estudantil, movimento negro e lutas políticas na cidade de Goiânia no final dos anos 1980 e início da década de 1990, pasando a realizar atividades como publicações, panfletagens, cursos, entre outros, bem como se expandiu para outras cidades do Estado de Goiás e outros Estados do Brasil.

Abaixo passamos um link para uma edição comemorativa dos 30 anos do Movaut da Revista Enfrentamento. Clique na capa e terá acesso à Revista, que disponibiliza materiais históricos do Movaut produzidos nesse período de 30 anos.


Clique na imagem para acessar a revista.



sexta-feira, 13 de setembro de 2019

A POLÍTICA BURGUESA NÃO É UM JOGO DE FUTEBOL



Rubens Vinícius da Silva

Há muita gente que diz estar torcendo "contra" ou mesmo torce "a favor" do governo Bolsonaro. O mesmo se observa com relação à prisão do ex-presidente Lula, bem como às demais disputas no interior das burocracias partidária, sindical, estatal e governamental. Afinal de contas, é possível sair desse círculo vicioso que é a política burguesa?
O grande problema de tal pensamento (simplista e reducionista, diga-se de passagem) é desconsiderar o fato de que, no jogo de cartas marcadas que é a política institucional no capitalismo, a classe dominante - independente de quem ocupar o poder de estado, seja "progressista" ou conservador - sempre está ganhando de goleada.
Daí a necessidade de intensificar a luta cultural, evidenciando que seja qual for o político profissional, sua respectiva ideologia e partido político que esteja no poder, todos atuam no sentido de garantir a reprodução ampliada do capital e a manutenção das relações de exploração e dominação de classe características do capitalismo.
Há uma forte tendência a greves e radicalização das lutas sociais, em virtude das medidas do governo atual (que como todos os demais só age no sentido de satisfazer e gerir os negócios comuns da burguesia). Contudo, tais movimentos grevistas tendem a emergir controlados pela burocracia sindical, estudantil e partidária, as quais têm interesses próprios, vinculados à manutenção da sociedade atual. Em virtude disso, é fundamental constituir outras formas de organização, autárquicas, onde inexista a cisão entre dirigentes e dirigidos, bem como a reprodução da divisão social do trabalho.
Somente com a articulação e generalização da auto-organização, aliada ao projeto autogestionário - ou seja, a um projeto de transformação total e radical do conjunto das relações sociais capitalistas - será possível avançar na denúncia de todos os governos, partidos e demais organizações burocráticas, que dissimulam seus verdadeiros interesses (conquista e manutenção de seus privilégios de classe) e professam interesses falsos (representar o "povo", ou os "oprimidos").
A política burguesa não é um jogo de futebol: mais do que torcer - contra ou a favor - de determinado governo, partido ou político profissional, é essencial demonstrar que não devemos nos deixar dominar pela aparência dos fenômenos. É preciso negar e denunciar radicalmente o jogo de cartas marcadas que é a política institucional no capitalismo e se auto-organizar, visando constituir outra sociedade, com outras regras e que não se fundamente mais na competição, mercantilização e burocratização das relações sociais.
Para finalizar, é sempre bom relembrar a letra da canção, na qual as supostas diferenças entre esquerda e direita, direitos e deveres, os patetas e os poderes explicitam que se trata de dois lados da mesma moeda chamada capitalismo: "nossos sonhos são os mesmos há muito tempo, mas não há mais muito tempo pra sonhar."

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Contra os cortes na educação e a reforma previdenciária!!!

Contra os cortes na educação e a reforma previdenciária!!!

O atual governo, por meio de seu Ministro da Educação, cortou 30% dos recursos das universidades e institutos federais, o que inviabiliza o trabalho destas instituições já no segundo semestre de 2019. Também, cortou 47% do Fundo Nacional para Educação Básica – FUNDEB, o que implicará em mais precarização das escolas e do trabalho das professoras e professores da educação básica em todo o Brasil. Essas medidas atendem apenas aos interesses do capital e são contra as necessidades da população, pois existem outros setores em que os gastos poderiam ser cortados Tais políticas só precarizam ainda mais a educação estatal (pública).

Mas o mais dramático para os trabalhadores ainda está em tramitação no Congresso Nacional, a reforma previdenciária. Justificada por argumentos conhecidamente mentirosos, implicará no aumento da idade para se aposentar (podendo chegar até 70 anos), redução para 400 reais do valor do BPC – Benefício de Prestação Continuada, insegurança para quem recebe algum auxílio do INSS, diminuição das pensões por morte etc. Assim, se você recebe ou tem amigos e familiares que recebem alguns destes benefícios, saiba que estão ameaçados. 

Essa política deu errado em todos os países onde foi implantada (a exemplo do Chile, país com maior índice de suicídio entre idosos, pois mais da metade recebe menos de um salário mínimo). Não há nenhum indicativo de que dará certo aqui também. O que é evidente é o interesse dos bancos em abocanhar os bilhões que a Previdência gera todo ano. A reforma previdenciária beneficia o capital e prejudica as classes trabalhadoras.

Qual deve ser a posição dos trabalhadores e estudantes?

As classes trabalhadoras devem se posicionar diante do que está acontecendo. Precarizar ainda mais a educação, significa piorar as condições de estudo dos filhos dos trabalhadores. Destruir a previdência, significa impedir os idosos das classes trabalhadoras o acesso à aposentadoria, auxílio doença, pensão etc. A classe capitalista e seu estado efetivam uma luta contra as classes trabalhadoras e essas devem reagir lutando contra o capital.

Os velhos sindicatos e partidos políticos estão de tal modo preocupados com a garantia de seus interesses, que são uma barreira à luta dos trabalhadores. Não devemos confiar nos sindicatos, pois servem aos próprios interesses e estão aliados ao capital. Os partidos políticos? Embora falem em nome do “povo”, estão de olho nas próximas eleições, na busca por cargos, poder, interesses financeiros etc.

Assim, partidos políticos e sindicatos devem ser abandonados e superados!!!!

Criemos nossas próprias organizações em nossos locais de trabalho, de estudo, de moradia. Criemos espaços de estudos, reflexões e articulação para constituir alternativas políticas. Os trabalhadores devem combater as nocivas políticas governamentais e para isso devem ampliar sua consciência do que está em jogo e criar comitês de luta popular para efetivar ações e pressões contra elas. Somente assim podemos combater os retrocessos e criar espaço para avançarmos rumo à transformação social e solução definitiva dos problemas sociais. O Movimento Autogestionário (MOVAUT) se coloca à disposição para contribuir com este processo.

Contra o estado e o capital!
Pela auto-organização dos estudantes e das classes trabalhadoras!!
Lute pela Autogestão Social!!!
MOVAUT - Movimento Autogestionário – http://movaut.blogspot.com/

segunda-feira, 13 de maio de 2019

CONTRA O PERSONALISMO

TEXTOS E DEBATES




CONTRA O PERSONALISMO


Rubens Vinicius da Silva

O personalismo (entendido aqui como o processo no qual se efetua um isolamento fantástico de um ou mais indivíduos do conjunto das relações sociais concretas e específicas de um território e contexto sócio histórico) é um grande entrave na compreensão dos fenômenos sociais e da história humana. Tal história tem sido, nas sociedades de classes, a história das ilusões.


Assim, para superá-las, não se trata de criticar ou denunciar um ou mais membros da polícia, do governo, do partido/sindicato x ou y, e sim entender as relações sociais fundamentais que se dão dentro e fora dessas instituições como um todo.


O personalismo liga o desenvolvimento das sociedades, suas mutações e de suas lutas históricas às façanhas ou mentes e ideias “geniais” de “grandes personalidades”: tal procedimento intelectual vai ao encontro da perspectiva burguesa, que ignora a constituição histórica e social dos seres humanos, seu pertencimento de classe, valores, ideias, sentimentos e mentalidade. Ademais, isola determinadas características desses indivíduos (geralmente membros das classes superiores) e abandona o ponto de vista da totalidade: são os seres humanos reais, históricos e concretos que travam suas lutas e, desse modo, fazem a história a partir das condições legadas do passado.


A luta cultural assume papel importante no combate ao personalismo: isso porque resgata as lutas de classes, os interesses das classes (do proletariado em especial, a classe potencialmente revolucionária de nosso tempo) e setores que contestam a sociedade capitalista. Além disso, é a partir da luta cultural que se denuncia como o ponto de vista que reproduz a concepção da história fundada na ação grandiosa de “grandes indivíduos” em realidade diz muito sobre a necessidade de manutenção das relações de exploração e dominação características da sociedade moderna.


Assim, é fundamental fazer avançar a formação intelectual e política das classes inferiores e demais setores contestatários, no sentido de se organizar não contra o governo, a polícia, ou o partido político de x ou y e sim contra os fundamentos da sociedade capitalista e da sua totalidade, uma vez que são as relações sociais capitalistas as geradoras da miséria psíquica, cultural e material que aflige a humanidade. Dessa forma, a revolução proletária não busca eliminar indivíduos ou culpá-los isolada e moralmente por todas as relações sociais capitalistas e sim destruir as instituições, organizações e o conjunto dessas relações sociais, marcadas pela exploração, alienação e dominação.


No capitalismo, as organizações dominantes são as que se baseiam na divisão do trabalho entre dirigentes e dirigidos, relação social que é fundamental na manutenção das sociedades de classes. Nessas organizações o personalismo se manifesta no fato de os seus eventuais avanços e recuos na dinâmica organizacional serem atribuídos aos indivíduos que pertencem à classe dominante ou aos membros das frações de suas classes sociais auxiliares, em detrimento da negação aberta das contradições, conflitos e tensões existentes em virtude das lutas concretas ocorridas no seu interior. Nesse sentido, os vínculos daqueles que possuem os cargos de direção (e, por conta disso, tomam as decisões e fixam os objetivos no seio das organizações burocráticas) com os membros da classe dominante é mais do que nítido, de modo que os exemplos recentes proliferam.


Da mesma maneira, o aniversário de algumas experiências históricas e processos sociais dá a possibilidade de confirmar que a deformação da história efetuada por intermédio do personalismo tem se repetido: ora como tragédia, ora como farsa.


Ou seja, a grande questão é fomentar outras formas de organização, especialmente entre os trabalhadores produtivos, o proletariado, assim como nas demais classes e outros setores da sociedade que contestam o capitalismo. Não há como lutar pela superação do capitalismo reproduzindo a sua dinâmica; deste modo, a auto-organização deve ser um princípio fundamental das lutas.



Mas não ela como um fim em si: é preciso articular as lutas e lutadores reais, que se formam em oposição direta aos partidos e sindicatos, com um projeto de abolição e superação da sociedade capitalista. Não há como ter unidade com os inimigos de classe: mesmo aqueles que aparentam ser mais próximos e íntimos.


É por aí que passa o avanço num sentido revolucionário: o horizonte da transformação também passa pelo resgate das experiências históricas de luta, demonstrando o papel contrarrevolucionário de partidos e sindicatos. São estes últimos que pela ação direta de suas burocracias em determinados momentos históricos oscilam entre a sua função de classe auxiliar da burguesia ou buscam se autonomizar, expressando seus próprios interesses no sentido de se tornar a nova classe dominante, em especial quando do avanço das situações revolucionárias.


A história das lutas de classes demonstra que é justamente em períodos de avanço das lutas revolucionárias, autogeridas, que o papel de partidos, sindicatos e do estado se evidencia. Eles têm medo e horror à superação das relações de produção burguesas, pois isso significaria o fim de sua razão de existência, isto é, a de ser uma fração de classe auxiliar dos capitalistas.


Apenas combatendo de forma direta o personalismo (e as organizações burocráticas que o sistematizam e reproduzem) e, neste mesmo processo, forjando o embrião de uma sociabilidade e de uma sociedade sem dirigentes e dirigidos, nem exploradores e explorados, é que efetivamente estaremos constituindo um mundo no qual possamos ser socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres, fundado na autogestão social generalizada.

"A revolução proletária tem que destruir um poderoso sistema desde a raiz e criar algo de bem novo à mais larga escala. Para esta tarefa não são adequadas as forças dos partidos e sindicatos. Mesmo as mais fortes organizações são demasiado fracas para isso. A revolução proletária só pode ser obra da totalidade da classe proletária."

Otto Rühle

quinta-feira, 11 de abril de 2019

DITADURA, DEMOCRACIA OU AUTOGESTÃO SOCIAL?

TEXTOS E DEBATES


DITADURA, DEMOCRACIA OU AUTOGESTÃO SOCIAL?

Lucas Maia

Com toda esta babel em torno da questão da ditadura militar no Brasil, se ela existiu ou não, a consciência e a luta para a superação do capital e do estado recuou. Ao invés de se apontar o fim do estado, defende-se o estado democrático. Ao invés de se lutar pela constituição de outra sociedade (que eliminaria as ditaduras), luta-se para defender a democracia. Esquece-se com isto que a democracia é somente uma das formas de regime político do estado moderno, portanto, do capital.

Abandona-se assim a luta contra o capital e contra o estado em nome da defesa da democracia. Os setores mais radicalizados, o bloco revolucionário, se entram neste discurso, devem fazer alianças com liberais, social-democratas e toda a esquerda oficial que defende o estado democrático de direito.

Obviamente que lutar em um estado democrático é menos perigoso que em um estado ditatorial, pois, nas ditaduras (civis ou militares), a repressão estatal é generalizada e tende a perseguir todos os espectros políticos, organizações, indivíduos que se opõem ao poder estabelecido. As chamadas garantias democráticas (direito de organização, liberdade de expressão etc.) são cassadas. Isto não impede, contudo, que a luta na democracia, quando excede o tolerado pelo estado democrático de direito, torne este mesmo estado democrático tão abusivo quanto um estado ditatorial.

Além disto, as revoluções do século XX provam que elas emergem em qualquer tipo de regime político. Por exemplo, as revoluções russa (1905 e 1917) emergiram contra um estado ditatorial. O mesmo vale, por exemplo, para a revolução portuguesa de 1975, que surge dentro da ditadura de Salazar. Também, nos regimes democráticos, ocorreram importantes processos revolucionários: Revolução alemã de 1918 a 1921, o Maio de 1968 na França. Mesmo dentro do chamado “socialismo real”, na verdade um capitalismo de estado, emergiram importantes processos revolucionários contra as ditaduras dos estados “socialistas”: Hungria em 1956 e 1968, Polônia na década de 1980, etc.

Resta, portanto, colocar à frente da reflexão e da luta, não os interesses deste ou daquele partido, deste ou daquele regime político (ditadura ou democracia?), deste ou daquele grupo identitário, mas os interesses de classe (o das classes desprivilegiadas em geral e sobretudo do proletariado). Só assim superaremos a sinuca de bico ao demonstrar que para o proletariado, lutar contra a ditadura não implica em apoiar a democracia, pois o que está em jogo é a superação do capital e do estado (logo, de seus regimes políticos também). O que está em pauta, pois, é a constituição de uma nova sociedade radicalmente distinta da existente, fundada na autogestão social.

Ou é isto ou se ficará eternamente vítima das chantagens da classe dominante e suas classes auxiliares (burocracia e intelectualidade).