segunda-feira, 9 de novembro de 2020
Para Além das Eleições
sábado, 29 de agosto de 2020
Voto Nulo Autogestionário e Coerência Revolucionária
Num momento marcado pela irracionalidade, moralismos e quase total falta de disposição para leituras e reflexões, inicio este pequeno texto afirmando de antemão que existem distintas formas de voto nulo¹. Uma delas em especial aponta para a crítica total da sociedade capitalista e suas instituições: refiro-me à luta pelo voto nulo autogestionário. A luta pelo voto nulo autogestionário que o Movaut - Movimento Autogestionário defende coloca que este se trata de um momento (um meio) para um objetivo final (um fim último). Dessa forma, a crítica radical dos partidos e da democracia burguesa é um meio, uma expressão coerente da luta pela sociedade autogerida que é o objetivo final da luta pelo voto nulo autogestionário.
Logo, não se trata de uma questão conjuntural ou imediata: inclusive, a polarização burguesa atual (focada numa recusa acrítica à figura individual do presidente e seus aliados, o que aponta para o reforço da ilusão eleitoral) tem levado muitos indivíduos honestos a adotarem o voto no mais ou menos “ruim”, perpetuando e reforçando as ilusões de um “salvador” da política institucional no capitalismo. Obviamente que toda esta nuvem de fumaça é de interesse da burguesia e das suas classes auxiliares, incluindo aí os burocratas de partido que aspiram ou ascendem aos cargos no poder estatal, que é o poder político burguês. Isso oculta o fato de que todos os governos no capitalismo existem para manter intocáveis as relações de exploração e dominação de classe e demais relações sociais, que são relações entre classes, marcadas pela luta de classes.
Os governos do PT (que inclusive nos dois mandatos de Lula, foram apoiados pelo então deputado federal Bolsonaro e o partido que na época fazia parte, o PP) assim como os governos antes e pós-PT foram e serão os fieis serviçais da exploração e dominação capitalista. Não importa em qual das instâncias (municipal, estadual e federal), os governos e seus opositores de plantão continuarão criminalizando a luta das classes trabalhadoras – do proletariado em especial – e setores contestadores quando estas saírem de seu controle. Seja sabotando greves selvagens e lutas autônomas, seja minando as expressões políticas e organizações do proletariado revolucionário.
Todos os governos servem a este propósito: garantir as condições necessárias para a reprodução das relações sociais capitalistas. São os agentes reais do estado capitalista, a associação que faz valer os interesses comuns e os negócios das distintas frações da burguesia. Claro que há especificidades nacionais e regionais em cada governo e instância (municipal, estadual, federal) ao longo da história do capitalismo. Mas isso não invalida o fato de que a mutação formal e especificidade local carregam consigo a permanência do essencial: fazer valer os interesses e cumprir as tarefas políticas e econômicas da classe capitalista.
Se ficarmos nesses maniqueísmos, chavões e adjetivos (o que só evidencia a miséria intelectual, psíquica e cultural reinante na sociedade brasileira) do político, partido, governo X ou Y continuamos a perder de vista a totalidade e os interesses de classe do proletariado, a classe revolucionária da sociedade capitalista. Isso porque todos os partidos políticos (e dentro deles quem manda é a burocracia partidária) são organizações que reproduzem a divisão social do trabalho no seu interior e têm como objetivo conquistar o poder estatal.
E isso significa amortecer a luta de classes e a luta proletária em especial, impedindo ou então cooptando as formas organizacionais das classes inferiores, setores contestadores e, por conseguinte, do proletariado: isso porque quando esta classe se autonomiza e expressa seus interesses imediatos e históricos, avança da busca por melhores condições de vida nas relações de produção capitalistas para a luta pela abolição destas mesmas relações de produção e suas formas sociais correspondentes.
A história das lutas demonstra que toda vez que o proletariado e as classes inferiores conseguiram concessões da classe capitalista foi com base numa luta encarniçada, e inclusive contra os partidos: o caso recente no Brasil talvez possa não evidenciar este processo, mas as formas organizacionais criadas historicamente pela classe operária mundo afora foram aqui inspiração para a ação por setores contestadores², em especial no início deste século XXI.
Em síntese, a luta pelo voto nulo autogestionário (luta, pois se vincula ao objetivo final, que é a autogestão social, e não uma simples campanha) difere das demais formas de voto nulo, pois: a) não visa anular as eleições e sim criticar a democracia burguesa, o processo eleitoral e a sociedade capitalista como um todo; b) não se dirige como oposição aos candidatos e aos partidos do momento e sim faz a denúncia da burocracia partidária em geral, explicita seus vínculos com a reprodução do capitalismo e propõe a constituição de novas formas de organização, antagônicas aos partidos políticos; c) faz parte do processo mais amplo de luta pela superação do capitalismo, do qual a democracia burguesa, os partidos e o sistema eleitoral são partes integrantes. Dessa maneira, não se trata de uma atitude individual isolada, mas antes de um momento constitutivo do processo de luta mais amplo: a luta pelo voto nulo autogestionário faz parte da luta pela autogestão social, pois está articulada ao projeto revolucionário e à classe revolucionária de nossa época, o proletariado.
Assim, o voto nulo autogestionário é a ferramenta de luta contra a democracia burguesa e uma forma de demonstrar que somente através da autonomização do proletariado será possível combater radicalmente o conjunto das relações sociais capitalistas. Tal processo precisa se articular com as demais lutas nas demais esferas da vida social, generalizando novas relações sociais, superiores àquelas que os entusiastas da democracia e do voto se esforçam em legitimar visando seguir como classe auxiliar da burguesia. Votemos nulo: lutemos pela autogestão social!
Notas:
Referências
segunda-feira, 10 de agosto de 2020
CONTRA OS PARTIDOS E SINDICATOS
CONTRA OS PARTIDOS E SINDICATOS
Rubens Vinícius da Silva
Escreveu Marx (1977, p. 3, itálico no original) na Introdução à crítica da filosofia do direito de Hegel [1843]: "Dirigidos por nossos pastores, encontramo-nos apenas uma vez em companhia da liberdade: no dia do seu enterro". Qual a relação entre este fragmento e o modo como os partidos e sindicatos buscam se relacionar com as classes inferiores e setores contestadores da sociedade moderna?
A resposta a tal questionamento nos remete ao seguinte: nunca é demais lembrar que todos os burocratas de partidos e sindicatos são "pelegos[1]", sejam eles ocupantes ou aspirantes, conservadores ou progressistas. A burocratização e mercantilização destas duas formas organizacionais é algo irreversível; a relação entre dirigentes e dirigidos que as fundamenta é uma das relações sociais fulcrais das sociedades classistas.
Os seus interesses enquanto fração de classe auxiliar da burguesia (a classe dominante no capitalismo) consistem em impedir que as classes inferiores superem estas formas burocráticas de organização, que ironicamente foram criadas pela classe operária e há mais de um século servem para a reprodução e consolidação do capitalismo. A história do movimento operário está repleta de exemplos onde os partidos e sindicatos foram os principais agentes da contrarrevolução, ao lado da classe capitalista e das suas classes auxiliares.
Dentre outras formas, a miséria contemporânea do bloco progressista[2] se manifesta no desespero eleitoral e na necessidade de controlar, amortecer ou cooptar as formas de auto-organização das classes inferiores e setores contestadores da sociedade capitalista. Do mesmo modo, pode ser observada na busca incessante por legitimar a necessidade da organização sindical (seja nas direções ou nas patéticas "oposições de luta", que só servem como justificativa para ascender à burocracia sindical e manter a apatia e passividade das "bases"), a qual também há mais de um século se revela uma forma de organização antagônica à luta pela autoemancipação humana.
Ambas as organizações são fundadas numa rígida e complexa divisão social, reproduzindo o capitalismo no seu interior. No interior destas organizações emerge um conjunto de funcionários especializados, os quais passam a possuir interesses próprios, vinculados à sua autorreprodução enquanto fração da burocracia. Ao lado disso, os burocratas de partidos e de sindicatos promovem um processo de autovaloração, enaltecendo suas ações com o fim de justificar sua existência. Tal processo caminha em conjunto com o processo de simulação-dissimulação: os burocratas partidários e sindicais do bloco progressista dizer representar os interesses das classes trabalhadoras, mas na verdade estão perseguindo seus interesses enquanto fração de classe auxiliar da burguesia. Desta forma, podemos afirmar que os partidos são estados em potencial e os sindicatos são organizados nos moldes da democracia burguesa, uma das mais sutis ideologias e formas de dominação de classe.
Os partidos políticos só têm um objetivo: tomar o poder e exercê-lo. Os sindicatos possuem horror às relações de produção comunistas, pois a autogestão social significa o fim de sua existência. O proletariado revolucionário e seus aliados têm interesses maiores e mais urgentes: a sua libertação, na forma de criação, generalização e articulação da autogestão de suas lutas, determinação fundamental para a autoemancipação humana.
Referências
MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel – Introdução. São Paulo: Editorial Grijalbo, 1977.
SILVA, José Santana. Sindicalismo: da expectativa revolucionária à conformação burocrática. Goiânia: Edições Enfrentamento, 2020.
VIANA, Nildo. Blocos sociais e lutas de classes. Revista Enfrentamento, ano 10, n. 17, jan/jul. 2015. Disponível em: https://redelp.net/revistas/index.php/enf/article/view/960/830
[1] Na tradição do
sindicalismo brasileiro, termo que caracteriza as direções sindicais que
explicitamente buscam conciliar os interesses entre a classe capitalista e
determinada fração das classes trabalhadores. Sobre o processo de
burocratização do sindicalismo, que sepultou de modo inevitável quaisquer
expectativas revolucionárias a respeito desta organização, consultar Silva
(2020).
[2] Os blocos sociais são as
formas mais organizadas, conscientes e ativas das classes sociais (não devendo
ser confundidos com estas), no caso das classes fundamentais (burguesia e
proletariado), ou de seus setores mais autonomizados, no caso da burocracia e
seus aliados. O bloco progressista reúne frações da burocracia partidária e
sindical popularmente conhecidos como “de esquerda”, ou seja, os setores destas
frações de classe que dizem “representar” os interesses do proletariado e
demais classes inferiores. Acerca dos blocos sociais, conferir o texto Blocos
sociais e luta de classes, de Nildo Viana, publicado na Revista Enfrentamento, ano 10, n. 17, jan/jul. 2015. Disponível
em: https://redelp.net/revistas/index.php/enf/article/view/960/830.
segunda-feira, 13 de julho de 2020
COMO ASSIM VOCÊ NÃO É FEMINISTA?
COMO ASSIM VOCÊ NÃO É FEMINISTA?
Ao dizer
que não sou feminista, logo surgem algumas perguntas já com um “ar de
reprovação”, sem ao menos buscar saber o porquê de tal afirmação: Como assim
você não é feminista? Então você é contra a luta pela igualdade das mulheres em
relação aos homens? Como uma mulher pode não ser feminista?
Parece
natural que a reação da grande maioria das pessoas seja exatamente essa, a de
estranhamento diante do que parece óbvio: “toda mulher é/deve ser feminista”.
Isso acontece porque o feminismo é conhecido como o movimento que luta em favor
das mulheres, de todas as mulheres; um movimento que reivindica a igualdade
social e política entre os sexos. Apesar de hoje se falar de feminismo no
plural (os feminismos), todos eles, com raras e ambíguas exceções, consideram a
mulher — e não o proletariado — o sujeito da ação política, cujo interesse
fundamental seria a luta pela igualdade de direitos em relação aos homens, uma
luta pelo fim de sua opressão[1] numa sociedade “machista”
e “patriarcal”. Esse estranhamento ocorre justamente por se acreditar que o
movimento de luta das mulheres é homogêneo, isto é, desconsiderando que as
mesmas pertencem à classes sociais distintas, desvinculando suas lutas das demais
relações sociais e, por conseguinte, reduzindo-as meramente a uma relação entre
homem-mulher, onde sua opressão seria causada pela “maldade inata do homem”.
Nesse sentido, cria-se a ilusão de uma unidade entre as mulheres que através de
interesses comuns, independentes dos de sua classe, constroem uma “fraternidade
de sexo”, uma “sororidade”.
O
feminismo se coloca como representante dos interesses das mulheres como um
todo, mas, na verdade, representa os interesses das mulheres das classes
superiores[2]. Apesar de estar
ligado ao movimento das mulheres em geral, o feminismo é uma concepção ambígua
(que pode se manifestar sob a forma de ideologia, doutrina ou representações)
que diz representar os interesses das mulheres como grupo social em sua totalidade,
mas no fundo, representa os interesses
individuais, setoriais ou das mulheres de determinadas classes sociais)[3]. Não é possível, portanto,
falar em um movimento unitário das mulheres em uma sociedade dividida em
classes sociais.
De fato,
as mulheres sempre se rebelaram contra a situação social de opressão e
subordinação a qual estão submetidas, e isso ocorreu durante um longo processo
histórico e se desenvolveu sob diversas formas[4]. Contudo, o movimento de
luta das mulheres tem sido por natureza um movimento fragmentado, com múltiplas
manifestações, objetivos e pretensões diversas. O movimento feminino é
considerado por muitos como homogêneo. No entanto, ele é heterogêneo e possui
ramificações com variações em suas manifestações, como é o exemplo do feminismo[5].
Deste
modo, não podemos confundir o movimento social em sua totalidade, o movimento
feminino, com uma de suas ramificações, o feminismo[6]. É imprescindível fazermos
a distinção entre movimento feminino e feminismo, para compreendermos a
diferença entre ambos e superarmos o equívoco que considera todas as lutas,
históricas e concretas das mulheres como sendo lutas feministas.
Apesar do
feminismo ter mais destaque e hegemonia entre as mulheres das classes
superiores, assim como nos meios acadêmicos e de comunicação e suas exigências
aparentemente serem radicais, não se deve perder de vista o fato de que as
feministas não podem e não querem, devido aos seus interesses de classe, lutar
pela transformação radical da sociedade, sem a qual a libertação das mulheres
não se efetivará. O feminismo é expressão da classe burguesa em oposição ao
movimento feminino revolucionário, cuja expressão é a da classe operária. Seu
objetivo implica uma emancipação particular (somente das mulheres), uma vez que
afirma que o agente da libertação da opressão é o próprio indivíduo oprimido.
Logo, a libertação das mulheres seria obra das próprias mulheres. A tentativa
de associar a luta da mulher trabalhadora à luta feminista, não passa de uma
estratégia que desvia da luta de classes, negando o proletariado como único
agente histórico revolucionário.
A luta das mulheres trabalhadoras não pode
ser confundida com a ideologia feminista que busca uma “igualdade” em
conformidade com a ideologia dominante, ou seja, a integração das mulheres no
capitalismo “reformado”, através de conquistas parciais, tais como a
“representatividade” nas instituições burguesas que, aliás, não serão
alcançadas por todas as mulheres, mas criam a ilusão de que é possível
encontrar “seu lugar” na sociedade. Sem dúvida alguma, mesmo que estas reformas
sejam realizadas, a determinação fundamental da subordinação da mulher não será
eliminada.
Então
deve-se abandonar as lutas especificamente femininas em prol da luta de
classes? É óbvio que a resposta é não. O que está sendo combatido é a forma
como isso tem sido feito — além de isolar as lutas das mulheres, tornando-as
autônomas e independentes das demais lutais sociais e acima da luta de classes,
defende que a “maldade inata do homem” é a causa de sua opressão. Um equívoco
que contribui muito mais para a reprodução das relações de subordinação do que
para uma transformação radical dessas mesmas.
A luta,
entretanto, deve ser classe contra classe e não sexo contra sexo[7]. A substituição da luta de
classes pela luta entre os sexos é um verdadeiro entrave para a libertação das
mulheres. É por isso que a luta das mulheres trabalhadoras é ao lado de seus
companheiros de classe, os homens proletários, bem como de todos os homens e
mulheres que se engajam na luta pela revolução, e não ao lado das feministas,
mulheres que expressam os interesses da classe antagônica à sua. Para lutar
pela emancipação das mulheres não é preciso ser feminista, muito pelo
contrário, deve-se combater o feminismo e seu caráter burguês, pois somente
assim, as trabalhadoras poderão construir um movimento, no qual os interesses
de classe estejam acima dos interesses particulares, pois é somente através da
transformação social total, que as mulheres, em particular, e a humanidade, em
geral, poderá se libertar.
Combater o
capitalismo, colocando em primeiro plano a luta pela autogestão social ao lado
do movimento operário, segue sendo uma árdua, mas necessária tarefa das
mulheres trabalhadoras.
[1] Não há como negar
que na sociedade capitalista existe opressão e subordinação da mulher e que ela
passou por diferentes formas e graus, mas que ainda continua existindo. O
grande problema da mulher no capitalismo, bem como em toda sociedade de classe,
é a subordinação. A opressão nas sociedades classistas atinge tanto mulheres
quanto homens, mas a opressão da mulher segue sendo um problema maior que a dos
homens, pois ela é acompanhada da subordinação, transformando-se em algo
quantitativa e qualitativamente diferente. Ver Marxismo, Antropologia e
Subordinação da Mulher, Nildo Viana in A Opressão das Mulheres no
passado e presente – para acabar no futuro: uma perspectiva marxista,
Christophe Darmangeat, 2017.
[2] Sobre classes
superiores e classes inferiores ver “Classes superiores e classes inferiores”,
Viana, 2019.
[3] Sobre movimento
feminino e feminismo ver:
Movimento
Feminino e Feminismo, Marcus Gomes:
https://redelp.net/revistas/index.php/rms/article/view/06gomesms03;
O
Feminismo como Ideologia Reformista, Florence Oppen: http://phl.bibliotecaleontrotsky.org/arquivo/mv06neept/mv
06neept-11o.pdf;
Por
qué no soy feminista: Un manifiesto feminista, Jessa Crispin. Madrid: Lince, 2016;
Os
Fundamentos Sociais da Questão Feminina, Alexandra Kollontai: https://www.marxists.org/portugues/kollontai/1907/mes/fundamentos.htm;
Coletivo
8 de Março: http://coletivooitodemarco.blogspot.com/
Nuevo
Curso: https://nuevocurso.org/diccionario/feminismo/
Barbaria:
http://barbaria.net/tag/critica-al-feminismo/
[4] Concordamos com a
tese de que a opressão das mulheres tem sua origem nas sociedades classistas,
negando, portanto, a naturalização da opressão universal da mulher.
[5] Que, por sua vez, é dividido em
várias tendências: “liberais”, “radicais”, “existencialistas”, “marxistas”,
“anarquistas”, “socialdemocratas”.
[6] Os movimentos
sociais produzem diversas ramificações, isto é, um movimento social pode ser
considerado um caule do qual brotam diversos ramos. Essas ramificações, por sua
vez, são derivações dos movimentos sociais. Apesar de muitas vezes serem
confundidas com um movimento social em si, são partes dele sem ser sua
totalidade ou ele mesmo. Ver: Os Movimentos Sociais, Nildo Viana, 2016.
[7] Sexo contra sexo
ou classe contra classe:
https://www.marxists.org/portugues/reed-evelyn/ano/mes/sexo.htm
sexta-feira, 10 de julho de 2020
O ESPANTALHO FASCISTA DOS ANTIFASCISTAS E A LUTA CONTRA AS ILUSÕES DEMOCRÁTICAS
A questão do combate ao fascismo volta a ser pauta
generalizada após inúmeros acontecimentos, o que vem acirrando os nervos de
diversos blocos sociais[1].
A pandemia e a queda da acumulação de capital já demonstravam a tendência de
uma maior animosidade entre classes, blocos sociais, partidos etc. Este cenário
gera uma tensão crescente, em especial entre o proletariado e demais classes
inferiores, os quais ao longo dos sucessivos governos democráticos estão
assistindo a piora cada vez maior de suas condições de vida (corrosão de
direitos trabalhistas, arrocho salarial, etc.). Como se não bastasse, num
contexto marcado por tal situação desesperadora, nos deparamos com um governo
cujos discursos são marcados não pela conciliação, mas pela continuidade e insistência
(até suas últimas consequências) na polarização, agora entre governistas e
não-governistas. Assim, a aparência comedida que tanto caracterizava a
burocracia governamental parece não mais existir: o presidente não mascara seu
desprezo pela população (sobretudo em se tratando do proletariado e outras
classes inferiores) e sim o escancara. Tal postura causa espanto, revolta e
exalta os ânimos de indivíduos e setores influenciados pelas correntes de
opinião e representações produzidas pelo capital comunicacional e pela ação do
bloco progressista. Não é absurdo imaginar que se o governo moderasse o
discurso a revolta seria menor, ainda que fossem mantidas as mesmas políticas.
Agora novamente se fala em defender a democracia. Os sociais democratas elegeram esta máxima como a salvação da humanidade, o triunfo supremo da civilização. Os leninistas a defendem como um melhor caminho para realizar sua tomada do estado. Os anarquistas cambaleiam tentando defendê-la enquanto tentam ter o mínimo de concordância com seus ideais anti-estatistas. Juntam-se todos a defender a democracia contra o “fascismo”. O antifascismo é esse bolo ideológico que aglutina parcela da classe proletária e do bloco revolucionário[2] para dentro de uma ação conservadora. É orquestrado e tocado pelas mesmas figuras carimbadas ao longo da história e seus resultados já são dados. Não é de se espantar que muita gente esteja revoltada com os dizeres e ações repulsivos do governo e do presidente. Também não surpreende que essa revolta esteja sendo direcionada para a defesa da democracia, pois o discurso democrático é o discurso da garantia de direitos, do respeito, da “egalité, fraternité, liberté”[3]. Parcelas significativas de diversas classes sociais percebem este discurso como possibilidade concreta de realização: “Hoje está ruim porque fascistas comandam o país, quando líderes democráticos assumirem as coisas irão melhorar. Quando reina a democracia, reina a liberdade”.
Junto da defesa da democracia vem as frentes democráticas e “antifascistas”, organizações políticas ou um conjunto delas que teriam o propósito de representar o interesse democrático da população. Clamam aos revolucionários, bem como aos lumpemproletários, proletários e demais classes subalternas que abracem a luta democrática. Imploram que se abandone as diferenças para lutar contra um “inimigo comum”, pois a ameaça iminente de uma ditadura totalitária colocaria em risco os interesses de classes e blocos sociais distintos. Tal ditadura, argumentam, já teria começado. Para garantir nossos direitos e nossa liberdade precisaríamos defender com unhas e dentes as instituições democráticas. Esta espécie de fetichismo com a democracia é, obviamente, um construto ideológico burguês. A defesa da democracia reforça a hegemonia burguesa, já que historicamente ela é apenas uma forma que a classe dominante tem para gerir seus interesses.
Esquecem-se, às vezes de propósito e às vezes não, que foi na democracia norte americana que morreu George Floyd. Esta mesma democracia que muito antes de Trump já causou todo tipo de dominação e violência ao redor do globo e dentro de suas fronteiras. É a democracia dos países de capitalismo imperialista que, diante das necessidades e interesses do capital bélico (em especial no caso dos EUA) promovem guerras de rapina (anos 1950 Coreia; anos 1960-70 Vietnam; anos 1980-1990 Oriente Médio e América Latina; anos 1940-1990 Guerra ‘Fria’) a fim de manter sua elevada acumulação de capital. Foi na democracia (também) que o Estado brasileiro subjugou populações indígenas, ribeirinhas e quilombolas[4]. Foi na democracia que se prendeu Rafael Braga por portar uma garrafa de pinho sol e se aprovou a chamada lei “antiterrorismo”[5], que serve, basicamente, para reprimir de maneira mais eficiente os movimentos sociais que se busca criminalizar. É na democracia que se trabalha e morre sem o direito a tomar os meios de decisão de nossas vidas. Que interesse tem o proletariado em defender a democracia? Que benefício traz ao projeto revolucionário defender as instituições burguesas? Quando se prega aos quatro ventos o evangelho da “união de esquerda” e da “frente antifascista” esconde-se o fato de que, embora alguns interesses imediatos pareçam coincidir (não é do interesse do proletariado nem dos revolucionários um regime fascista), os objetivos concretos de tais frentes não apenas divergem daqueles dos revolucionários mas são antagônicos a eles. Em última instância aliar-se a estas organizações é aliar-se ao projeto burguês de sociedade, pouco importa se o discurso ideológico que adotam é mais moderado e revestido de liberalismo. Pouco importa também se os membros que compõe as frentes se auto intitulam “comunistas” ou “anarquistas”. É preciso ter em mente que quando se fala em fortalecer as “instituições democráticas” se está falando em fortalecer as instituições burguesas. Quando o objetivo é defender a democracia, se está a defender a sociedade capitalista. É essa mesma sociedade que irá combater com veemência qualquer tentativa revolucionária por parte do proletariado. Da mesma forma as frentes e uniões de esquerda combatem de toda maneira qualquer postura mais radicalizada de seus membros.
Precisamos romper com a lógica de olhar apenas o horizonte imediato, no qual tudo que se enxerga são aqueles que possuem, no momento, as ferramentas de dominação. Não há espaço para, apenas por causa das emoções que surgem diante dos absurdos do governo, abrir mão dos nossos interesses históricos, de um horizonte que aponte para outra sociedade, um horizonte revolucionário. É preciso mais do que nunca manter a crítica o mais radical possível, sem desviar para concessões reformistas. Realizar a defesa da democracia burguesa é abrir mão desse horizonte. Incentivar o proletariado e parte do bloco revolucionário a aderir a esta causa é trabalhar contra a superação desta sociedade, uma vez que se está trabalhando por sua manutenção. Não se trata de pensar que a classe proletária irá aderir ao projeto revolucionário em bloco de maneira imediata. Sabe-se dos limites do proletariado “em-si” que permanece subjugado pela ideologia burguesa e burocrática de nossos tempos. Também não se trata de desconsiderar as manifestações que surgem no Brasil como meras insurgências partidárias e reformistas. No momento o que ocorrem são revoltas espontâneas e organizadas sobre anseios comuns. Parte da população está revoltada, ainda que não tenha bem em mente contra o quê. Reconhecer os limites da consciência imediata do proletariado não significa negar o potencial concreto de sua elevação em classe autodeterminada (para-si) que será sempre uma possibilidade real enquanto existir capitalismo (consequentemente enquanto houver burguesia e proletariado). Cabe àqueles que defendem um projeto revolucionário justamente radicalizar e tencionar determinados setores, auxiliar na medida do possível o desenvolvimento deste processo. Isso inclui, também, abordar seu amigo e seu colega “antifascista” e dizer com todas as letras que ele está defendendo uma pauta conservadora. Não abrir mão da crítica e deixar claro quais os interesses por trás da ideologia do antifascismo, que é em última instância a manutenção da sociedade burguesa.
A luta contra o capital já é uma luta “antifascista”, na medida em que o fascismo é um fenômeno do capitalismo, mas ela também é uma luta “antidemocrática”. Há muito já dizia um velho barbudo alemão: “o poder executivo do Estado moderno não passa de um comitê para gerenciar os assuntos comuns de toda a burguesia”. Nosso interesse não é manter este comitê nem lutar pelos assuntos comuns da burguesia. Nosso interesse é de superar por completo essa sociedade, de instaurar a autogestão social.
[1] Os blocos sociais são determinadas formas mais
organizadas e conscientes de parcelas de classes sociais distintas que possuem
programas e interesses comuns. Gravitam em torno do conflito das duas classes
fundamentais (proletariado e burguesia) mas não devem ser confundidos com as
mesmas.
[2] O bloco revolucionário é formado pelos indivíduos
mais avançados do proletariado e membros de outras classes sociais (geralmente
as classes desprivilegiadas) que aderem ao projeto revolucionário do
proletariado.
[3] “Igualdade, fraternidade e liberdade”. Slogan
utilizado durante a revolução francesa cujo conteúdo se dá na defesa de
supostos direitos universais que viriam a ser garantidos pela república, em
contraposição à “tirania” dos monarcas. Trata-se, historicamente, de um
discurso burguês.
[4] Destacam-se, entre tantos acontecimentos, a
construção da barragem de Belo Monte e as remoções forçadas para a realização
dos megaeventos esportivos (copa do mundo e olimpíadas).
[5] Tanto a prisão de Rafael Braga quanto a aprovação da
lei antiterrorismo curiosamente ocorreram durante o governo petista, assim como
a construção de Belo Monte e as remoções forçadas mencionadas anteriormente.
Hoje a mesma esquerda que um dia participou dessa violência de estado conclama
o combate ao fascismo.
terça-feira, 7 de julho de 2020
REFLEXÕES AUTOGESTIONÁRIAS 11: A IMPORTÂNCIA DA AUTOFORMAÇÃO PARA A CONVICÇÃO REVOLUCIONÁRIA
quinta-feira, 11 de junho de 2020
REFLEXÕES AUTOGESTIONÁRIAS 10: A QUEM SERVE O ANTIFASCISMO?
Mateus Alves






